"Quando ganhamos somos todos alemães. Mas se perdemos, somos os negros e, então, aparecem os comentários de macaco." Quem disse isso foi Youssoufa Moukoko, atacante nascido nos Camarões que joga pelo Borussia Dortmund, depois de sofrer uma enxurrada de insultos racistas nas redes sociais. A frase resume, com precisão dolorosa, a contradição que a Copa do Mundo de 2026 trouxe de volta ao centro do debate: o futebol alemão celebra a diversidade quando vence, e a expulsa quando perde.

Em menos de duas semanas de torneio, pelo menos cinco episódios de natureza racial envolvendo o futebol alemão vieram à tona — um árbitro de vídeo australiano, um ex-campeão mundial como comentarista, dois jovens jogadores da seleção sub-21, um zagueiro olímpico e um meia que abandonou a camisa nacional oito anos atrás. A sequência não é coincidência. É padrão.

O gesto que parou a Copa e o árbitro que a FIFA não afastou

No domingo, 15 de junho, durante a partida entre Alemanha e Curaçao em Houston, no Texas, o australiano Shaun Evans, oficial de revisão de vídeo, apareceu na transmissão ao vivo fazendo um símbolo de "OK" invertido com a mão direita, posicionado discretamente na frente da perna. Desde 2019, esse gesto foi designado como símbolo de ódio pela Anti-Defamation League, de Nova York, associado ao movimento de supremacia branca conhecido como "white power".

A rede Fare, parceira oficial da FIFA e da UEFA para monitorar símbolos discriminatórios em jogos internacionais, foi direta:

"O conselho de nossos especialistas é que o gesto usado claramente se assemelha a um símbolo de mão 'OK' invertido, usado como símbolo de 'poder branco' em círculos globais de extrema-direita. Claramente, esse árbitro não deveria ter mais papel nesta Copa do Mundo."

O monitor de discriminação da FIFA pediu o afastamento imediato de Evans na segunda-feira, 16 de junho. Até o fechamento desta reportagem, a entidade não havia se pronunciado publicamente sobre o caso — uma omissão que, por si só, já é uma resposta.

Schweinsteiger, a palavra "selvagem" e os estereótipos coloniais

Quatro dias depois, no sábado 20 de junho, Bastian Schweinsteiger, campeão mundial pelo título conquistado no Brasil em 2014, atuou como comentarista da emissora pública ARD para narrar o confronto entre Alemanha e Costa do Marfim. Ao descrever o estilo de jogo marfinense, o ex-meio-campista usou termos como "futebol africano", "pouco ortodoxo", "um pouco selvagem" e afirmou que a Alemanha deveria estar preparada para um jogo "imprevisível em alguns momentos".

A palavra em questão foi "wild", que em alemão pode significar tanto "selvagem" quanto "irreverente" ou "descontrolado". O jornalista Philipp Awounou, em coluna publicada na revista Spiegel, analisou o peso do termo com precisão histórica:

"Termos como 'selvagem' e 'imprevisível' carregam estereótipos racistas e coloniais. Pessoas negras de origem africana foram historicamente descritas como 'incivilizadas', 'diferentes' ou 'potencialmente perigosas', e essas associações ainda se refletem em alguns discursos esportivos."

Awounou foi cuidadoso ao afirmar que não considera Schweinsteiger um racista, mas avaliou que suas declarações reproduzem uma visão colonialista que o futebol europeu ainda não conseguiu superar. O próprio ex-jogador reconheceu, após a partida, a qualidade técnica da Costa do Marfim — mas o estrago já estava feito no ar.

Moukoko, Torunarigha e a violência que não para na fronteira do campo

Moukoko tinha 18 anos quando, em 22 de junho de 2023, perdeu um pênalti no empate de 1 a 1 contra Israel pelo Campeonato Europeu Sub-21. Seu companheiro Jessic Ngankam, descendente de camaroneses, também cobrou e falhou. O que veio depois foi documentado pelo próprio jogador: redes sociais inundadas com emojis de macaco e comentários que não cabem em texto jornalístico. "Coisas como essa simplesmente não pertencem ao futebol. É repugnante. Desta vez doeu. Nenhum jogador perde um pênalti de propósito", disse Moukoko publicamente.

A Federação Alemã de Futebol (DFB) respondeu com rapidez naquela ocasião: "Para aqueles que fizeram comentários discriminatórios, insultuosos e desumanos contra nossos jogadores após a partida da sub-21 de ontem: vocês nos enojam." O técnico Antonio di Salvo declarou estar "chocado e desapontado" com os ataques a jogadores que "adoram jogar pela Alemanha, que são alemães e que dão tudo por seu país."

O problema é que a velocidade da resposta institucional não apagou o histórico de omissões. Em 2019, quando Ngankam sofreu ataques racistas em partida da equipe sub-23 do Hertha, o clube levou dias para se manifestar. O treinador Andreas Neuendorf chegou a minimizar o episódio: "Alguns dizem idiotas, outros dizem burro e outros macaco. Talvez não tenha havido intenção racista." Essa frase, dita por um profissional em posição de autoridade, diz mais sobre a estrutura do problema do que qualquer declaração de boa vontade posterior.

No plano olímpico, o caso de Jordan Torunarigha em julho de 2021 permanece como um dos episódios mais simbólicos. Em amistoso contra Honduras, disputado em Wakayama, no Japão, o zagueiro negro da seleção olímpica alemã foi alvo de insulto racial. O técnico Stefan Kuntz retirou o time de campo antes do fim, com o placar em 1 a 1. "Quando nossos jogadores sofrem abusos raciais, continuar jogando não é uma opção", declarou Kuntz. A Federação de Honduras classificou o episódio como "mal-entendido" — o tipo de resposta que, no Brasil, soaria familiar como o trânsito da Avenida Paulista às 18h: todo mundo sabe que existe, mas ninguém quer ser responsabilizado por ele.

O legado de Özil e o que a Alemanha ainda não resolveu

O caso mais emblemático continua sendo o de Mesut Özil. O meia nascido na Alemanha, filho de imigrantes turcos, foi peça central na conquista do título mundial de 2014 — marcou o gol decisivo na semifinal contra o Brasil, no Mineirão, no histórico 7 a 1. Em maio de 2018, antes da Copa da Rússia, tirou uma foto com o presidente turco Recep Tayyip Erdogan. A reação foi imediata: torcedores, dirigentes e parte da imprensa alemã o acusaram de falta de lealdade nacional.

A Alemanha foi eliminada na fase de grupos naquela Copa, com derrota humilhante para a Coreia do Sul por 2 a 0 na última rodada. Özil foi transformado em bode expiatório. Em julho de 2018, anunciou sua aposentadoria da seleção com uma carta pública que virou documento histórico: descreveu como se sentia "alemão quando ganhamos, imigrante quando perdemos" e acusou dirigentes da DFB de racismo. Tinha 29 anos e 92 partidas pelo selecionado, com 23 gols marcados.

O especialista em racismo Lorenz Narku Laing, professor da Universidade Protestante de Ciências Aplicadas em Bochum e integrante da Comissão Federal Antirracismo da Alemanha, avaliou em matéria do SportNavo que "isso tem faltado nos últimos anos" — referindo-se à disposição das federações de tornar visível que o abuso racial é errado. "Eu espero que continue", acrescentou, com uma cautela que, diante dos episódios de 2026, parece ter sido profética.

O padrão histórico é claro: reação rápida quando o caso vira manchete, omissão estrutural quando o holofote apaga. A Copa do Mundo de 2026 colocou cinco episódios em menos de duas semanas. A FIFA tem prazo até o encerramento do torneio, em 19 de julho, para responder ao pedido de afastamento de Shaun Evans — e a resposta, ou a ausência dela, será o termômetro mais preciso sobre o quanto o futebol mundial realmente mudou desde que Özil largou a camisa número 8 da seleção alemã.