Dois gols em uma mesma partida pela seleção francesa bastaram para mudar a hierarquia na cabeça de Didier Deschamps. No dia 29 de março, em Landover, Maryland, Désiré Doué abriu o placar aos 30 minutos numa triangulação com Maghnes Akliouche e Rayan Cherki, depois ampliou para 3 a 0 aos 56 minutos num passe de Marcus Thuram — e a Copa do Mundo de repente ficou mais próxima para o jogador de 21 anos. Todo mundo já sabia que ele era um talento. O que poucos esperavam era que o cronômetro para sua consolidação fosse tão curto.

O doblete que reescreveu a hierarquia ofensiva da França

O contexto daquele domingo em Landover importa tanto quanto os gols. Deschamps havia avisado na véspera que usaria um time completamente diferente do que havia batido o Brasil por 2 a 1 três dias antes — onze mudanças, onze jogadores em busca de minutos com a lista do Mundial ainda por ser anunciada. Doué aproveitou o espaço com uma atuação que combinava velocidade nas trocas de posição, drible em curta distância e presença na área.

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A Colômbia cedeu 3 a 1. Jaminton Campaz descontou aos 77 minutos, mas o resultado não apagou a impressão deixada pelo meia-atacante formado nas categorias de base do Rennes. Doué havia estreado pela seleção principal apenas em março de 2025, num amistoso contra a Croácia — pouco mais de doze meses depois, já figurava entre os nomes mais quentes da lista de Deschamps, divulgada com um dia de atraso em relação ao previsto por causa do reagendamento do clássico Lens x PSG no calendário da Ligue 1.

"Doué pode atuar na ponta, cortar para dentro ou jogar atrás do centroavante", registrou a Federação Francesa de Futebol (FFF) ao descrever o perfil técnico do atleta após a partida contra a Colômbia.

Essa versatilidade é, ao mesmo tempo, o maior trunfo e o ponto de debate em torno do jogador. Deschamps tem uma prateleira rica no setor ofensivo — Mbappé, Dembélé, Thuram, Cherki, Akliouche — e a disputa por posição transforma cada amistoso numa peneira com consequências reais.

O irmão do lado oposto e a derrota que testou o elenco francês

Se em março Doué brilhou, em junho o cenário foi diferente — e o protagonista da família foi outro. Nesta quinta-feira (4), em Nantes, a França perdeu por 2 a 1 para a Costa do Marfim no primeiro amistoso da reta final de preparação para o Mundial. Guéla Doué, irmão mais velho de Désiré e lateral-direito do Strasbourg, marcou o gol do empate aos 53 minutos depois de ser encontrado por Nicolas Pépé, e ainda deu a assistência para o segundo gol de Amad Diallo aos 84 minutos — um duelo fraternal que nenhum roteirista ousaria inventar.

Os dois nasceram em Angers, filhos de pais marfinenses e mães francesas, e passaram anos juntos na academia do Rennes antes de seguirem caminhos distintos. Guéla, nascido em 2002, optou pela Costa do Marfim após ser convocado pela primeira vez em março de 2024; foi decisivo contra o Uruguai (vitória por 2 a 1) já na estreia. Désiré, nascido em 2005 e portanto três anos mais novo, escolheu a França — e tem uma Liga dos Campeões conquistada com o PSG no currículo, além de uma segunda conquista consecutiva da competição.

"A relação entre nós é próxima como a de gêmeos", descreveu Désiré Doué ao falar do irmão, segundo informações publicadas pelo SportNavo com base em fontes da imprensa francesa.

A derrota desta quinta-feira em Nantes foi a primeira dos Bleus em dez partidas — a sequência anterior havia sido interrompida por um revés para a Espanha por 5 a 4 na Liga das Nações, cerca de um ano atrás. Rayan Cherki abriu o placar no fim do primeiro tempo e foi o jogador mais ativo da França, mas a equipe desacelerou com as substituições no segundo tempo e pagou caro pelas imprecisões defensivas.

O papel que Doué pode ocupar quando a Copa começar

A pergunta que os torcedores franceses fazem é objetiva: Doué joga ou fica no banco em 11 de junho, quando a França enfrenta o Senegal na abertura do Grupo E? Deschamps já sinalizou que o onze da estreia será próximo do que usou no primeiro tempo contra a Costa do Marfim — com Dembélé titular, poupado nesta quinta-feira, e William Saliba recuperado de lesão.

Nesse cenário, Doué começa como opção para os minutos finais ou para jogos em que a equipe precisa de criatividade e desequilíbrio individual. Mas o doblete contra a Colômbia em março mostrou que ele é capaz de decidir quando tem espaço — e a Copa, diferente dos amistosos, produz espaços a conta-gotas. Claude Makélélé, em declarações recentes, resumiu bem o que o ambiente em torno da seleção pensa: "Deschamps conhece o futebol e conhece seus jogadores", disse o ex-internacional, reforçando que o técnico raramente erra na gestão de elenco em grandes torneios.

A França encerra a preparação no dia 8 de junho, em Lille, contra a Irlanda do Norte — último teste antes de embarcar para os Estados Unidos. Se Doué repetir em Lille o que fez em Landover, Deschamps terá um dilema confortável: um atacante de 21 anos, com Champions League no peito e velocidade de decisão comprovada, pronto para ser acionado quando o Mundial exigir.