Uma seleção que já está classificada joga como se sua vida dependesse disso. Esse é o paradoxo que Boston vai testemunhar nesta sexta-feira, às 16h (de Brasília), quando França e Noruega se enfrentam pela última rodada do Grupo I — e o resultado pode redesenhar o caminho do Brasil inteiro na Copa do Mundo.

O Grupo I que virou uma máquina de pressão sobre o Brasil

Lembre de 2018. A França entrou na fase de grupos com aquela sensação familiar de quem sabe que o troféu já tem dono — e mesmo assim quase tropeçou contra a Dinamarca num empate sem gols que deixou Deschamps visivelmente incomodado. Oito anos depois, o roteiro tem semelhanças perturbadoras: a seleção gaulesa chega à última rodada com seis pontos, classificada, mas com um adversário que não veio à Copa para passear. A Noruega também tem seis pontos. A diferença entre as duas é de um único gol no saldo — cinco a quatro, em favor dos franceses — e essa margem microscópica transforma o jogo de hoje num duelo de nervos que vai além do Grupo I.

A Noruega liderava a chave até os acréscimos da sua vitória por 3 a 2 sobre o Senegal, na segunda-feira. O gol sofrido no fim — aquele tipo de gol que você sente no estômago horas depois — permitiu que a França, que havia goleado o Iraque por 3 a 0, tomasse a ponta pelo saldo. Agora, os franceses dependem apenas de um empate para garantir o primeiro lugar. A Noruega precisa vencer.

Deschamps no funeral e Guy Stéphan no banco de Boston

Tem algo de cinematográfico — e triste — no cenário desta sexta-feira. Didier Deschamps foi liberado pela comissão técnica para acompanhar o funeral de sua mãe, que morreu na última terça-feira (23). Quem vai sentar no banco é o auxiliar Guy Stéphan, que carrega o peso de comandar uma das favoritas ao título num momento em que o vestiário precisa equilibrar o luto do treinador com a concentração de uma partida decisiva.

"Primeiro, penso no Didier e sua família, tudo que está acontecendo. Nossos sentimentos. Ele está sofrendo com o que aconteceu, eu falo com ele bastante. Conversamos há alguns minutos e vai ser assim até o jogo. Amanhã é um dia especial, porque será o funeral. Eu vou garantir que esta situação, estressante, seja o mais normal possível", disse Stéphan.

O zagueiro William Saliba não joga — poupado por problema nas costas, dará lugar a Lacroix na defesa. Fora isso, a França vai a campo com força máxima. Stéphan deixou claro que a missão que Deschamps deixou antes de partir é uma só: primeiro lugar.

"Logisticamente é totalmente diferente. Se ficar em segundo lugar é bem mais longe, tem a diferença de temperatura, fuso... Não é a mesma área", explicou o próprio auxiliar, descrevendo o que separa Nova Jersey — destino dos líderes do grupo — de Dallas, onde o segundo colocado terá que jogar nas oitavas.

Nova Jersey ou Dallas — e por que isso importa tanto para o Brasil

A lógica logística é simples e brutal ao mesmo tempo. A delegação francesa está hospedada em Boston. Se confirmar a liderança, o próximo jogo será em Nova Jersey — cerca de uma hora de voo. Se terminar em segundo, o destino é Dallas, mais de quatro horas de avião, com fuso e temperatura radicalmente diferentes. O volante Aurélien Tchouaméni resumiu o raciocínio sem rodeios: "Tem menos viagem envolvida se formos líderes. É um fato."

Mas há um segundo mapa sendo desenhado aqui, e ele tem cores verde e amarela. A Seleção Brasileira, líder do Grupo C após vencer o Haiti por 3 a 0 com gols de Matheus Cunha e Vinícius Jr., pode cruzar com o segundo colocado do Grupo I já nas oitavas de final. Isso significa que o resultado de hoje em Boston pode colocar o Brasil diante de Mbappé — ou de Haaland — na primeira fase eliminatória da Copa.

Se a França vencer ou empatar e confirmar o primeiro lugar, vai enfrentar um dos melhores terceiros colocados nas oitavas. O segundo colocado da chave — seja França ou Noruega — pega a Costa do Marfim na primeira rodada do mata-mata. Se avançar dessa fase, encontra o líder do Grupo C. Ancelotti e seus jogadores estão de olho nisso.

Mbappé contra Haaland — o duelo que a Copa precisava

Há algo de inevitável nesse confronto. Kylian Mbappé, que já soma 16 gols em Copas do Mundo — igualando Miroslav Klose e ficando a dois de Messi no topo histórico —, contra Erling Haaland, o centroavante que entregou dois gols e uma assistência contra o Senegal e que carrega a Noruega nas costas com uma naturalidade desconcertante. Os dois se enfrentaram sete vezes na Champions League antes de se olharem por suas seleções. Hoje é a primeira vez que jogam um contra o outro numa Copa.

O calor de Boston nesta tarde de junho, o gramado do Gillette Stadium, a torcida dividida entre a elegância francesa e o furor escandinavo — tudo isso serve de moldura para um jogo que vai além dos seis pontos já conquistados por cada lado. A França joga pela memória do que Deschamps construiu em anos de trabalho. A Noruega joga pelo sonho de uma geração que nunca chegou tão longe.

A bola rola às 16h. O Brasil assiste de Nova Jersey — e torce para saber, antes de entrar em campo contra a Escócia, quem vai esperar do outro lado das oitavas.