Confesso: eu errei sobre Copa do Mundo e seleções africanas durante anos. Passei boa parte dos anos 2000 repetindo o bordão de que equipes do continente africano tinham talento individual mas careciam de estrutura coletiva para sustentar campanhas longas. Marrocos, em 2026, está me fazendo engolir cada letra desse argumento — e o fato de Pep Guardiola ter escolhido exatamente uma partida dos marroquinos para assistir presencialmente, no Gillette Stadium em Boston, diz muito mais do que qualquer especulação de jornal europeu.

O que Guardiola foi buscar no jogo do Marrocos contra a Escócia

Pep Guardiola ocupou um camarote em Boston nesta sexta-feira para acompanhar a segunda rodada do Grupo C, entre Marrocos e Escócia. Livre desde o encerramento da temporada europeia 2025/2026, quando se despediu do Manchester City após uma década e 20 títulos — entre eles seis Premier Leagues e a Champions League de 2022/23 —, o técnico espanhol de 55 anos não foi a Boston por acaso. Guardiola nunca vai a lugar nenhum por acaso.

O jogo começou em 1 minuto e 11 segundos. Saibari, o mesmo atacante que havia marcado contra o Brasil na estreia, estufou a rede escocesa no gol mais rápido desta edição do Mundial. Quem conhece o repertório tático de Guardiola sabe que esse tipo de abertura de placar não é apenas um número bonito para a estatística — é a evidência de uma equipe que pressiona alto, que não espera o adversário organizar a saída de bola e que transforma os primeiros instantes do jogo em armadilha. Isso tem nome no vocabulário do treinador catalão: pressing situacional de alta intensidade. Ele construiu isso no Barcelona entre 2008 e 2012, lapidou no Bayern de Munique entre 2013 e 2016 e transformou em doutrina no City ao longo de uma década.

Segundo o jornal espanhol Sport, Guardiola desperta interesse de pelo menos três seleções para o próximo ciclo — Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e o próprio Marrocos. A presença em Boston, claro, alimentou a especulação sobre a última opção da lista.

Por que o estilo marroquino ressoa com a filosofia de Guardiola

Para entender o que Guardiola viu, é preciso voltar a 1994. O Marrocos daquele ano, eliminado na fase de grupos apesar de ter sido o melhor terceiro colocado, jogava um futebol de transição veloz, mas ainda muito dependente de individualidades. Trinta e dois anos depois, sob a gestão técnica de Mohamed Ouahbi — que assumiu o cargo há apenas três meses, após a saída de Walid Regragui —, a seleção marroquina opera com uma estrutura de bloco compacto que se expande em segundos quando recupera a bola. É o que se chama no jargão europeu de transição positiva organizada, e é exatamente o coração do futebol que Guardiola ensina desde que era jogador do Dream Team de Johan Cruyff no Camp Nou nos anos 1990.

Há um dado que os números desta Copa do Mundo 2026 já revelam: Marrocos marcou dois gols nas primeiras rodadas, ambos em situações de recuperação de bola no campo adversário. Nenhum deles veio de jogada ensaiada em escanteio ou falta. Esse padrão — pressão alta convertida em gol — é o que Guardiola perseguiu durante toda a carreira. No City da temporada 2017/2018, por exemplo, a equipe somou 100 pontos na Premier League justamente porque convertia pressão em gol com uma eficiência que os adversários simplesmente não conseguiam neutralizar.

"Pretendia fazer uma pausa na carreira para dedicar mais tempo à família", disse Guardiola ao se despedir do Manchester City, sem estabelecer prazo para retornar ao futebol.

A pausa existe. Mas observar um jogo da Copa do Mundo pessoalmente, num estádio, não é descanso — é pesquisa de campo. Guardiola é um arquiteto que visita obras alheias para entender o que poderia construir.

O mercado de técnicos de seleção e o que ainda falta resolver

A história dos grandes técnicos europeus em seleções nacionais é repleta de frustrações. Johan Cruyff nunca treinou uma seleção. Carlo Ancelotti só assumiu o Brasil — e de forma tardia — depois de décadas recusando convites de federações. José Mourinho tentou com Portugal em 2010 e preferiu o Real Madrid. O padrão se repete: técnicos de clube raramente abrem mão do controle diário do elenco, da janela de transferências, do vestiário de segunda a domingo.

Guardiola, porém, está numa posição diferente. Aos 55 anos, com 20 títulos no City e uma fortuna acumulada que o libera de qualquer obrigação financeira, ele pode se dar ao luxo de escolher um projeto que seja intelectualmente estimulante — não apenas lucrativo. O Marrocos, com uma geração de jogadores formados em academias europeias (Saibari pelo Benfica, Hakimi pelo PSG, Ziyech pelo Chelsea em ciclos anteriores), oferece exatamente esse tipo de material humano sofisticado que Guardiola sabe transformar em sistema.

A questão que permanece aberta, conforme registrado pelo SportNavo ao longo desta Copa, é se Ouahbi — que assumiu há apenas três meses e ainda não tem resultados suficientes para ser avaliado com justiça — será mantido independentemente do desempenho no torneio, ou se uma campanha mediana abrirá espaço para uma contratação de impacto global. A Federação Marroquina de Futebol já demonstrou ambição institucional ao sediar a Copa do Mundo de 2030 ao lado de Espanha e Portugal — e um técnico do porte de Guardiola seria o símbolo perfeito dessa transição de patamar.

O próximo jogo do Marrocos na fase de grupos acontece na terça-feira, contra o Canadá, e será o teste definitivo para medir se a equipe de Ouahbi sustenta o nível apresentado nas duas primeiras rodadas — ou se o brilho foi circunstancial. Guardiola, de algum camarote ou de sua casa na Catalunha, certamente vai assistir.