"Vim apresentar a vocês minha família. Meu filho Carlos, meu filho Christian e o caçula da casa, cujo nome é Merlin." Karla Ivette Gomez disse isso com toda a seriedade do mundo diante de microfones, câmeras e da presidente do México. O caçula em questão grasnou.

Era segunda-feira, 22 de junho, no Palácio Nacional da Cidade do México. Merlin — um pato doméstico vestindo uma minicamisa verde da seleção mexicana e um cachecol oficial da FIFA — caminhou até o palco durante a coletiva de imprensa matinal de Claudia Sheinbaum, ocupou o lugar normalmente reservado a ministros e autoridades, e soltou dois grasnados que nenhum repórter credenciado ousaria interromper. A Copa do Mundo de 2026 tinha encontrado seu personagem mais improvável.

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Como um pato na Avenida Reforma parou o México

Tudo começou onze dias antes. Era 11 de junho, noite de abertura do torneio, e a Avenida Reforma estava tomada por uma multidão em delírio depois da vitória mexicana sobre a África do Sul por 2 a 0. Entre os torcedores, bandeiras, fogos e buzinas, uma câmera flagrou um pato vestido com a camisa do Tri circulando com a calma de quem tinha ingresso VIP. O vídeo chegou às redes sociais com uma legenda que dizia o essencial: "Not AI. Not CGI. Just Mexico being Mexico." Em horas, o post tinha centenas de milhares de compartilhamentos.

Karla Gómez é vendedora ambulante — ela vende água e refrigerantes pelas ruas da capital mexicana e costuma levar Merlin durante o expediente. Naquela noite, ela simplesmente foi comemorar com o pato. O México fez o resto. Internautas produziram figurinhas no estilo do álbum oficial da Copa, montagens com Merlin dentro de campo e artes geradas por inteligência artificial — uma delas publicada pelo perfil oficial da seleção mexicana mostra o pato voando em direção ao estádio de Guadalajara. O perfil oficial da Copa do Mundo publicou apenas uma imagem: Merlin indo em direção à taça. Sem texto. Sem explicação necessária.

O pato que grasnou para a presidente

A convocação ao Palácio Nacional não foi por acaso. Sheinbaum explicou que queria que os mexicanos conhecessem a família por trás do fenômeno — não apenas o animal. Karla levou os filhos Carlos e Christian, e Merlin chegou com seu figurino completo: camisa da seleção e cachecol da FIFA, como se soubesse da ocasião.

"Nós nos sentimos muito honrados por estar aqui com a presidente. É uma honra para nós estarmos diante de vocês e para o mundo inteiro ver o lado bonito do México", disse Karla Gómez durante a coletiva.

Sheinbaum foi além do protocolo. A presidente anunciou que a família receberá assistência do governo, sem detalhar a forma. Karla, por sua vez, revelou que pretende registrar Merlin como marca comercial — e que a nova fama pode mudar a vida da família, especialmente a do filho mais velho, que sofre de transtornos mentais. O pato, que há duas semanas vendia refrigerante na calçada, agora tem perspectiva de virar propriedade intelectual.

"Hoje trouxemos a família que tem o pato Merlin como animal de estimação, porque ele se tornou um símbolo da Copa do Mundo, um símbolo do que representam as famílias mexicanas, de quem somos como famílias mexicanas", disse a presidente Claudia Sheinbaum.

A dieta de um mascote e o que ela diz sobre o México

Em matéria do SportNavo, o detalhe mais revelador desta história talvez não seja o encontro presidencial. É a alimentação de Merlin. Karla explicou à plateia que o pato come ração especial para patos, legumes, frutas, proteína para as penas, peixes vivos de lago e grilos. Mas aos domingos — e aqui a sala riu alto — "ele come um taco de carnitas". Um pato com dieta de fim de semana mais mexicana do que a maioria dos torcedores nas arquibancadas.

Esse detalhe importa porque explica, melhor do que qualquer análise sociológica, por que Merlin funcionou tão bem como símbolo. Ele não foi construído por uma agência de marketing nem escolhido por comitê. Surgiu das ruas, de uma vendedora ambulante, de uma noite de festa espontânea. Num torneio que custou bilhões de dólares para ser organizado e que tem três países-sede, um pato doméstico com camisa verde e dieta de taco dominical capturou algo que os mascotes oficiais — Maple, Zayu e Clutch — ainda tentam alcançar.

  • 11 de junho — Merlin aparece na Avenida Reforma durante as comemorações da vitória sobre a África do Sul (2 a 0)
  • 19 de junho — O perfil oficial da Copa do Mundo publica arte com Merlin indo em direção à taça
  • 22 de junho — Merlin é recebido pela presidente Claudia Sheinbaum no Palácio Nacional

O que vem depois de um grasno presidencial

O México enfrenta a Polônia na próxima fase da competição, e Merlin já tem mais seguidores nas redes do que muitos jogadores do Tri. Karla Gómez deu entrada no pedido de registro de marca e negocia aparições. A seleção mexicana ainda precisa provar em campo que pode ir além das oitavas — a maldição das quartas de final segue intacta desde 1986. Mas enquanto o time joga, Merlin grasna, e o México, por ora, prefere acreditar que os dois fenômenos caminham juntos pela mesma Avenida Reforma.

"Vim apresentar a vocês minha família. Meu filho Carlos, meu filho Christian e o caçula da casa, cujo nome é Merlin." Karla disse isso com toda a seriedade do mundo diante de microfones, câmeras e da presidente do México. O caçula, desta vez, não precisou grasnar — o mundo já sabia quem ele era.