Se a Copa do Mundo fosse decidida por uma única partida, a Inglaterra de Gareth Southgate seria candidata séria ao título. O problema, como o torneio de 2026 está demonstrando, é que a Copa tem sete rodadas eliminatórias — e a seleção inglesa parece incapaz de manter o mesmo patamar por dois jogos consecutivos.
A resolução chega nos dados: quatro pontos em dois jogos colocam os ingleses na liderança do Grupo L, com saldo positivo em relação a Gana. Mas a trajetória para chegar a esse número revela uma equipe que oscila de forma preocupante entre a excelência e a mediocridade — e essa oscilação tem causas identificáveis, não apenas variações de sorte.
A vitória sobre a Croácia e a armadilha das expectativas
O 4 a 2 sobre a Croácia foi, por qualquer métrica, uma atuação sólida. Harry Kane marcou dois gols, a equipe demonstrou mobilidade ofensiva e a impressão deixada no ambiente jornalístico foi de uma seleção pronta para disputar o título. Analistas de audiência registraram picos de interesse público na Inglaterra após a partida, e as apostas em favor dos ingleses subiram de forma expressiva nas principais casas europeias.
O que esse entusiasmo ignorou foi a natureza do adversário. A Croácia de 2026 não é a mesma que chegou à semifinal em 2018 com Luka Modrić em plenitude. Jogar bem contra uma equipe em declínio geracional não é o mesmo que demonstrar capacidade de romper sistemas defensivos compactos — e foi exatamente essa distinção que o jogo contra Gana tornou dolorosa.
O 0 a 0 com Gana e o que um único chute no alvo revela
Quando o árbitro encerrou o primeiro tempo da partida contra Gana, a Inglaterra havia registrado zero finalizações no alvo. Não uma. Em 45 minutos de jogo, com a posse de bola e os recursos técnicos disponíveis no elenco de Southgate, a seleção não conseguiu sequer testar o goleiro adversário.
Kane, artilheiro do torneio até então, foi neutralizado pela marcação individual de Thomas Partey — volante que havia ficado de fora da estreia da seleção africana por razões extracampo, mas que retornou para exercer controle quase total sobre o centroavante inglês. O próprio Kane reconheceu a dificuldade:
"Fui marcado individualmente pelo Partey, então não tive espaço para recuar e participar mais da construção. Eles defenderam muito bem a área. As bolas pelo meio eram difíceis de trabalhar porque eles estavam muito compactos."
Na reta final, Kane teve a chance de resolver: pegou um rebote na pequena área e chutou por cima do travessão. Sua resposta foi pragmática, quase fria:
"Essas coisas acontecem. Eu estava esperando uma oportunidade como aquela aparecer para mim. Esperei a bola quicar, ela quicou, mas não consegui passar por cima dela da maneira certa. Faz parte. Sou atacante há tempo suficiente para saber que nem todas entram."
A colunista Alicia Klein, no Fim de Papo do Canal UOL, identificou o problema com precisão cirúrgica: faltou ousadia e alegria à Inglaterra. Marcus Rashford entrou tarde demais, sem conseguir criar os espaços pelas pontas que outras seleções usaram com sucesso para alimentar seus centroavantes. Quando a bola finalmente chegou a Kane, o erro foi individual — mas o isolamento do atacante foi um problema coletivo.
A inconsistência inglesa como fenômeno tático e cultural
O que para o argentino é pragmatismo — a capacidade de vencer feio quando necessário — para o inglês ainda carrega o peso de uma identidade futebolística que oscila entre o poder físico e a ambição técnica. A seleção de Southgate nunca resolveu essa tensão de forma definitiva, e o torneio de 2026 está expondo essa indecisão estrutural.
O analista PVC, em cobertura do UOL, apontou que Brasil e Inglaterra compartilham esse padrão de oscilação: seleções que, para avançar, precisarão melhorar ao longo do torneio, ao contrário de equipes que já demonstram consistência desde a fase de grupos. A observação é pertinente do ponto de vista tático, mas também levanta uma questão de gestão de desempenho — até que ponto Southgate tem ferramentas para corrigir o problema antes das fases eliminatórias?
Walter Casagrande, em análise publicada no SportNavo durante a cobertura da Copa, ponderou que o imediatismo das avaliações prejudica a leitura correta do torneio: "A Inglaterra nem é a melhor seleção do mundo pela partida que fez contra a Croácia e nem é uma seleção descartada do título pelo jogo com Gana hoje." A ponderação é válida — mas não elimina o problema. Oscilação extrema entre jogos consecutivos, em Copa do Mundo, tem custo acumulado nas fases decisivas.
O padrão histórico dos ingleses em torneios confirma a preocupação. Desde 1966, a seleção não conquista o título mundial. As eliminações recentes — inclusive nas semifinais — frequentemente ocorreram contra adversários que souberam explorar exatamente a dificuldade inglesa de impor seu jogo quando a defesa adversária é organizada e compacta. Gana executou, em poucas semanas de trabalho sob Carlos Queiroz, um modelo defensivo que emperrou completamente a criatividade inglesa. Imagine o que uma seleção com mais tempo de preparação e maior qualidade individual pode fazer nas oitavas ou nas quartas.
A Inglaterra fecha a fase de grupos contra o Panamá — adversário com perfil distinto de Gana, menos organizado defensivamente, o que provavelmente permitirá uma vitória inglesa e mascará temporariamente os problemas estruturais identificados. Mas o mata-mata, que começa com a partida marcada para o início de julho, exigirá respostas que Southgate ainda não demonstrou ter. Kane, com dois gols contra a Croácia e uma chance desperdiçada contra Gana, encarna essa ambiguidade: talento suficiente para decidir jogos abertos, mas dependente demais de condições favoráveis que os adversários mais qualificados simplesmente não oferecem.
Se a Copa fosse decidida por uma única partida, a Inglaterra de Gareth Southgate seria candidata séria ao título — desde que essa partida fosse contra a Croácia.








