O episódio envolvendo a árbitra assistente Esra Arıkboga, derrubada durante partida do campeonato turco sem receber ajuda dos jogadores para se levantar, reacendeu o debate sobre as punições para agressões contra membros da equipe de arbitragem. Uma análise dos regulamentos disciplinares da CBF, da Federação Turca de Futebol e da UEFA revela diferenças significativas no tratamento dessas infrações, que vão desde multas simbólicas até suspensões por tempo indeterminado.
No Brasil, o Código Brasileiro de Justiça Desportiva prevê suspensão de 1 a 6 jogos para "ofender alguém em sua honra" e de 4 a 12 partidas por "praticar agressão física". O artigo 254-A, incluído em 2019 após casos de violência contra árbitros, estabelece que agressões contra membros da equipe de arbitragem podem resultar em suspensão de 30 a 360 dias. A medida mais severa foi aplicada ao jogador William Ribeiro, do São Paulo-RS, suspenso por 15 anos após agredir o árbitro Rodrigo Crivellaro com um soco em 2021.
Regulamentação turca prevê multas e suspensões variáveis
A Federação Turca de Futebol adota sistema de punições graduais baseado na gravidade da infração. Empurrões contra árbitros resultam em suspensão de 3 a 8 jogos, enquanto agressões físicas podem gerar banimento de 6 meses a 2 anos. No caso específico de Arıkboga, a federação ainda não divulgou punições aos jogadores envolvidos no incidente, mas precedentes indicam multas de 5.000 a 25.000 liras turcas (aproximadamente R$ 800 a R$ 4.000) para clubes cujos atletas desrespeitam árbitros assistentes.
O técnico Fatih Terim, do Galatasaray, foi suspenso por 3 jogos em 2022 após empurrar um quarto árbitro durante partida contra o Fenerbahçe. Já o zagueiro Serdar Aziz, do mesmo clube, recebeu 6 jogos de suspensão por "comportamento agressivo" contra a equipe de arbitragem em 2023, demonstrando que a federação turca tem aplicado as punições previstas em regulamento.
UEFA adota critério de tolerância zero desde 2016
A União Europeia de Futebol implementou em 2016 o programa "Respect", que estabelece suspensão automática mínima de 5 jogos para qualquer contato físico com árbitros, independentemente da intensidade. O regulamento disciplinar da UEFA classifica como "agressão" desde empurrões leves até socos, com punições que podem chegar ao banimento vitalício em casos extremos.
"Qualquer jogador que toque um árbitro de forma agressiva será automaticamente suspenso por no mínimo 5 partidas. Não há margem para interpretação", declarou Roberto Rosetti, chefe da arbitragem da UEFA, em entrevista à ESPN em 2023.
O atacante Karim Benzema foi suspenso por 1 jogo em 2022 após tocar no ombro do árbitro Daniele Orsato durante Real Madrid x Manchester City, enquanto o volante Casemiro recebeu 4 jogos por empurrar o árbitro Michael Oliver em partida da Seleção Brasileira contra a Argentina, em 2021. A diferença nas punições reflete a análise caso a caso que a UEFA mantém, apesar do critério de tolerância zero.
Árbitros brasileiros relatam aumento da proteção institucional
Segundo dados da Comissão de Arbitragem da CBF, os casos de agressão física contra árbitros no futebol profissional brasileiro diminuíram 60% entre 2019 e 2024, passando de 15 para 6 ocorrências anuais. O árbitro FIFA Raphael Claus, que atua no Brasileirão desde 2014, atribui a melhora ao endurecimento das punições.
"A criação do artigo 254-A foi fundamental. Hoje os jogadores pensam duas vezes antes de partir para cima da arbitragem, porque sabem que a punição pode encerrar a temporada ou até a carreira", afirmou Claus em entrevista ao portal GE em dezembro de 2024.
A árbitra assistente Fernanda Colombo, primeira mulher a atuar em final de Campeonato Brasileiro, destaca que o protocolo de segurança implementado pela CBF inclui escolta policial em jogos de risco e comunicação direta com delegados da partida. Em 2023, ela precisou ser escoltada após receber ameaças durante Flamengo x Palmeiras, no Maracanã.
A diferença mais significativa entre os regulamentos está na aplicação prática das punições. Enquanto Brasil e UEFA mantêm comissões disciplinares permanentes que analisam casos em até 72 horas, a Turquia ainda depende de tribunais esportivos que podem demorar semanas para julgar infrações, permitindo que jogadores continuem atuando enquanto aguardam julgamento. O próximo teste para a eficácia desses sistemas será a Copa do Mundo de 2026, quando árbitros de diferentes nacionalidades estarão sob a jurisdição da FIFA, que adota critérios similares aos europeus para punições disciplinares.

