Falhou. Em 16 de junho de 2018, no Spartak Stadium de Moscou, Lionel Messi abriu o pé e entregou a bola nas mãos de Hannes Þór Halldórsson — goleiro islandês que, nas horas vagas, dirigia comerciais publicitários. O placar ficou em 1 a 1. A Argentina não era favorita apenas no jogo: era favorita à Copa inteira. E um arqueiro-cineasta de um país com menos habitantes que a cidade de Campinas havia roubado a cena mais esperada daquela tarde.

O pênalti que Messi não esqueceu

Aquele empate não foi uma derrota, mas funcionou como uma. A Copa do Mundo de 2018 terminou para a Argentina nos oitavos de final, com uma goleada de 4 a 3 sofrida diante da França — jogo que, por si só, mereceria uma crônica à parte sobre desequilíbrios táticos e a solidão de um gênio dentro de um sistema que não o compreendia. Mas o fantasma de Moscou já rondava bem antes daquele encontro.

Anos depois, em conversa com seu ex-companheiro Sergio "Patón" Guzmán, Messi descreveu o momento com rara crueza:

"Quando fui bater, quis abrir o pé e entreguei nas mãos do goleiro. Me queria matar. Não terminei de soltar o pé."

E completou, com a precisão de quem revisitou a cena mil vezes:

O pênalti que Messi não esqueceu Como Messi converteu o pênalti que errou
O pênalti que Messi não esqueceu Como Messi converteu o pênalti que errou
"Me caguei todo."

Não há tragédia nisso — há contabilidade. E as contas, durante anos, ficaram em aberto.

Messi, Colo Barco e Almada transformam Alabama em palco de acerto

Na noite de 10 de junho de 2026, no Jordan-Hare Stadium de Auburn, Alabama — a menos de 350 metros do centro de treinamento da própria Islândia —, a Argentina fechou o último amistoso antes da estreia no Mundial com uma goleada de 3 a 0 que foi, ao mesmo tempo, ensaio técnico e liquidação de dívida emocional.

O roteiro foi construído em camadas. Aos 8 minutos, Valentín "Colo" Barco — lateral-atacante que já tinha um gol pelo selecionado — parou no meio do campo após uma falha no sistema de saída islandesa e descarregou uma bomba de pé esquerdo que entrou rente ao poste: 1 a 0. O segundo gol levou a assinatura que todos esperavam. Messi, poupado até então por conta de um problema muscular na coxa, entrou na segunda metade, encontrou Lautaro Martínez em situação de finalização e viu o centroavante ser derrubado dentro da área. Pênalti. O mesmo Messi que havia desperdiçado a cobrança mais famosa da sua geração caminhou até a marca, parou, e mandou a bola para o lado oposto ao goleiro Ólafsson: 2 a 0. Sem drama. Sem gesticulação excessiva. Uma equação resolvida com a frieza de quem aprendeu, com o tempo, a não transformar cada gol em manifesto existencial. Thiago Almada completou o placar com um toque sutil de canhota após cruzamento perfeito de Rodrigo De Paul: 3 a 0.

A Islândia de 2026, convém registrar, não é a de 2018. O selecionado nórdico, que chegou à Copa da Rússia como 22º do ranking FIFA, ocupa hoje a 75ª posição. Não se classificou para os Mundiais de 2022 nem de 2026, e sobram apenas três atletas daquela geração histórica. Orri Óskarsson, atacante do Real Sociedad com nove gols em 17 jogos pelo selecionado, representou a principal ameaça — mas foi contido sem maiores sustos.

Messi, Colo Barco e Almada transformam Alabama em palco de acerto Como Messi con
Messi, Colo Barco e Almada transformam Alabama em palco de acerto Como Messi con

A Argentina que Scaloni construiu sobre os escombros de Sampaoli

Seria injusto reduzir o 3 a 0 a uma questão de Messi e seus fantasmas. A diferença entre a Argentina de 2018 e a de 2026 é estrutural, e tem um arquiteto claro: Lionel Scaloni, técnico que assumiu o cargo em caráter interino após a debacle da Rússia e construiu, tijolo por tijolo, o selecionado mais consistente do mundo nos últimos quatro anos.

Os números traduzem essa consistência sem precisar de metáforas. Antes do amistoso desta quarta-feira, a Argentina acumulava seis vitórias consecutivas, com 18 gols marcados e apenas um sofrido. Em 14 partidas desde novembro de 2024, nunca cedeu mais de um gol por jogo. Terminou as Eliminatórias Sul-Americanas na liderança, com 38 pontos — nove a mais que o segundo colocado. E chegou a Auburn como campeã em exercício, buscando se tornar apenas o terceiro selecionado da história a defender o título mundial, feito que até hoje só Itália (1934 e 1938) e Brasil (1958 e 1962) conseguiram.

O que Scaloni alterou, em essência, foi o centro de gravidade do time. A Argentina de Sampaoli girava em torno de Messi como um sistema solar de um único astro — o que funcionava nos dias bons e colapsava nos dias ruins. A Argentina de Scaloni distribui responsabilidades: Alexis Mac Allister organiza, Enzo Fernández pressiona, Rodrigo De Paul corre pelos outros três, Lautaro Martínez finaliza. Messi existe dentro desse sistema, não apesar dele. É a diferença entre uma obra que depende de um único pilar e uma que se sustenta por arcos.

  • Copa 2018 — Argentina 1 x 1 Islândia: Messi perde pênalti aos 63', time eliminado nos oitavos
  • Amistoso 2026 — Argentina 3 x 0 Islândia: Gols de Barco (8'), Messi de pênalti e Almada; seis vitórias seguidas

Conforme apurado em matéria do SportNavo, Messi entrou em campo carregando uma leve lesão muscular na coxa — o que explica sua ausência como titular contra Honduras, dois dias antes. Jogou menos de meia hora contra a Islândia e, nesse curto intervalo, foi decisivo duas vezes: no passe que originou o pênalti convertido e no ataque que gerou o terceiro gol. A 39 anos, com oito Bolas de Ouro na estante e uma Copa do Mundo no currículo, ele já não precisa jogar 90 minutos para ser o jogador mais importante do planeta. Precisa apenas aparecer nas horas certas.

A estreia da Argentina no Mundial de 2026 está marcada para a próxima terça-feira, contra a Argélia, no grupo que inclui ainda Áustria e Jordânia. O espectro da Islândia, ao menos por ora, foi devidamente arquivado.