O placar final ainda não havia sido cantado no Qatar quando aquela taça dourada pousou nos braços de um homem de 35 anos que havia esperado quatro torneios para sentir aquele peso. Lionel Messi conquistou o título de 2022 com 15 vitórias acumuladas em Copas do Mundo — um número que, até então, era território exclusivo de uma lenda brasileira chamada Marcos Evangelista de Morais, o Cafu.
Mas a narrativa que circula com mais força desde que a convocação argentina foi divulgada é a de que Messi já bateu todos os recordes possíveis. Essa leitura merece ser colocada à prova.
O recorde que Cafu ainda segura
Cafu disputou três Copas do Mundo — 1994, 1998 e 2002 — e acumulou exatamente 16 vitórias em 20 partidas. É o maior número de triunfos entre todos os jogadores brasileiros na história do torneio, e o segundo maior da lista geral. O lateral-direito foi campeão em 1994 e em 2002, vice em 1998, e raramente saiu de campo sem ter contribuído para um resultado positivo. Ronaldo Fenômeno e Lúcio também integram o grupo de brasileiros com alto número de vitórias, mas nenhum dos dois chegou à marca de Cafu.
Messi, com 15 vitórias em 26 partidas, está a um triunfo de igualar o brasileiro. Uma única vitória na Copa do Mundo de 2026 coloca os dois no mesmo degrau da história.
Dois triunfos, e Messi estará sozinho — em segundo lugar.
A sombra de Klose sobre os dois
Há, porém, um nome que está acima de Cafu e estaria acima de Messi mesmo se o argentino passasse o brasileiro: o alemão Miroslav Klose. Maior artilheiro da história das Copas com 16 gols, Klose também lidera o ranking de vitórias com 17 triunfos em 24 partidas, distribuídos entre 2002, 2006, 2010 e 2014 — quando foi campeão no Brasil com a Alemanha, no histórico 7 a 1 sobre a Seleção brasileira nas semifinais. Para Messi alcançar Klose, seriam necessárias três vitórias na Copa de 2026. Para superá-lo, quatro.
"Cafu tem 16 vitórias em Copas do Mundo, Messi tem 15. Três brasileiros integram o grupo de atletas com mais triunfos na história dos Mundiais: o lateral-direito Cafu, o centroavante Ronaldo e o zagueiro Lúcio", conforme registrado por SportNavo com base em levantamento publicado pela Folha de S.Paulo.
A Argentina de 2026 tem condições reais de ir fundo no torneio. A equipe chega como atual campeã do mundo e vencedora da Copa América de 2024. Messi, aos 38 anos, disputará sua sexta Copa — feito que só o mexicano Rafael Márquez e o alemão Lothar Matthäus alcançaram antes dele.
O que os números de Messi em Copas realmente revelam
A trajetória de Messi nas Copas é, ela mesma, uma desmontagem de expectativas. Em 2006, com 18 anos, estreou com um gol contra a Sérvia e Montenegro, mas a Argentina parou nas quartas diante do inevitável Riquelme que carregava o time nas costas. Em 2010, foi eliminada pela Alemanha por 4 a 0 nas quartas de final — Klose marcou dois naquela partida. Em 2014, chegou à final pela primeira vez, perdeu para a Alemanha por 1 a 0 na prorrogação e encerrou o torneio com 4 gols e o prêmio de melhor jogador — uma láurea que o próprio Messi reconheceu, anos depois, como um troféu de consolação. Em 2018, caiu nas oitavas para a França. E em 2022, finalmente, o título.
Quinze vitórias, portanto, foram construídas ao longo de 26 partidas em cinco edições. Uma taxa de aproveitamento de 57,7% — inferior à de Klose (70,8%) e próxima à de Cafu (80%), que disputou menos jogos em uma seleção estruturalmente mais sólida nos anos 1990 e 2000.
Essa comparação de taxas é o dado que a narrativa popular ignora quando diz que Messi já é o maior de todos em Copas. Em volume de vitórias, ele ainda persegue. Em eficiência por partida, ainda fica atrás de Cafu.
2026 como último capítulo possível
A Copa do Mundo de 2026 será realizada nos Estados Unidos, Canadá e México. O formato expandido para 48 seleções garante que uma equipe campeã precise de sete vitórias para levantar o troféu — com a possibilidade de um empate na fase de grupos. Para Messi igualar Klose, a Argentina precisaria chegar às semifinais com vitórias. Para superá-lo, à final. Para ganhar, a conta fecha com 22 vitórias na carreira, um número que estaria entre os dois ou três maiores da história do futebol em Copas.
Messi não costuma falar sobre recordes pessoais em entrevistas. Quando questionado sobre sua longevidade após o título de 2022, foi direto: "Queria muito isso, e agora posso desfrutar". A frase soou como despedida. Não foi.
No dia 26 de junho de 2026, a Argentina estreia na Copa do Mundo contra o Canadá, no MetLife Stadium, em Nova Jersey. Se Messi jogar e a Argentina vencer, ele terá 16 — empatado com Cafu. A briga pelo recorde começa nessa noite.












