"A defesa precisa melhorar." A frase saiu de Thomas Tuchel logo após o jogo contra o Panamá, e não soava como o tipo de coisa que um treinador diz quando está satisfeito. A Copa do Mundo ainda estava na fase de grupos, a Inglaterra acabara de golear por 2 a 0 e avançar em primeiro no Grupo L — e o técnico alemão já falava em ajustes defensivos. Essa tensão entre o que funciona e o que preocupa define, com precisão cirúrgica, o que a seleção inglesa é neste torneio.
Em três jogos, a Inglaterra marcou seis gols e sofreu três. O saldo de três é positivo, mas o número de gols concedidos é o dobro do que a Espanha e a França cederam em igual número de partidas na Copa de 2026. Contra a Croácia, na estreia em Dallas em 17 de junho, o placar de 4 a 2 escondeu o fato de que os ingleses permitiram dois gols a uma seleção que, aos 40 anos de Luka Modric, não tem mais a mesma profundidade ofensiva de 2018. O empate sem gols com Gana, na segunda rodada, foi lido pela imprensa britânica como uma regressão: The Independent escreveu que "para o quarto torneio consecutivo, a Inglaterra empatou seu segundo jogo de grupo", um padrão que atravessa gestões técnicas diferentes e que Tuchel ainda não conseguiu romper.
O que os números dizem sobre a fragilidade defensiva inglesa
Os dados são mais eloquentes do que qualquer adjetivo. Nos três jogos do Grupo L, a Inglaterra sofreu gols de três origens distintas: uma finalização de fora da área de Martin Baturina, um cabeceio de Petar Musa após jogada ensaiada da Croácia, e um gol do Panamá que, segundo a cobertura do The Guardian, veio depois de Fajardo ser "enviado livre pelo meio" enquanto a defesa inglesa se reposicionava. O problema não é pontual — é estrutural. Grandes espaços entre os zagueiros centrais e dúvidas sobre a altura da linha defensiva foram temas recorrentes nas análises dos três jogos, conforme apontado por jornalistas britânicos que acompanham o torneio.
O empate contra Gana expôs um segundo problema: a dificuldade de criar contra equipes organizadas defensivamente. No jogo em Boston, a seleção inglesa não marcou, Harry Kane desperdiçou uma chance clara, e o árbitro deixou de marcar pênalti em Prince Kwabena Adu após entrada de Ezri Konsa dentro da área, na avaliação da imprensa inglesa. O The Sun abriu sua cobertura com a grande chance perdida pelo centroavante. A Inglaterra, conforme escreveu The Telegraph, "foi colocada com os dois pés no chão numa frustrante paralisia contra Gana".
Bellingham e Kane, os dois lados da mesma moeda ofensiva
Se a defesa levanta perguntas, o ataque oferece respostas concretas. Jude Bellingham, de 22 anos e 353 dias, tornou-se o jogador europeu mais jovem a disputar quatro grandes torneios internacionais — superando Jamal Musiala, da Alemanha, que havia estabelecido a marca dias antes na mesma Copa. O feito foi confirmado pelo portal oficial da Federação Inglesa de Futebol: Bellingham participou da Euro 2020, da Copa de 2022, da Euro 2024 e agora da Copa de 2026. Contra a Croácia, ele abriu o placar dois minutos após o intervalo, cortando para dentro e chutando com o pé direito no canto esquerdo do goleiro Dominik Livaković — e ainda deu a assistência para o segundo gol de Kane, de cabeça.
Esse segundo gol de Kane contra a Croácia foi o de número 10 em Copas do Mundo, igualando Gary Lineker como maior artilheiro inglês na história do torneio. Contra o Panamá, o centroavante foi mais longe: marcou de cabeça após cruzamento de Bellingham, seu 11º gol em Mundiais, ultrapassando Lineker definitivamente. Tuchel foi econômico na comemoração: "Bom — não é o fim", disse o técnico à ITV logo após o apito final.
"Cada dia temos que tentar melhorar... dar o passe para o Harry, que continua elevando seu nível, é incrível. Ele é o melhor", disse Bellingham ao microfone após a vitória sobre o Panamá.
"O torneio recomeça agora no mata-mata. Quanto maiores forem os jogos, maiores seremos", afirmou Tuchel, sinalizando que reconhece as limitações sem se render a elas.
O que Tuchel precisa resolver antes do mata-mata
A Inglaterra terminou o Grupo L em primeiro lugar, com sete pontos — resultado de duas vitórias e um empate. O próximo adversário, conforme a tabela da Copa do Mundo de 2026, será o Senegal ou a República Democrática do Congo, na fase de 32 times. Em matéria do SportNavo publicada durante a fase de grupos, já se apontava a fragilidade defensiva inglesa como o elemento mais imprevisível da campanha. Agora, com os dados da fase de grupos consolidados, a leitura se confirma: a Inglaterra é a seleção que mais gols marcou no Grupo L, mas também a que mais sofreu entre as duas classificadas — a Croácia, eliminada, cedeu quatro gols em três jogos.
O desafio de Tuchel é calibrar o que funciona sem desmontar o que está construído. Bellingham e Kane formam uma dupla que, em combinação direta, produziu o gol mais importante do grupo — o que abriu o placar contra o Panamá e garantiu a liderança. A linha defensiva, com espaços entre os zagueiros e dificuldades no posicionamento alto, é o ponto que os adversários do mata-mata, com atacantes mais velozes e letais do que Panamá ou Gana, vão explorar. A Inglaterra enfrenta o Senegal na quarta-feira, 2 de julho, com a obrigação de apresentar uma resposta defensiva que, até agora, os números ainda não confirmaram.










