12 anos. Esse é o intervalo exato entre a primeira e a segunda vez que Hong Myung-Bo pediu demissão da seleção sul-coreana após uma eliminação precoce em Copa do Mundo. Em 2014, no Brasil, o vexame aconteceu em Cuiabá e São Paulo. Em 2026, no México, o roteiro foi quase idêntico — e o cheiro de déjà vu pairou sobre o vestiário coreano como uma maldição que ninguém conseguiu quebrar.
O sol castigava o estádio em solo mexicano quando o árbitro apitou o fim da partida contra a África do Sul. A Copa do Mundo 2026 havia terminado para a Coreia do Sul com apenas três pontos conquistados — uma vitória sobre a República Tcheca por 2 a 1 na estreia, seguida de duas derrotas para México e África do Sul. O saldo de gols negativo em um era suficiente para selar o destino: entre as quatro piores terceiras colocadas, eliminada, sem apelação.
A segunda queda de Hong e o peso do histórico
Aos 57 anos, Hong Myung-Bo carregava sobre os ombros uma das maiores heranças do futebol asiático. Foi ele o capitão da seleção que chegou ao quarto lugar na Copa do Mundo de 2002, realizada em casa, na Coreia do Sul e no Japão — a melhor campanha de qualquer seleção asiática na história dos Mundiais. Nenhum outro time do continente chegou tão longe. Esse legado lhe rendeu um segundo mandato como técnico, assumido em julho de 2024, depois de uma primeira passagem que terminou em fracasso exatamente igual: eliminação na fase de grupos, no Brasil, em 2014.
A comparação quantitativa é brutal. Em dois Mundiais como treinador, Hong somou dois jogos vencidos, quatro perdidos e zero empates — um aproveitamento de 22% em seis partidas de Copa do Mundo. Para efeito de comparação, Guus Hiddink, o técnico holandês que levou a Coreia ao quarto lugar em 2002, não perdeu um único jogo no torneio durante o tempo regulamentar ao longo de sete partidas disputadas. A diferença entre o herói e o treinador é, matematicamente, de uma geração inteira de resultados.
Neste domingo, Hong formalizou a saída. Sem entrevista coletiva, sem discurso de despedida. A renúncia chegou como um comunicado frio, depois de dias de pressão que vieram de um lugar incomum para o futebol: o Palácio Presidencial.
O presidente que não ficou calado
Lee Jae-myung não esperou nem 24 horas após a eliminação para se manifestar. O presidente da Coreia do Sul foi ao X — antigo Twitter — e escreveu palavras que raramente saem da boca de um chefe de Estado sobre futebol.
"Não só estou surpreso por este resultado inesperado, mas completamente desconcertado", escreveu Lee. O presidente questionou diretamente a indicação de Hong Myung-Bo como treinador, afirmando que "não se priorizou o mérito nem a competência no momento de escolher o comandante".
Lee foi além das palavras. Solicitou ao Ministério da Cultura, Esportes e Turismo uma investigação formal sobre a campanha da seleção na América do Norte e pediu uma avaliação sobre possíveis reformas na administração do futebol sul-coreano. Não foi uma crítica esportiva — foi uma crise de governança declarada publicamente pelo mais alto cargo do país.
A pressão política sobre uma federação de futebol é um fenômeno raro no cenário internacional, mas na Coreia do Sul o esporte nacional carrega um peso simbólico que vai além dos gramados. A memória de 2002 é quase mítica. Cada eliminação precoce é sentida como uma traição coletiva — e desta vez, com Hong no banco, a traição pareceu dupla.
Um Mundial que começou com esperança e terminou em silêncio
A estreia contra a República Tcheca criou uma ilusão perigosa. A vitória por 2 a 1 no Grupo A, jogando no México, fez a torcida sul-coreana acreditar que desta vez seria diferente. As redes sociais explodiam com otimismo. Os comentaristas falavam em oitavas de final como destino certo.
Depois vieram as duas derrotas. Primeiro para o México, em casa, em uma partida onde a pressão da torcida local transformou o estádio em uma caldeira de 80 mil vozes. Depois para a África do Sul, em um jogo que a Coreia precisava vencer para ter qualquer chance de classificação. Não venceu. E o saldo de gols negativo enterrou qualquer esperança matemática de avançar como uma das melhores terceiras colocadas.
Hong não foi o único técnico a deixar o cargo após a fase de grupos. Sabri Lamouchi, da Tunísia, foi demitido depois de uma goleada por 5 a 1 para a Suécia logo na estreia. Steve Clarke, da Escócia, teve a saída anunciada no sábado, também após eliminação precoce. Mas nenhuma dessas demissões carregou o peso simbólico da sul-coreana — porque nenhum outro treinador havia vivido exatamente o mesmo fracasso, no mesmo torneio, 12 anos antes, e ainda assim voltado para repetir o roteiro.
O vazio que Hong deixa e o caminho que a federação precisa encontrar
A Federação Sul-Coreana de Futebol agora enfrenta uma encruzilhada. Com investigação presidencial em curso e a credibilidade do processo de escolha de treinadores questionada publicamente, a pressão por transparência nunca foi tão alta. A pergunta que circula nos bastidores de Seul, conforme apurado em matéria do SportNavo, é direta: quem escolheu Hong Myung-Bo pela segunda vez, sabendo do histórico de 2014, e com base em quais critérios?
A seleção sul-coreana disputou a Copa do Mundo 2026 sem Son Heung-min em condições físicas plenas — o atacante do Tottenham, principal estrela do país, chegou ao torneio longe do seu melhor futebol. Mas a ausência de um craque não explica dois Mundiais consecutivos encerrados na fase de grupos sob o mesmo técnico. Explica, no máximo, parte do problema.
O próximo passo concreto da federação será nomear uma comissão de transição para definir o novo treinador antes do início das Eliminatórias Asiáticas para a Copa do Mundo de 2030, cuja primeira rodada está prevista para setembro de 2026. A janela é curta. A pressão, imensa. E a sombra de Hong Myung-Bo — herói de 2002, duas vezes técnico fracassado — vai pesar sobre cada nome que surgir na lista de candidatos.
12 anos. Esse é o intervalo exato entre a primeira e a segunda vez que Hong Myung-Bo deixou uma Copa do Mundo — e desta vez, não há terceira chance para redimir a maldição.










