Como você compara um Stradivarius de 1715 com um sintetizador de 2010? A pergunta parece absurda, mas é exatamente o tipo de impasse que Ronaldo Fenômeno e Romário colocaram sobre a mesa ao debater quem são os maiores jogadores da história do futebol — e se Lionel Messi, com 18 gols em Copas do Mundo e o recorde absoluto de artilharia do torneio conquistado nesta segunda-feira (22), pertence ao mesmo patamar de Pelé e Diego Maradona.
O ponto de partida foi uma declaração de Ronaldo que rapidamente saiu do controle nas redes sociais. Em entrevista à Romário TV, o R9 elogiou o desempenho do argentino de forma tão enfática que muitos entenderam que ele havia coroado Messi como o melhor de todos os tempos — algo que o próprio Ronaldo foi a campo esclarecer. O que ficou, porém, foi uma conversa rara: dois dos maiores centroavantes da história tentando, juntos, mapear os limites de uma comparação que o futebol nunca conseguiu fechar.
Romário, campeão do mundo em 1994 ao lado de Ronaldo, ouviu os elogios e imediatamente levantou a questão central: com base em qual critério? A provocação foi direta, e a resposta de Ronaldo acabou sendo a parte mais reveladora do debate.
O que Ronaldo disse de fato sobre Messi e os critérios históricos
Ronaldo foi preciso ao contextualizar sua fala original. Segundo ele, Messi integra um seleto grupo de três nomes — Pelé, Maradona e o próprio argentino — com outros candidatos logo abaixo. Mas o R9 fez uma ressalva técnica que passou despercebida no barulho das redes sociais.
"O Messi, para mim, é top-5 do mundo, histórico, e para sempre será. Pelé, Maradona, Messi... Tem uma galera que poderia estar ali. E de centroavante, quem foi melhor do que eu e você? Esses caras não são centroavantes. Tem que entender o critério", disse Ronaldo a Romário durante a entrevista.
A distinção por posição não é trivial. Pelé, Maradona e Messi são meias-atacantes ou falsos noves — jogadores que constroem, distribuem e finalizam. Ronaldo e Romário foram centroavantes puros, cujas funções táticas e físicas diferem radicalmente. Colocá-los na mesma escala, argumentou Ronaldo, é como comparar o recorde de Usain Bolt nos 100 metros com o de Kipchoge na maratona: ambos são os melhores do mundo em corrida, mas em disciplinas que exigem atributos opostos.
Sobre os recordes de artilharia, Ronaldo já havia deixado claro sua posição quando Miroslav Klose o ultrapassou como maior goleador das Copas: "Isso aí são números, estatísticas, e recordes são feitos para serem superados. Eles não vão ficar para sempre. Não é isso que determina o jogador". Agora, com Messi chegando a 18 gols e superando Klose, o raciocínio se aplica novamente — mas com uma camada extra de admiração.

"Eu acho que, para os deuses do futebol, é uma estatística com selo. Se tem alguém que merece passar e ter a marca de melhor de todos os tempos, o Messi é o cara perfeito para estar ali", completou Ronaldo, que também destacou a longevidade do argentino: "Ele tem 38 anos, pelo amor de Deus. Com 38 anos, eu já estava há quatro anos parado, com 120 kg."
Por que a pergunta sobre Maradona segue sem resposta definitiva
Romário, ao questionar os critérios, tocou no ponto mais delicado do debate: a comparação entre Messi e Maradona. O argentino que jogou nas décadas de 1980 e 1990 atuou em condições táticas, físicas e tecnológicas completamente diferentes das que Messi encontrou ao longo de suas seis Copas do Mundo — a primeira em 2006, a última agora, em 2026, com 38 anos.
Maradona disputou 21 partidas em Copas e marcou oito gols, mas carregou a Argentina ao título de 1986 quase sozinho, em uma era sem VAR, com marcações físicas violentas e sem o suporte analítico que hoje define a preparação das seleções. Messi, por sua vez, acumulou 18 gols em 26 jogos, sendo campeão em 2022, num contexto de futebol coletivo mais sofisticado. Comparar os dois é legítimo — mas exige que se defina primeiro o que se está medendo: impacto individual, eficiência estatística, capacidade de arrastar times mediocres ou longevidade de alto nível.
Conforme apurado em matéria do SportNavo, o próprio Ronaldo reconheceu essa complexidade ao afirmar que a discussão precisa de parâmetros claros antes de qualquer veredito. A fala de Romário, mais cética, reflete uma postura histórica do ex-atacante: desconfiar de consensos apressados e exigir que cada época seja avaliada dentro do seu próprio contexto.
O que ainda falta para o debate ganhar uma resposta sustentável
O futebol não tem um sistema de ranking histórico com metodologia aceita universalmente — ao contrário do tênis, onde o ATP mantém registros detalhados de desempenho por superfície, oponente e fase de torneio. Sem esse arcabouço, debates como o de Ronaldo e Romário tendem a girar em torno de preferências geracionais disfarçadas de análise técnica.
O que a troca entre os dois ex-atacantes deixou de concreto foi ao menos uma estrutura mais honesta para a discussão: separar funções táticas, contextualizar épocas e tratar recordes estatísticos como indicadores relevantes, mas não determinantes. Ronaldo Fenômeno — campeão mundial em 1994 e 2002, com 15 gols em Copas antes de ser superado por Klose — sabe melhor do que ninguém o peso e os limites de uma marca numérica.
Messi segue em campo na Copa do Mundo de 2026 com a Argentina. Se o argentino avançar às fases eliminatórias e continuar marcando, a pergunta que Romário fez a Ronaldo voltará com mais força: quando — e se — o futebol vai concordar sobre qual critério usar para eleger o maior de todos os tempos?








