Diz-se que nenhuma lei consegue domar o torcedor mexicano no dia de jogo em casa. Na Cidade do México, nesta quarta-feira (24), o governo resolveu testar essa premissa — e a resposta chegou na forma de um decreto oficial publicado nesta terça (23): proibição total de venda de bebidas alcoólicas das 15h até as 7h do dia seguinte. Bares, supermercados, vendedores ambulantes. Todos fechados para o álcool. O palco é o Estádio Azteca, às 22h no horário de Brasília, com México x República Tcheca pela terceira rodada do Grupo A da Copa do Mundo 2026.
A cidade que não para encontra uma ordem que tenta pará-la
O calor de julho ainda não chegou, mas a febre da Copa já tomou as ruas. Nos dias anteriores ao jogo, o Zócalo — a praça central da capital — virou um carnaval permanente. Mexicanos e visitantes de dezenas de países misturaram cores, cantos e, claro, cerveja. Muita cerveja. A cena era de festa contínua, com vendedores ambulantes atendendo filas que dobravam quarteirões inteiros. Foi exatamente esse cenário — multiplicado por centenas de pontos da cidade — que acendeu o alerta das autoridades locais.
O secretário do governo municipal, César Romero, foi direto ao explicar a decisão:

"Preservar a ordem pública, garantir a segurança das pessoas assistentes, facilitar a mobilidade dos pedestres e veicular, assim como prevenir condutas que possam alterar a sana convivência durante o desenvolvimento das atividades relacionadas ao maior evento esportivo do mundo."
A medida não é total para todos os estabelecimentos. Hotéis, restaurantes, cinemas e teatros — espaços com consumo controlado — podem vender bebidas alcoólicas, desde que a consumação aconteça no próprio local. O que está vedado é a venda para viagem: a garrafa que sai do balcão e some na multidão.
O Azteca lotado e uma torcida que vai precisar se reinventar
O impacto mais imediato é nos arredores do estádio. Quem conhece o ritual dos jogos no Azteca sabe que o pré-jogo começa horas antes do apito — as ruas que circundam o estádio, no bairro de Coyoacán, transformam-se num festival de churrasco, música e, invariavelmente, cerveja gelada. Com a lei seca em vigor desde as 15h, toda essa engrenagem para. O torcedor que chega às 18h para pegar o clima do jogo das 22h vai encontrar uma versão diferente — talvez mais tensa, talvez mais concentrada — do ritual que conhece de cor.
Há quem enxergue nisso um problema de segurança às avessas: torcedores que costumam distribuir o consumo ao longo de horas podem tentar concentrá-lo antes das 15h — o chamado efeito da antecipação, registrado em outros eventos com restrições semelhantes. As autoridades, porém, apostam no contrário. Com menos álcool circulando nas ruas, a expectativa é de menor incidência de brigas e incidentes nos acessos ao estádio, que comporta mais de 87 mil pessoas.
A informação foi acompanhada de perto por reportagem publicada pelo SportNavo, que registrou o clima de expectativa nas imediações do Azteca nesta terça-feira — com torcedores ainda celebrando, mas já atentos ao novo decreto.

Jogo decisivo para a República Tcheca, protocolo para o México
Do lado esportivo, a partida tem pesos completamente diferentes para cada time. O México — com duas vitórias nas duas primeiras rodadas do Grupo A — já garantiu a classificação para as oitavas de final e lidera a chave com folga. Mesmo que empate com a Coreia do Sul em pontos ao final da fase de grupos, os mexicanos levam vantagem no confronto direto. A seleção da casa, portanto, entra em campo nesta quarta com a vaga no bolso.
Para a República Tcheca, o cenário é diametralmente oposto. Dependendo de uma vitória e de um tropeço sul-coreano diante da África do Sul — partida que acontece no mesmo horário —, os tchecos precisam de tudo: os três pontos e um favor do acaso. A combinação transforma o jogo em dois filmes simultâneos, com plateias diferentes acompanhando cada cena.
O técnico mexicano, ciente de que pode poupar peças para o mata-mata, deve escalar uma equipe mista — o que, ironicamente, pode abrir espaço para a República Tcheca construir algo. A tensão no vestiário visitante, segundo relatos da delegação tcheca, é palpável: o grupo treinou com portões fechados na manhã desta terça e nenhum jogador foi liberado para entrevistas após a atividade.
A bola rola nesta quarta-feira (24) às 22h, horário de Brasília, no Azteca — com ou sem cerveja nas arquibancadas. A pergunta que fica para os próximos dias é concreta: se o México avançar como líder e encarar um adversário mais pesado nas oitavas, a lei seca volta a ser decretada, ou a cidade decide que o risco de um jogo eliminatório merece tratamento diferente?








