O vestiário em Waltham, Massachusetts, estava mais silencioso do que o normal na terça-feira (23). Não havia instrução tática sendo desenhada no quadro, nenhuma voz familiar comandando a postura defensiva. A notícia da morte de Ginette Deschamps esvaziou algo além do banco de reservas — tirou de campo o homem que está à frente da Copa do Mundo francesa há 14 anos. Didier Deschamps voou de volta à França para o funeral da mãe, e a missão mais delicada da competição ficou nas mãos de Guy Stéphan.
O luto que atravessou o Atlântico e chegou ao banco de reservas
Ginette Deschamps morreu na manhã de terça-feira, 23 de junho. A Federação Francesa de Futebol (FFF) comunicou o falecimento horas depois, em nota que confirmava o afastamento temporário do treinador: "O técnico da seleção nacional soube esta manhã da morte de sua mãe e retornará à França para comparecer ao funeral." Philippe Diallo, presidente da federação, estava pessoalmente no centro de treinamento em Waltham quando a decisão foi tomada em comum acordo com Deschamps.
Há uma simetria pesada nessa ausência. Deschamps é, talvez, o homem mais ligado à história do futebol francês em toda a sua extensão: capitão do título de 1998, na Copa disputada em casa, e arquiteto do bicampeonato em 2018, na Rússia. Esta Copa de 2026 marcaria sua despedida como técnico. Sair do banco justamente no jogo que definia a liderança do Grupo I, contra a Noruega, é o tipo de ironia que só o futebol produz — e que nenhum roteirista ousaria escrever.
A Copa do Mundo já viu técnicos ausentes por questões disciplinares, como os dois jogos de suspensão de Giovanni Trapattoni na Itália dos anos 90, e por razões de saúde, como o afastamento de Carlos Alberto Parreira em 1994. Mas o luto de um treinador em plena fase de grupos, com o jogo transmitido para o planeta inteiro, tem uma carga emocional de outra natureza.
A Fifa, por sua vez, negou o pedido da FFF para que os jogadores usassem braçadeira preta em homenagem à mãe de Deschamps. O minuto de silêncio realizado antes da partida no Estádio de Boston foi dedicado às vítimas do terremoto que destruiu Caracas na noite de quarta-feira (24), deixando mais de 920 mortos e 2.980 feridos, segundo o governo venezuelano. A homenagem pessoal ficou, portanto, reservada ao campo.

Guy Stéphan e a arte de conduzir um grupo sem ser o protagonista
Guy Stéphan tem 62 anos e uma trajetória que muitos torcedores franceses reconheceriam apenas pela silhueta ao lado de Deschamps. Auxiliar do técnico desde 2012, ele é o tipo de profissional que os grandes clubes europeus chamam de "ombra" — a sombra funcional que garante a continuidade quando a luz principal se apaga. Antes de Deschamps, trabalhou com René Girard no Montpellier e integrou comissões técnicas em Rennes e Brest, sempre na função de coordenador de treinos e análise tática.
Em coletiva de imprensa antes do jogo contra a Noruega, Stéphan foi direto sobre o peso do momento: "A gente está pensando, eu, toda a comissão e os jogadores, no Didier e na família dele. Ele está muito afetado com o que está acontecendo... Vou tentar tornar a situação difícil a mais normal possível." A escolha da palavra "normal" não é casual — ela revela a estratégia. Não transformar o luto em combustível emocional, mas neutralizá-lo taticamente para que o grupo funcionasse dentro de seus padrões.
Aurélien Tchouaméni, que voltou aos treinos na terça-feira após gerir uma lesão no adutor — havia ficado no banco sem aquecer na vitória por 3 a 0 sobre o Iraque — resumiu o espírito do vestiário com precisão: "É um momento complicado para todo mundo. Nosso objetivo é deixá-lo o mais orgulhoso possível. Temos certeza de que o Guy vai seguir nessa linha. Eles se comunicam. Vamos manter nossos princípios." O jogador do Real Madrid, segundo capitão do grupo, funcionou como termômetro emocional de um elenco que decidiu transformar o luto em missão.
Dembélé decide antes do intervalo e reacende o debate da Bola de Ouro
Decidiu.
Não foi Mbappé, não foi Griezmann. Foi Ousmane Dembélé, camisa 7 do PSG, quem tomou conta do jogo em Boston com uma exibição que vai ocupar os analistas táticos por semanas. O primeiro gol saiu aos 7 minutos; o segundo, aos 20'; o terceiro, aos 32'. Hat-trick completo antes do apito do intervalo, enquanto Erling Haaland — que havia dito com sua característica franqueza que a França "provavelmente vai nos ganhar" — observava do banco norueguês.
A declaração de Haaland, dada após a vitória da Noruega por 3 a 2 sobre Senegal, na segunda-feira (22), tinha soado como modéstia calculada: "Não me importo muito. Provavelmente eles vão ganhar de nós e provavelmente serão campeões da Copa." O atacante do Manchester City, que chegou ao jogo empatado com Mbappé em quatro gols na artilharia — ambos atrás de Messi, com cinco —, viu a tarde em Boston confirmar seu prognóstico mais pessimista. A Noruega descontou no segundo tempo, com um pênalti desperdiçado por Strand Larsen aos 50 minutos — Maignan defendeu com relativa tranquilidade — antes de marcar pelo placar final de 3 a 1.
O hat-trick de Dembélé reabriu uma discussão que havia esfriado desde sua Bola de Ouro de 2024: o atacante de 29 anos está vivendo a Copa do Mundo como extensão direta da melhor fase de sua carreira no PSG. Comparações com o Zidane de 1998 — que marcou dois gols de cabeça na final contra o Brasil e levou a França ao título em casa — são inevitáveis quando um jogador francês domina uma Copa desta forma. Zidane não era artilheiro naquele torneio; era o organizador. Dembélé, nesta edição, acumula as duas funções.
A França terminou a fase de grupos na liderança do Grupo I, com saldo de gols superior ao da Noruega (que também avançou). Para as oitavas de final, Deschamps deve retornar ao banco — a FFF indicou que ele estaria de volta ao campo-base em Waltham antes do mata-mata. O técnico que ganhou a Copa como jogador em 1998 e como treinador em 2018 terá uma última chance de completar a trilogia. Stéphan cumpriu sua parte: entregou o grupo intacto, motivado e com três pontos. Como um maestro de orquestra que assume o regente titular no meio do concerto e faz a plateia esquecer, por alguns compassos, que alguém está faltando.








