Cara, a França tá na Cola-Cola esse ano. Mbappé, Camavinga, o elenco todo…
Pois é. Mas quantas vezes você já ouviu isso e a favorita foi pra casa antes da semi?
Verdade. Mas Deschamps é diferente.

Essa conversa acontece em qualquer mesa de bar do Rio ao Porto Alegre. E ela captura exatamente o dilema que envolve a Copa do Mundo de 2026: a França chega como vice-campeã, com um dos elencos mais caros do planeta (€1,46 bilhão em valor de mercado, liderando o ranking), mas o próprio Didier Deschamps faz questão de apagar qualquer aura de invencibilidade antes de a bola rolar nos Estados Unidos, Canadá e México.

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O feito histórico que Deschamps não quer discutir

Apenas três técnicos na história ganharam a Copa do Mundo como jogadores e depois como treinadores: o brasileiro Zagallo (1958 e 1970 como jogador, 1970 e 1994 como técnico — mas nunca bicampeão só no banco), o alemão Franz Beckenbauer (1974 como jogador, 1990 como técnico) e o próprio Deschamps (1998 como capitão da équipe tricolore, 2018 como treinador). Nenhum deles, porém, venceu duas vezes exclusivamente como técnico. Se Deschamps erguer a taça em julho, ele entra num patamar que não existe ainda na história do futebol.

Ele, claro, desvia do assunto com a naturalidade de quem aprendeu a lidar com pressão em 54 finais de clubes e seleções ao longo da carreira.

"1998 e 2018? A história já foi escrita e ninguém pode apagá-la. Em 1998 e em 2018 eu tinha funções diferentes, mas estive presente nas duas conquistas. Vivi dois momentos maravilhosos — mas não existe nada melhor do que ser campeão do mundo", disse o técnico ao site oficial da Fifa.

Deschamps e a gestão de um elenco de estrelas incompatíveis

O problema da França nunca foi talento — foi sempre a equação entre talento e entrosamento. Em 2022, o time chegou à final no Catar mesmo com Karim Benzema saindo lesionado na véspera do torneio, perdeu para a Argentina nos pênaltis depois de virar de 2 a 0 para 2 a 2 nos acréscimos. Um desempenho coletivo que escondeu inconsistências táticas reais.

Para medir isso com mais precisão, vale olhar o PPDA (passes permitidos por ação defensiva) — métrica que indica o quanto um time pressiona alto. Quanto menor o número, mais agressiva é a pressão. Nos jogos de mata-mata do Catar, a França registrou PPDA médio de 9,8, um número mediano para padrão de elite: times como o Brasil e a Argentina alternavam entre 7 e 8 nos mesmos jogos. Traduzindo: os franceses não pressionavam tão alto quanto os rivais, apostavam mais no bloco médio e na transição rápida com Mbappé. Funciona — mas tem limite contra equipes que sabem sair jogando.

Deschamps reconhece o desafio de encaixar as peças.

"É impossível que joguem todos ao mesmo tempo. Existe um potencial enorme no grupo, mas precisamos encontrar o entrosamento certo, e não apenas escalar pelo talento individual. É preciso equilíbrio, mas acima de tudo que os jogadores sejam complementares e tenham uma boa conexão dentro de campo", admitiu o treinador.

Por que o favoritismo francês precisa de contexto

A França chega à Copa do Mundo 2026 com o elenco mais valioso do torneio, mas o histórico recente das favoritas nos últimos cinco Mundiais é brutal: Alemanha (campeã em 2014) caiu na fase de grupos em 2018; Brasil foi eliminado nas quartas em 2014, 2018 e 2022; Espanha, campeã em 2010, não passou das oitavas em 2014. O padrão é claro — ser favorito não é sinônimo de título.

Olhando pelo xG (expected goals) — a métrica que calcula quantos gols um time deveria ter marcado com base na qualidade das chances criadas, não apenas no placar final — a França nas Eliminatórias Europeias para a Copa gerou média de 2,3 xG por partida. Isso coloca os franceses entre os três times com melhores números de criação de chances qualificadas do torneio, ao lado de Espanha e Inglaterra. Em linguagem direta: eles criam boas oportunidades com consistência, não dependem só de chutes de fora da área ou lances individuais de Mbappé.

  • xG médio por jogo nas Eliminatórias — França: 2,3 | Espanha: 2,5 | Inglaterra: 2,1
  • PPDA médio na Copa 2022 (mata-mata) — França: 9,8 | Argentina: 7,4 | Brasil: 7,9
  • Valor de mercado do elenco — França: €1,46 bi (1º) | Inglaterra: ~€1,2 bi | Brasil: ~€900 mi (6º)

Mesmo com esses números, Deschamps não cede à narrativa da superioridade.

"Fazemos parte de um grupo de 10 ou 12 candidatas que podem sonhar em ser campeãs do mundo. Mas vocês sabem quantas vão conseguir? Apenas uma. Então haverá pelo menos outras 11 opções que sairão decepcionadas", declarou o treinador.

O legado que será selado em campo, não em entrevistas

Deschamps anunciou que esta será sua última Copa do Mundo à frente da seleção francesa. O encerramento de um ciclo que começou em 2012, passou pelo título de 2018 e chegou à final de 2022. Nenhum treinador na história das Copas chegou a três finais consecutivas — o que já seria um feito isolado, independente do resultado em julho.

O técnico, porém, recusa qualquer leitura nostálgica sobre o momento.

"Eu penso apenas no hoje e no amanhã. É assim que eu funciono. Sinceramente, é a única coisa que importa. Estou totalmente focado nisso", afirmou.

A estreia da França na Copa do Mundo de 2026 acontece em 17 de junho, contra a Áustria, em Atlanta. Nessa data saberemos se o time de Deschamps joga mais com o entrosamento que o técnico prega do que com o talento individual que o mundo já conhece — e se o maior feito individual da história do futebol de seleções está mesmo ao alcance do homem que mais sabe o que é erguê-la.