A última vez que os Copa do Mundo registrou os Estados Unidos vencendo duas partidas consecutivas foi em Montevidéu, no Uruguai, em julho de 1930 — quando a seleção norte-americana derrubou Bélgica e Paraguai na fase de grupos da edição inaugural do torneio. Naquela equipe, não havia contratos milionários, não havia academias de formação estruturadas por franquias da MLS, não havia sequer uma federação profissional consolidada. Havia, sobretudo, imigrantes britânicos e escoceses que jogavam futebol como herança cultural, não como projeto nacional. Noventa e seis anos depois, os EUA voltaram a repetir a sequência — e o adversário que fechou o ciclo histórico foi, curiosamente, o mesmo Paraguai.

A vitória por 4 a 1 sobre os paraguaios na estreia, no SoFi Stadium em Los Angeles, foi seguida pelo triunfo por 2 a 0 diante da Austrália, nesta sexta-feira (19), em Seattle. Com seis pontos em dois jogos, a seleção anfitriã lidera com folga o Grupo D e já está classificada para as oitavas de final — independentemente do resultado entre Turquia e Paraguai, que se enfrentam neste sábado (20).

A herança de 1930 e o peso de um projeto que demorou décadas

Comparar os EUA de 1930 com os de 2026 é, antes de qualquer coisa, um exercício de economia política do esporte. Naquele torneio inaugural, os norte-americanos chegaram às semifinais — feito que nunca mais repetiram — mas o futebol permaneceu marginal na cultura esportiva do país por décadas. A criação da MLS, em 1993, como condição da FIFA para sediar a Copa de 1994, foi o marco institucional que iniciou a mudança. Hoje, a liga conta com 30 franquias, receita anual estimada em mais de 2 bilhões de dólares e um modelo de formação que começa a produzir jogadores capazes de atuar nas principais ligas europeias.

Folarin Balogun, do Monaco, e Giovanni Reyna, do Borussia Dortmund, marcaram na estreia contra o Paraguai. Tyler Adams e Malik Tillman organizaram o meio-campo diante da Austrália. Sergiño Dest, lateral formado pelo Barcelona, foi o responsável pelo chute que resultou no segundo gol americano em Seattle — após desvio em Harry Souttar e cabeçada de Alex Freeman, confirmada pelo VAR. Esse elenco não é fruto de improviso: é o produto de quase três décadas de investimento sistemático em infraestrutura esportiva, com o futebol sendo tratado, pela primeira vez na história americana, como ativo estratégico de soft power.

O que Pochettino instalou que Berhalter não conseguiu

Mauricio Pochettino assumiu a seleção norte-americana após a demissão de Gregg Berhalter, que conduziu os EUA à Copa de 2022 no Catar, mas não conseguiu superar a Holanda nas oitavas de final. A transição não foi apenas de treinador — foi de modelo de jogo e de identidade tática. Berhalter priorizava organização defensiva e transições rápidas. Pochettino, formado no futebol argentino e com passagens por Southampton, Tottenham e PSG, trouxe uma proposta radicalmente diferente: pressão alta, posse orientada e ocupação vertical do espaço.

Os resultados até aqui confirmam a mudança de paradigma. Contra o Paraguai — que na fase de qualificação havia derrotado Brasil, Uruguai, Chile e Argentina em casa —, os EUA marcaram quatro gols com domínio claro nos primeiros 45 minutos. Diante da Austrália, que vencera a Turquia na estreia, o controle foi ainda mais nítido: dois gols no primeiro tempo, sem Christian Pulisic (poupado por desconforto muscular), e uma defesa organizada que resistiu à pressão australiana durante toda a segunda etapa.

"Ainda temos muito para fazer. É um início realmente muito bom, devemos estar orgulhosos. Mas temos de continuar a trabalhar e estar prontos para o próximo jogo", disse Pulisic após a vitória sobre o Paraguai.

A declaração do capitão resume com precisão o tom que Pochettino impôs ao grupo: contenção do triunfalismo, foco na continuidade. O próprio treinador reforçou essa postura na coletiva após a estreia.

"Precisamos de continuar a melhorar", afirmou Pochettino, recusando qualquer leitura de que o trabalho estava feito.

O estádio como termômetro cultural de um país que ainda descobre o futebol

Há uma dimensão simbólica que ultrapassa o placar e que merece leitura sociológica. O jogo contra o Paraguai, no SoFi Stadium, contou com a presença de Tom Cruise, Leonardo DiCaprio e David Beckham — que assistiu à partida ao lado de Victoria Beckham. Katy Perry se apresentou na cerimônia de abertura do torneio. O presidente Donald Trump, anunciado como possível presença, não compareceu. Essa constelação de celebridades não é coincidência: é o resultado de uma estratégia deliberada da FIFA e da US Soccer Federation para posicionar a Copa como evento cultural de primeira grandeza nos Estados Unidos, disputando espaço simbólico com o Super Bowl e as finais da NBA.

O retrospecto recente reforça que algo estrutural mudou. Nas últimas 11 partidas em Copas do Mundo, os EUA acumulam cinco vitórias, cinco empates e apenas uma derrota — uma regularidade que contrasta com décadas de inconsistência. Conforme registrado pelo SportNavo ao longo desta cobertura, a seleção americana passou de coadjuvante previsível a protagonista incômodo, com jogadores formados nas melhores ligas europeias e um técnico com experiência de alto nível em Champions League.

O que esperar dos EUA diante da Turquia e nas oitavas

A última rodada do Grupo D coloca os EUA diante da Turquia, na quinta-feira (25), em Los Angeles — com o primeiro lugar já assegurado e a possibilidade de Pochettino rodar o elenco. A questão que se coloca não é se os americanos avançarão, mas com que configuração e contra qual adversário eles entrarão nas oitavas. O desempenho sem Pulisic diante da Austrália foi, nesse sentido, um dado revelador: a equipe não depende de um único jogador para funcionar.

A Austrália, com três pontos, ainda tem chances de classificação. Paraguai e Turquia, sem pontuar, precisam vencer e torcer por tropeço australiano. O mapa do Grupo D, portanto, ainda tem tensão — mas ela não envolve mais os anfitriões.

A herança de 1930 e o peso de um projeto que demorou décadas Como os EUA quebrar
A herança de 1930 e o peso de um projeto que demorou décadas Como os EUA quebrar

No Lumen Field, em Seattle, quando o árbitro apitou o final do jogo diante da Austrália, a torcida cantou em uníssono enquanto Freeman — o zagueiro que nunca havia marcado numa Copa — levantou os braços para o céu cinza do noroeste americano. Noventa e seis anos de espera encerrados por uma cabeçada confirmada pelo VAR.