Se Neymar marcasse quatro gols na Copa do Mundo de 2026, ele terminaria a competição empatado com Pelé em gols brasileiros em Mundiais. Quatro tentos. É o número que separa o camisa 10 de uma das marcas mais sólidas do futebol brasileiro — e, por extensão, do planeta. A resposta a essa hipótese chegará entre 13 de junho e 19 de julho, quando o Brasil disputa o torneio sediado nos Estados Unidos com o objetivo de encerrar um jejum que já dura 24 anos.
Os 8 gols que Neymar carrega para sua quarta Copa
Neymar chega à Copa de 2026 com 8 gols em três edições do torneio: 4 na África do Sul em 2010, 4 no Brasil em 2014 — sendo dois no mesmo jogo contra Camarões —, e nenhum na Rússia em 2018 após lesão na coluna que o tirou das quartas de final. Em 2022, no Catar, voltou a marcar, elevando o total a 8 tentos em 14 partidas disputadas. A média de 0,57 gol por jogo é superior à de Romário (0,56 em 7 jogos) e próxima à de Ronaldo Fenômeno, que marcou 15 vezes em 19 partidas — média de 0,79. Pelé, com 12 gols em 14 jogos, mantém a média de 0,86 por partida, a mais alta entre os brasileiros com ao menos 10 aparições em Mundiais.
A diferença entre Neymar e o topo da lista histórica é, portanto, de 4 gols — exatamente a quantidade que marcou na Copa de 2014, quando foi o artilheiro da Seleção antes de sair lesionado na semifinal contra a Alemanha. Aquela edição terminou com o 7 a 1 e com Neymar numa maca. Doze anos depois, ele embarcou para os Estados Unidos com 68 kg — peso que, segundo leitura labial amplamente repercutida nas redes sociais, ele mesmo confirmou ao presidente da CBF, Samir Xaud, à beira do gramado do Maracanã, antes do amistoso contra o Panamá.
"Vai dar, vai dar. Pegar no pé dessa molecada e já era. [...] Hoje estou no meu peso, estou com 68 [kg]." — Neymar, em conversa com o presidente da CBF Samir Xaud no Maracanã, conforme leitura labial divulgada nas redes sociais.
O que os números de Pelé, Ronaldo e Romário revelam sobre a escala do desafio
Pelé marcou seus 12 gols em três Copas: 6 em 1958 (quando tinha apenas 17 anos), 1 em 1962 antes de ser cortado por lesão, e 4 em 1966 e 1970 combinados — sendo que em 1970 marcou apenas 4 gols, mas liderou a campanha do tricampeonato. Ronaldo Fenômeno acumulou 15 gols em quatro Mundiais, com destaque para os 8 gols de 2002, campanha em que o Brasil conquistou o penta no Japão e na Coreia do Sul. Romário, por sua vez, marcou 5 gols em 1994 e foi decisivo no tetracampeonato conquistado nos Estados Unidos — exatamente o país que agora recebe o Brasil novamente após 32 anos.
A comparação entre Neymar e esses nomes vai além dos gols. Em assistências em Copas, o camisa 10 acumula 3 passes para gol, número inferior ao de Pelé (que distribuiu 10 assistências em Mundiais) mas superior ao de Romário, que operava mais como centroavante clássico. O perfil de Neymar em Copas é híbrido: ele oscila entre a criação e a finalização, o que dilui sua eficiência ofensiva em comparação com um Ronaldo que chegava às semifinais com 6 ou 7 gols já marcados — seria injusto chamar de consistência absoluta, mas é uma consistência em escala quase absoluta.
"Essa Copa do Mundo não tem um favorito. Equipes muito fortes. Brasil vai competir com todas as outras equipes." — Carlo Ancelotti, técnico da Seleção Brasileira, ao desembarcar no Aeroporto de Newark, em Nova Jersey, na manhã de 2 de junho.
O peso histórico de 2026 e o que Neymar precisa fazer para mudar a narrativa
A Copa de 2026 carrega um dado que transcende o individual: se o Brasil não vencer o torneio, o país terá completado 24 anos sem título — o mesmo intervalo que separou o tricampeonato de 1970 do tetracampeonato de 1994. Caso o hexacampeonato não venha agora, a espera se estenderá obrigatoriamente até 2030, chegando a 28 anos. A pressão coletiva, portanto, é concreta e mensurável.
Para Neymar, o peso é duplo. Ele embarcou para Newark na noite de 1º de junho, sentado ao centro em foto com 23 dos 26 convocados — Gabriel Martinelli, Gabriel Magalhães e Marquinhos já estavam nos Estados Unidos —, e publicou a imagem com a legenda "Todos juntos". A cena sintetiza o papel que Ancelotti parece reservar ao camisa 10: liderança simbólica e técnica ao mesmo tempo. O técnico italiano confirmou, ao desembarcar em Newark, que fará "alguns testes" no amistoso contra o Egito, marcado para 6 de junho, às 19h (de Brasília), em Cleveland — o que sugere que Neymar pode não ser titular nessa partida, preservado para a estreia contra Marrocos, no dia 13, no MetLife Stadium, em Nova Jersey.
Os números históricos são claros: Neymar precisa de 5 gols para superar Pelé e se tornar o maior artilheiro brasileiro em Copas do Mundo. Nenhum jogador brasileiro chegou a uma quarta Copa com essa proximidade da marca do Rei. Ronaldo Fenômeno tinha 7 gols antes de 2002 e terminou com 15 — ou seja, marcou 8 na última participação. O precedente existe. A diferença é que Neymar chega aos 34 anos, em recuperação de lesão no joelho que o afastou por meses do Santos, e terá de provar sua consistência física ao longo de seis ou sete partidas num torneio de alto nível. A estreia contra Marrocos, no dia 13 de junho, será o primeiro termômetro real — um dado que nem leitura labial nem foto de embarque consegue antecipar.
Como receita que exige tempo de forno, a campanha de Neymar em Copas sempre precisou de calor constante para chegar ao ponto certo: em 2010 e 2014, os ingredientes estavam presentes; em 2018, o forno apagou cedo demais; em 2022, o resultado foi incompleto. Em 2026, os Estados Unidos oferecem a última chance de tirar o bolo.












