Quantas vezes na história da Copa do Mundo dois times chegaram à segunda rodada completamente sem pontos, sem gols marcados e ainda assim com chances reais de classificação? A resposta, surpreendentemente, é: mais do que se imagina. E é exatamente aí que mora a tensão deste Panamá x Croácia desta terça-feira, 23 de junho, no Estádio de Toronto — um jogo que vale, na prática, muito mais do que três pontos.
Panamá chegou perto de arrancar um empate na estreia. Dominou a posse de bola contra Gana, somou 11 finalizações e pareceu o time mais organizado durante a maior parte dos 90 minutos. Tudo isso até o minuto 94, quando Caleb Yirenkyi converteu o único gol do jogo e transformou uma tarde promissora em derrota dolorosa. A Croácia, por sua vez, protagonizou um dos duelos mais movimentados da primeira rodada: empatou em 2 a 2 com a Inglaterra antes do intervalo em Dallas, mas cedeu mais dois gols na segunda etapa e saiu de campo derrotada por 4 a 2. O resultado deixou os croatas com saldo de gols de -2, pior do grupo.
O que os números e os protagonistas revelam sobre o impasse
O panorama do Grupo L é cristalino: Inglaterra lidera com 3 pontos e saldo de +2, Gana aparece em segundo também com 3 pontos e +1, enquanto Panamá está em terceiro com -1 e a Croácia ocupa a lanterna com -2. Com o novo formato da Copa 2026 — que avança os dois primeiros de cada grupo mais os oito melhores terceiros entre os 12 grupos — uma derrota não elimina matematicamente nenhum dos dois, mas aprofunda uma dependência de resultados externos que, historicamente, costuma matar campanhas inteiras.
O técnico croata Zlatko Dalic não poupou palavras ao analisar o desempenho defensivo da equipe na derrota para a Inglaterra.
"É muito importante que estemos ao nível adequado após essa derrota. Não podemos nos permitir mais erros", afirmou Dalic, que foi ainda mais duro ao criticar as falhas em bolas paradas — dois dos quatro gols ingleses nasceram de escanteios, um problema que a Croácia nunca deveria carregar dado o nível de sofisticação tática que o time acumulou ao longo de quase três décadas de Copas.
Do lado panamenho, o lateral Michael Amir Murillo destacou a posse de bola como ferramenta central para superar os croatas. A ideia do técnico Thomas Christiansen é repetir a estrutura que funcionou contra Gana — time compacto, saída organizada, domínio do meio-campo — mas desta vez com maior eficiência no último terço do campo, onde os centroavantes foram imprecisos demais na estreia.
A Croácia de Modric e o peso de uma geração que não quer sair pela porta dos fundos
Para entender o que está em jogo para a Croácia, é necessário olhar para trás. Desde o terceiro lugar histórico em 1998, quando uma geração encabeçada por Davor Šuker encheu o imaginário europeu, os croatas falharam em apenas uma Copa — a de 2010, na África do Sul. Em 2018, na Rússia, foram vice-campeões após eliminar Argentina, Inglaterra e Dinamarca. Em 2022, no Catar, voltaram ao pódio com mais um terceiro lugar. É uma consistência rara: nenhuma seleção europeia de porte médio manteve desempenho tão regular em quatro das últimas cinco edições do torneio.
Luka Modric, aos 40 anos, é o símbolo vivo desse ciclo. Ele chegou a esta Copa classificado pela fase eliminatória europeia sem perder uma partida sequer — a Croácia foi invicta na repescagem. Mas o Power Ranking individual da FIFA após o jogo contra a Inglaterra foi constrangedor para o veterano, que foi apontado como um dos piores em campo naquela noite em Dallas. Ivan Perisic e o centroavante Petar Musa devem carregar mais peso ofensivo nesta terça.

Aqui entra um paralelo histórico que me parece inevitável: a Itália de 2002, que perdeu para Coreia do Sul nas oitavas com um elenco recheado de craques e um técnico que não conseguiu readaptar o time após uma derrota inicial inesperada. A Croácia corre risco semelhante — não de ser eliminada por árbitro suspeito, mas de ser eliminada pela própria incapacidade de aceitar que o adversário mais fácil do grupo pode ser mais difícil do que parece no papel.
O que Panamá precisa fazer para escrever história em Toronto
Quem não tem cão caça com gato, e o Panamá aprendeu isso na Copa de 2018, na Rússia, quando estreou no torneio sem jamais ter vencido uma partida em Copas do Mundo. Naquele ano, perdeu para Bélgica (3 a 0), Inglaterra (6 a 1) e Tunísia (2 a 1) e saiu sem pontuar. Agora, em 2026, a segunda participação histórica dos Canaleros passa inevitavelmente por esta partida. Uma vitória contra a Croácia seria, literalmente, o resultado mais importante da história do futebol panamenho.
A receita tática existe: manter a posse, como Murillo sinalizou nos treinos em Toronto, e ser mais cirúrgico nas finalizações. Contra Gana, Panamá teve 11 chutes e não converteu nenhum. Contra uma Croácia que cedeu quatro gols para a Inglaterra e demonstrou fragilidade em bolas paradas, as oportunidades podem surgir com mais regularidade. O risco real está no segundo tempo — se a Croácia abrir o placar e o Panamá precisar se abrir, a velocidade de Perisic e a leitura de jogo de Modric podem ser letais no espaço.
Conforme acompanhado pelo SportNavo ao longo da fase de grupos, o Grupo L se tornou um dos mais equilibrados e imprevisíveis desta Copa 2026 — justamente porque nenhuma das quatro seleções dominou com autoridade na estreia. Inglaterra venceu, mas sofreu dois gols. Gana ganhou no último minuto. Panamá foi superior durante 90 minutos e perdeu. A Croácia empatou por 45 minutos com uma das favoritas ao título.
Se Croácia perder em Toronto e Gana vencer a Inglaterra no outro jogo desta rodada, os croatas estão eliminados antes da última rodada. Para Panamá, uma derrota combinada com vitória inglesa tem o mesmo efeito fatal. O jogo seguinte de cada time acontece na terceira rodada: Panamá enfrenta a Inglaterra e a Croácia joga contra Gana. Qualquer um que perca em Toronto chega a esse confronto final sem margem alguma — vale gravar este jogo de terça-feira, porque a Copa do Mundo 2026 pode acabar para um desses times bem antes do esperado.








