Três dados resumem a situação do Copa do Mundo mais incomum que qualquer seleção já enfrentou em fase de preparação: uma guerra em curso desde fevereiro, quatro amistosos disputados em solo neutro e uma base de torneio trocada de país por decisão da FIFA. Tudo isso é o Irã em junho de 2026.

O número que explica a preparação iraniana em Antalya

Desde que os Estados Unidos e Israel lançaram ataques aéreos contra a República Islâmica no final de fevereiro, a seleção iraniana não pisou em território nacional. O grupo se instalou em dois campos de treinamento na cidade turca de Antalya e, de lá, disputou três amistosos com resultados mistos: derrota para a Nigéria, vitória sobre a Costa Rica e vitória sobre Gâmbia. Na quinta-feira, o quarto compromisso — contra Mali — será realizado a portas fechadas e sem acesso da mídia, conforme comunicado oficial da Federação Iraniana de Futebol (FFIRI).

"Considerando a importância do amistoso da seleção iraniana de futebol contra Mali, e de acordo com os objetivos táticos do treinador do Irã, o jogo de amanhã contra Mali será realizado a portas fechadas e sem a presença da mídia", informou a FFIRI em nota divulgada nesta quarta-feira.

A decisão de fechar os portões para o confronto com Mali não é apenas protocolo de segurança — é também uma declaração tática. A comissão técnica iraniana quer trabalhar esquemas específicos sem exposição ao escrutínio público, o que, num contexto de guerra, ganha uma camada extra de significado: qualquer informação sobre o grupo pode ter implicações que ultrapassam o campo esportivo.

A logística sem precedentes que a FIFA precisou resolver

A participação iraniana na Copa do Mundo chegou a ser colocada em xeque publicamente. A FFIRI, porém, agiu com rapidez e persuadiu a entidade máxima do futebol mundial a autorizar a troca da base de torneio: em vez de Tucson, no Arizona, o Irã se instalará em Tijuana, no México — e de lá cruzará a fronteira terrestre para disputar os dois primeiros jogos do Grupo G, contra Nova Zelândia e Bélgica, em Los Angeles. O terceiro jogo do grupo, diante do Egito, será em Seattle.

É uma solução que lembra, em escala amplificada, o tipo de improviso que se vê no caos do trânsito da Avenida Paulista às 18h: todo mundo precisa chegar ao mesmo lugar, mas os caminhos convencionais estão bloqueados. A diferença é que, aqui, o bloqueio é geopolítico e as consequências de um erro não se medem em minutos perdidos.

O secretário de Estado norte-americano Marco Rubio declarou na terça-feira que Washington não tem "nenhum problema" com a entrada dos atletas iranianos no território dos EUA. A ressalva, porém, é precisa: dirigentes ou funcionários com vínculos com a Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) não receberão autorização de entrada. Tanto os Estados Unidos quanto o Canadá — dois dos três países-sede da Copa — classificam a IRGC como entidade terrorista, o que cria uma peneira institucional inédita na história do torneio.

O que o Grupo G revela sobre o desafio esportivo iraniano

Abstraindo a geopolítica, o Irã enfrenta adversários tecnicamente exigentes. A Nova Zelândia chega como surpresa qualificada da Oceania, a Bélgica ainda carrega uma geração de meio-campo experiente, e o Egito de Mohamed Salah representa a maior ameaça individual do grupo. Para uma equipe que treinou em condições de isolamento, com logística restrita e sem o apoio emocional da torcida nos amistosos preparatórios, o nível de concentração exigido é fora do comum.

Os resultados em Antalya oferecem uma leitura parcial: a derrota para a Nigéria indica vulnerabilidade defensiva contra seleções de ritmo elevado, enquanto as vitórias sobre Costa Rica e Gâmbia sugerem capacidade de controle em jogos mais cadenciados. O amistoso desta quinta-feira contra Mali, seleção africana com padrão físico intenso, será o teste mais próximo do que o Irã encontrará na fase de grupos.

"Washington não tem nenhum problema com a entrada da equipe iraniana", disse o secretário Marco Rubio na terça-feira, mas acrescentou que a restrição a membros da IRGC permanece em vigor.

No sábado, o grupo parte de Antalya rumo ao México. A escolha de Tijuana como base não é apenas logística — é também simbólica: o Irã chegará à Copa do Mundo cruzando uma fronteira que, para milhões de pessoas, representa tensão e negociação permanente. Nenhuma outra seleção do torneio carregará um contexto tão denso ao pisar no gramado de Los Angeles para enfrentar a Nova Zelândia na estreia do Grupo G.

A preparação está encerrada — falta o palco onde a guerra e o futebol vão, finalmente, dividir o mesmo campo de visão do mundo.