O gramado da Universidade Wake Forest, em Winston-Salem, na Carolina do Norte, estava cheio — cerca de três mil torcedores alemães em volta do campo. Mas o foco de todo mundo era num único homem que cruzou o portão de acesso ao treino na segunda-feira (8): Manuel Neuer, 40 anos, chuteiras no pé, colete sobre a camisa de treino, participando normalmente da atividade com o restante do elenco. Depois de dias de trabalhos físicos individualizados, o retorno ao coletivo foi o sinal que o técnico Julian Nagelsmann esperava para confirmar o goleiro como titular na estreia da Copa do Mundo.

O caminho de volta depois da panturrilha que preocupou todos

A história do retorno de Neuer à seleção alemã quase desandou antes de começar. Na última rodada da Bundesliga 2025/2026, numa partida do Bayern de Munique contra o Colônia, o goleiro sentiu dor na panturrilha esquerda e foi substituído no segundo tempo. Era a segunda vez no ano que a mesma região muscular dava problema — fato que gerou dúvidas públicas sobre sua presença na Copa.

Nagelsmann dissipou o alarme numa coletiva, mas não escondeu que o protocolo seria conservador:

"Ele está bem, está a caminho do auge da forma física. Mesmo assim, não vamos correr nenhum risco, mas sim dar tempo para a equipe se recuperar e aumentar a probabilidade de que o torneio transcorra perfeitamente. Ele teve algumas lesões na panturrilha este ano. Por isso, decidimos não correr nenhum risco ainda. Ele voltará aos treinos com a equipe na próxima semana", afirmou o técnico à imprensa alemã.

O plano funcionou. Neuer ficou de fora do amistoso contra os Estados Unidos, disputado no Soldier Field Stadium, em Chicago — onde Oliver Baumann foi titular pelo segundo jogo seguido, depois da vitória por 4 a 0 sobre a Finlândia. Enquanto isso, o ídolo do Bayern trabalhou em regime individualizado: carga muscular progressiva, trabalho de explosão específico para goleiros e sessões de footwork para testar a resposta da panturrilha sem risco de recaída.

O caminho de volta depois da panturrilha que preocupou todos Como Neuer treinou
O caminho de volta depois da panturrilha que preocupou todos Como Neuer treinou

O que os números dizem sobre Neuer nesta temporada pelo Bayern

A decisão de Nagelsmann de trazer Neuer de volta não foi sentimental — foi respaldada por performance. O goleiro disputou a temporada 2025/2026 da Bundesliga como titular do Bayern de Munique e apresentou números que justificam a confiança da comissão técnica. Para entender por que ele ainda é considerado o melhor goleiro alemão disponível, três métricas ajudam a contextualizar:

  • PSxG-GA (Post-Shot Expected Goals menos Goals Allowed): mede quantos gols a mais ou a menos o goleiro sofreu em relação ao esperado pelos chutes recebidos. Um PSxG-GA positivo significa que o goleiro salvou gols que estatisticamente deveriam ter entrado. Neuer fechou a temporada com saldo positivo nessa métrica — indicador de que seguiu sendo uma parede de ferro nos momentos de maior perigo.
  • Defensive Actions: engloba defesas, saídas aéreas, interceptações e ações fora da área. Neuer sempre foi um goleiro com alto volume de ações defensivas além da linha de gol, um reflexo do seu estilo sweeper-keeper — ele atua como líbero com luvas, organizando a linha defensiva e saindo para antecipar passes em profundidade.
  • Progressive passes do goleiro: passes que avançam pelo menos 10 metros em direção ao gol adversário. Neuer tem um dos maiores índices entre goleiros da Bundesliga nessa métrica, o que significa que ele contribui ativamente para a construção de jogo do Bayern — algo que Nagelsmann, com seu futebol posicional, valoriza muito numa equipe que pressiona alto.

Comparando com Oliver Baumann, do Hoffenheim, o goleiro que assumiu a seleção durante dois anos de Eliminatórias: Baumann é sólido, mas seu volume de progressive passes é significativamente menor, e seu PSxG-GA ficou próximo de zero na temporada — o que indica desempenho dentro da média, não acima dela. A diferença de nível, para a comissão técnica, ainda é clara.

Baumann, Ter Stegen e o vazio que abriu a porta para o retorno

Neuer havia anunciado em 2024 que não defenderia mais a seleção alemã, querendo se dedicar às últimas temporadas pelo Bayern — clube pelo qual conquistou 13 títulos da Bundesliga e duas Champions League. Sua última partida pela Mannschaft havia sido nas quartas de final da Euro 2024, eliminação por 2 a 1 para a Espanha.

A escolha natural de Nagelsmann para a vaga era Marc-André Ter Stegen. Só que o goleiro do Barcelona acumulou um histórico médico alarmante: ruptura do tendão patelar em setembro de 2024, sete meses fora; cirurgia nas costas em julho de 2025, três meses de recuperação. Para tentar recuperar ritmo, Ter Stegen se transferiu em janeiro de 2026 para o Girona — e voltou a se machucar em fevereiro. Desde então, não joga.

Com Ter Stegen fora e Baumann sem o perfil técnico ideal para o sistema de Nagelsmann, o caminho de volta para Neuer se abriu. O próprio goleiro avaliou que estava em condições físicas para o desafio. A renovação de contrato com o Bayern até 2027 reforçou que ele não está em modo de despedida — está em modo competitivo.

"Sim, foi difícil no início, claro. Não foi exatamente uma sensação agradável. Prefiro não comentar por enquanto. Estou concentrado em mim e na equipe. Isso é tudo o que importa", disse Baumann ao ser questionado sobre perder a titularidade para o retornante.

A fala do goleiro do Hoffenheim revela o custo humano da decisão: Baumann foi titular durante todo o ciclo de Eliminatórias, construiu uma relação com o grupo e viu a vaga escorrer das mãos por causa de um retorno histórico. Não há vilão na história — só a lógica de um técnico apostando no maior goleiro que sua seleção tem disponível.

Se Neuer entrar em campo contra Curaçao no domingo, dia 14 de junho, em Houston, ele se tornará apenas o segundo goleiro da história a disputar cinco Copas do Mundo, igualando o mexicano Antonio Carbajal, que jogou entre 1950 e 1966. É o mesmo cenário que o italiano Gianluigi Buffon viveu em 2006 — a última Copa de um gigante, só que agora a aposta é diferente: Neuer chega não como herança do passado, mas como a melhor opção real do presente.