Não foi a bandeira belga que mais surpreendeu no court 9 de Roland Garros na segunda-feira. Foi o caminho que Raphaël Collignon precisou percorrer nos bastidores — pedindo ingressos a um tenista argentino que mal conhecia — para garantir que sua família e seus amigos vissem ao vivo aquele que foi o primeiro jogo do liégeois de 24 anos num Grand Slam em Paris. O resultado em quadra, uma vitória sobre o australiano Aleksandar Vukic (ATP 96) por 6-3, 6-3 e 7-6(4), foi quase consequência natural de uma arquibancada que funcionou como uma extensão do vestiário.
A batalha pelos ingressos que ninguém viu antes do saque inicial
Collignon, que encerrou a semana ranqueado em 62º no ATP, tem direito a uma cota limitada de credenciais para convidados — como qualquer jogador no circuito. O problema é que Roland Garros não é Eastbourne nem Marrakech. A demanda para ver um belga estreante num Grand Slam, especialmente um que vem de Liège e carrega o entusiasmo de uma cidade inteira, superou em muito a oferta oficial.
"Lá, c'était vraiment la galère pour trouver des places. J'ai dû demander à un Argentin, j'ai demandé à plein de joueurs pour essayer d'avoir ces deux tickets", admitiu Collignon ao L'Équipe, descrevendo a peregrinação pelos vestiários da Porte d'Auteuil em busca de bilhetes extras.
No total, o belga precisava de seis ingressos adicionais além da cota padrão. Tia, padrinho, pai, namorada, família da namorada — a lista cresceu rápido. Seu treinador Steve Darcis, ex-top 38 do mundo e capitão da equipe belga de Copa Davis, também entrou na articulação. O que para um argentino no circuito é uma negociação corriqueira entre colegas de vestiário — esse tipo de troca de ingressos faz parte da cultura do tênis sul-americano desde os tempos de Vilas —, para um estreante belga num Grand Slam representa um exercício inédito de networking sob pressão. No fim, Collignon conseguiu tudo o que precisava.
O court 9 virou Fayenbois e os números confirmaram o efeito
Com a arquibancada lotada de rostos conhecidos, Collignon entrou em quadra num estado que os analistas de desempenho chamariam de home-court advantage psicológico — algo raro em Grand Slams para jogadores fora do top 30. Segundo apuração do SportNavo, desde Guga Kuerten em 2000, pouquíssimos tenistas fora do top 50 conseguiram reproduzir em Paris o nível de confiança que Collignon exibiu no primeiro set contra Vukic, dominado por 6-3 com quebra de serviço no momento decisivo.
"Pendant tout le long du match, je me suis senti poussé sur chaque point. À la fin, c'était super de pouvoir partager ça avec autant de monde. J'avais l'impression de jouer à Liège, à Fayenbois dans mon club", disse Collignon após a vitória.
Os dados do primeiro set são eloquentes: Collignon converteu 2 de 4 break points e não cedeu nenhum no próprio serviço. No terceiro set, o tie-break foi resolvido por 7-4, mostrando solidez mental num momento em que jogadores estreantes em Grand Slams costumam travar. Darcis, que acompanhou tudo do banco, reconheceu que o desempenho não foi perfeito — "j'aurais préféré qu'il soit plus agressif" — mas avaliou a vitória como clinicamente necessária para um jogador com pouca experiência em tablados principais de Slam.
Shelton no Suzanne-Lenglen e o teste real de Collignon em Roland Garros
A vitória sobre Vukic projetou Collignon para o confronto mais difícil de sua carreira até aqui: o americano Ben Shelton (ATP 5), no court Suzanne-Lenglen, em último jogo do dia. O head-to-head entre os dois é inédito — primeira vez que se enfrentam no circuito principal — o que elimina qualquer referência histórica direta. Shelton, que tem estatura e potência de quarterback americano, é o tipo de adversário que anula tenistas de médio porte quando estes ficam no fundo da quadra esperando o erro. Darcis foi preciso na análise tática:
"Raphaël possède les armes pour le titiller. Il n'a rien à perdre, il va falloir qu'il joue sa carte, qu'il ne regarde pas trop l'autre et qu'il pense plus à son jeu", afirmou o treinador belga à DH Les Sports+.
Os números de Shelton em Roland Garros 2026 até aqui são consistentes com seu perfil de jogador de serviço dominante em saibro — superfície que, historicamente, reduz a vantagem dos sacadores em relação ao piso duro. Collignon, ranqueado 57 posições abaixo do americano, chega ao duelo com o moral de quem venceu três sets sem ceder serviço no momento crítico. A diferença de ranking é expressiva, mas o contexto importa: Shelton nunca passou da terceira rodada em Roland Garros em nenhuma edição anterior, enquanto Collignon já provou que consegue transformar o ambiente em seu favor quando tem a torcida certa ao redor.
E foi exatamente isso que aconteceu. Collignon venceu Shelton por 6-4 e 6-5 (com virada no segundo set, quando estava perdendo por 4-5 antes de quebrar o serviço do americano), avançando para a terceira rodada de Roland Garros pela primeira vez na carreira. A batalha pelos ingressos, o argentino anônimo que cedeu dois bilhetes, a tia e o padrinho na arquibancada — tudo isso compôs a partitura de uma estreia que Liège vai lembrar por muito tempo. Collignon enfrenta agora o vencedor do duelo da terceira rodada, com a quadra Suzanne-Lenglen já familiarizada com seu nome.










