Todo mundo sabia que o Uruguai chegava à Copa do Mundo com um elenco capaz de avançar ao mata-mata. O que ninguém soube explicar, ao longo de três partidas, foi como uma seleção bicampeã mundial terminou na 37ª posição entre 48 times — abaixo de Cabo Verde, abaixo da Arábia Saudita, e na companhia de seleções que disputavam o torneio pela primeira vez. Não há tragédia nessa conta: há contabilidade.

A campanha da Celeste foi construída com dois empates magros — 1 a 1 com a Arábia Saudita e 1 a 1 com Cabo Verde — e uma derrota por 1 a 0 para a Espanha na rodada que definiria o destino do grupo. Nenhuma vitória. Nenhuma classificação. A única seleção da Conmebol eliminada antes das oitavas de final numa Copa que, pela primeira vez na história, permitiu que 32 das 48 participantes avançassem. A margem era larga. O Uruguai não passou por ela.

O que Bielsa construiu e o que desmoronou em campo

Marcelo Bielsa chegou ao cargo com um projeto reconhecível: pressão alta, intensidade coletiva, identidade tática clara. Nas Eliminatórias, o modelo funcionou o suficiente para garantir a vaga. No Mundial, a mesma receita produziu resultados opostos. Durante os três jogos, o Uruguai apresentou dificuldade crônica para transformar posse de bola em finalizações com perigo real — criou pouco, finalizou menos ainda, e sofreu o gol decisivo contra a Espanha num momento em que precisava de resultado.

Giorgian de Arrascaeta (Flamengo)
Giorgian de Arrascaeta (Flamengo)

O desgaste interno entre comissão técnica e jogadores, relatado ao longo da competição, acrescentou uma camada institucional ao problema tático. Bielsa, que já havia sinalizado antes do torneio que seu ciclo poderia se encerrar após a Copa, viu a pressão aumentar de forma exponencial com a eliminação. A continuidade do treinador passou a ser tratada como a principal interrogação do futebol uruguaio para o próximo ciclo classificatório.

Os sete uruguaios do Brasileirão e o que cada um entregou

A eliminação encerrou a participação de sete jogadores que atuam no futebol brasileiro: Arrascaeta e De La Cruz (Flamengo), Canobbio (Fluminense), Emiliano Martínez e Piquerez (Palmeiras), Rochet (Internacional) e Varela (Flamengo). O desempenho individual do grupo foi tão irregular quanto a campanha coletiva.

  • Varela foi o mais regular: titular nos três jogos, o lateral-direito do Flamengo entregou consistência defensiva quando o restante do time oscilava.
  • Canobbio entrou no decorrer da primeira partida, ajudou a garantir o empate com a Arábia Saudita, virou titular nos dois jogos seguintes e marcou contra Cabo Verde — mas terminou a Copa com expulsão na derrota para a Espanha.
  • De La Cruz foi acionado no segundo tempo das três partidas, com desempenho razoável nos minutos recebidos, sem conseguir mudar o rumo dos jogos.
  • Rochet só entrou em campo no intervalo do último jogo, quando o titular Muslera pediu para ser substituído após falhar no gol espanhol.
  • Arrascaeta não jogou por lesão; Piquerez e Emiliano Martínez ficaram de fora por opção técnica de Bielsa.

A ausência de Arrascaeta, o jogador de maior criatividade individual do elenco, pesou de forma concreta. A lesão que o tirou dos três jogos não apenas retirou um titular — retirou o principal mecanismo de desequilíbrio ofensivo que Bielsa tinha à disposição. Nenhum substituto conseguiu ocupar esse papel.

O contexto que torna o resultado ainda mais difícil de digerir

A Copa do Mundo de 2026 estreou com o formato de 48 seleções, e o novo desenho da fase de grupos foi deliberadamente generoso: os quatro melhores terceiros colocados de cada chave avançam automaticamente. Matematicamente, o Uruguai precisava fazer mais do que a metade das seleções participantes para ser eliminado. Conseguiu.

"O desempenho ficou muito abaixo das expectativas para uma equipe que chegou ao Mundial embalada pelos resultados recentes nas Eliminatórias e pela qualidade do elenco", registrou o Terra Esportes em análise publicada após a eliminação.

A comparação com outras eliminadas reforça o peso do resultado. O Irã, por exemplo, saiu invicto da fase de grupos — somou três empates contra Nova Zelândia, Bélgica e Egito — e foi eliminado apenas pelos critérios de desempate da Fifa, com um gol anulado nos acréscimos contra os egípcios por impedimento mínimo identificado pelo VAR. A Celeste, ao contrário, não chegou perto de construir uma campanha sequer comparável à da seleção asiática.

O que os números dizem sobre o ciclo Bielsa

O treinador argentino assumiu o Uruguai com a missão de modernizar um estilo que havia funcionado por décadas com base em organização defensiva e jogadores de alto nível individual. A proposta era válida. A execução, ao menos no torneio mais importante do ciclo, produziu uma seleção que criou pouco, sofreu em momentos decisivos e saiu sem vencer um único jogo. Para uma seleção que disputou finais de Copa do Mundo em 1930 e 1950 e chegou às semifinais em 2010, o 37º lugar entre 48 é um dado que o futebol uruguaio vai levar para o próximo ciclo classificatório como referência obrigatória de onde não voltar.

"A continuidade do treinador passa a ser tratada como uma das principais dúvidas do futebol uruguaio para o próximo ciclo", apontou análise publicada no Terra Esportes após a eliminação da Celeste.

O que o Uruguai precisa resolver antes das próximas Eliminatórias

A Associação Uruguaia de Futebol terá de responder, nos próximos dias, à questão mais imediata: Bielsa segue ou não? O próprio técnico havia sinalizado incerteza sobre sua continuidade antes mesmo do início do torneio. A eliminação na fase de grupos transforma essa incerteza em urgência administrativa. A Copa do Mundo de 2030 terá sede compartilhada entre Espanha, Portugal, Marrocos e, simbolicamente, Argentina e Uruguai — país que sediou a primeira edição do torneio, em 1930. Jogar em casa, ainda que em apenas um jogo simbólico, com o peso de uma eliminação precoce como pano de fundo, é o tipo de pressão que exige planejamento imediato, não deliberação lenta. As Eliminatórias sul-americanas para 2030 começam em 2027, e o Uruguai chega a elas sem técnico definido, com um elenco que precisa de renovação e com a necessidade de reconstruir uma identidade que, em 2026, simplesmente não apareceu quando precisava.