Se a Copa do Mundo começasse hoje, a França chegaria ao torneio na 18ª colocação do ranking FIFA, atrás de seleções que sequer disputam títulos com regularidade — e sem ter se classificado diretamente pelas Eliminatórias Europeias. É essa realidade, crua e documentada, que levou Didier Deschamps a fazer uma declaração incomum para um técnico de uma das seleções mais laureadas da história: a França não é favorita.
A cena se passa em Paris, num coletivo de imprensa às vésperas de um amistoso preparatório contra a Holanda, no Estádio de Saint-Denis. Deschamps, que em 1998 levantou a taça como capitão naquele mesmo país, escolheu a sobriedade no lugar da arrogância que às vezes acompanha o uniforme azul. A ocasião não era de vaidade — era de diagnóstico.
"Não podemos ter a pretensão de estar entre os favoritos, equipes que estão jogando em alto nível nos últimos quatro ou cinco anos", declarou Deschamps, em palavras que soariam como surpresa para qualquer torcedor que ainda guarda na memória a geração de Zidane.
O peso de 2006 e o vácuo de uma geração inteira
A última vez que a França protagonizou um torneio internacional de verdade foi no verão alemão de 2006, quando Zidane, já aos 34 anos, conduziu os Bleus até a final em Berlim. Aquele jogo, perdido para a Itália nos pênaltis por 5 a 3 após empate de 1 a 1 no tempo regulamentar, foi simultaneamente o crepúsculo de uma geração e o começo de um longo inverno. Seguiram-se a eliminação na fase de grupos em 2010, na África do Sul — com direito a greve de jogadores e escândalo interno —, e uma saída nas oitavas de final em 2014, para a Alemanha, por 1 a 0, em Belo Horizonte.
São oito anos de ausência entre as potências reais do futebol mundial. Para fins de comparação, a Espanha, nesse mesmo intervalo, venceu a Eurocopa de 2008, o Mundial de 2010 e a Eurocopa de 2012 — três títulos consecutivos que redefiniu o padrão do futebol coletivo. A Argentina, por sua vez, chegou à final de 2014. O Brasil, apesar do trauma do 7 a 1, nunca deixou de ocupar o patamar simbólico de favorito. A França, não.
"Você pode questionar o sistema do ranking da Fifa, mas ele está lá", reconheceu Deschamps, ao comentar sobre a 18ª posição francesa — a pior entre todos os campeões mundiais da história viva do torneio.
A repescagem que revelou a fragilidade francesa
O caminho até o Mundial foi tortuoso. A França não se classificou de forma direta pelas Eliminatórias Europeias e precisou disputar a repescagem, onde enfrentou a Ucrânia e avançou com alívio, não com autoridade. Esse tipo de trajetória — comum a seleções que oscilam — raramente aparece no currículo de candidatas ao título. Nos últimos quatro Mundiais, todos os campeões (Itália em 2006, Espanha em 2010, Alemanha em 2014, França em 1998) chegaram à fase final sem depender de repescagem.
No chaveamento da Copa, o reflexo foi imediato: a França não foi colocada entre os cabeças de chave e caiu num grupo em que a Suíça ocupa essa posição. Equador e Honduras completam a chave — um cenário que, numa análise fria, deveria ser favorável aos franceses, mas que, dado o momento da seleção, não pode ser tratado como passagem garantida. Como o trânsito da Avenida Paulista às 18h, o futebol cobra seu pedágio exatamente quando você menos quer parar.
Deschamps como gestor de expectativas e o amistoso que fecha o ciclo
Há uma leitura psicológica importante na postura de Deschamps. Técnicos que rebaixam publicamente as expectativas de suas equipes costumam fazer isso por dois motivos: ou a situação realmente não permite otimismo, ou estão construindo uma narrativa de zebra que libera o grupo de pressão. No caso francês, os dois fatores coexistem. Benzema, Ribéry e Nasri protagonizaram crises extraesportivas nos ciclos anteriores. O elenco atual ainda busca identidade coletiva.
O amistoso desta quarta-feira contra a Holanda, vice-campeã mundial em 2010 — quando perdeu a final para a Espanha por 1 a 0, gol de Iniesta na prorrogação —, serve como termômetro final antes do fechamento da convocação. Em matéria do SportNavo, já foi analisado como seleções que chegam ao Mundial sem ritmo de grandes jogos tendem a depender de talentos individuais nos momentos decisivos. A França tem esses talentos. A questão é se eles formam um time.
Deschamps convocou o elenco sabendo que enfrenta uma seleção holandesa em reconstrução, mas ainda capaz de revelar lacunas táticas. O técnico precisa de respostas sobre a linha defensiva e sobre quem vai compor o meio-campo ao lado de Matuidi. Essas dúvidas, em vez de serem escondidas, foram expostas pelo próprio treinador — um sinal de que a modéstia francesa não é pose, mas retrato fiel de um ciclo ainda em formação. A Copa começa em junho, e até lá, Deschamps quer um time, não uma coleção de nomes.








