Quantos técnicos de seleção olham para o Brasileirão como laboratório tático antes de uma Copa do Mundo? Néstor Lorenzo fez exatamente isso — e a resposta está na lista que ele divulgou na tarde de segunda-feira, 25 de maio: quatro jogadores que disputam o dia a dia do futebol brasileiro estão convocados para defender a Colômbia no Mundial de 2026. A escolha não é acidente nem nostalgia. Ela reflete uma leitura clara sobre o que o futebol brasileiro tem ensinado a jogadores estrangeiros que aqui se desenvolveram.

Lorenzo montou um grupo de 26 atletas que mistura veteranos de ligas europeias — Luis Díaz no Bayern de Munique, James Rodríguez no Minnesota United, Richard Ríos no Benfica — com um núcleo de jogadores que respiram o Campeonato Brasileiro todas as semanas. O grupo colombiano vai ao Mundial no Grupo K, ao lado de Portugal, Uzbequistão e República Democrática do Congo, e estreia em 17 de junho, no Estádio Azteca, diante dos uzbeques. Antes disso, fará amistosos contra Costa Rica e Jordânia nos dias 1º e 7 de junho.

O que Portilla, Arias, Carrascal e Andrés Gómez fazem dentro de campo

Juan Camilo Portilla, volante do Athletico-PR, é o jogador de menor projeção internacional dos quatro, mas cumpre uma função que Lorenzo valoriza: destruição de jogo no meio-campo com capacidade de recomposição rápida. No Athletico nesta temporada do Brasileirão 2026, Portilla acumula atuações consistentes como segundo volante, liberando o jogo para os mais criativos. Lorenzo o vê como peça de equilíbrio — o tipo de jogador que não aparece nas estatísticas de gols, mas que faz o time andar.

Jhon Arias, meia-atacante do Palmeiras, é o nome de maior valor de mercado entre os quatro convocados que atuam no Brasil. Com passagens marcantes pelo Fluminense antes de chegar ao Palmeiras, Arias construiu no futebol brasileiro uma versatilidade rara: joga pela direita, pela esquerda e como segundo atacante, com capacidade de pressão alta e condução em espaços curtos. Seu estilo de jogo — como uma corrente elétrica que percorre o lado do campo antes de encontrar a descarga certa — se encaixa perfeitamente no 4-2-3-1 que Lorenzo costuma usar.

Jorge Carrascal, meia do Flamengo, é provavelmente o nome mais conhecido do quarteto para o torcedor brasileiro. Desde que chegou ao Rubro-Negro, acumulou gols e assistências em competições nacionais e continentais, desenvolvendo uma capacidade de finalização de média distância que poucos meias da Colômbia têm. Nos jogos do Flamengo em 2026, Carrascal vem sendo utilizado como meia de criação com liberdade para adiantar, característica que Lorenzo deve explorar nas transições rápidas contra defesas mais compactas, como a uzbeque.

Carlos Andrés Gómez, do Vasco da Gama, fecha o quarteto como atacante. Chegou ao Cruz-Maltino para ser referência ofensiva e vem cumprindo essa função no Brasileirão 2026 com movimentações entre linhas e presença na área. Segundo a avaliação do SportNavo, Gómez é o jogador que mais depende de bolas filtradas para render — o que torna Arias e Carrascal ainda mais importantes como fornecedores de passe no meio-campo colombiano.

A leitura que desafia a narrativa de que o Brasileirão forma só atletas para exportação

Existe uma interpretação dominante sobre a função do futebol brasileiro no cenário mundial: o país forma jogadores que precisam ir para a Europa para atingir o topo. Lorenzo inverte essa lógica. Ao convocar quatro atletas que atuam no Brasil, o técnico argentino sinaliza que o Brasileirão — com sua intensidade física, seu ritmo de jogos e a pressão de clubes como Flamengo, Palmeiras e Athletico-PR — oferece uma preparação que não precisa de validação europeia.

A contra-leitura existe e precisa ser honesta: nenhum dos quatro convocados que atuam no Brasil é titular absoluto da seleção colombiana. Luis Díaz, que chegou ao Bayern de Munique nesta janela, é o grande nome ofensivo. James Rodríguez, mesmo atuando na MLS, mantém seu status de camisa 10. Yerry Mina e Davinson Sánchez formam a dupla de zagueiros com mais experiência internacional. O risco real para Lorenzo é que, em momentos de pressão dentro do Grupo K — especialmente contra Portugal, que tem Cristiano Ronaldo, e uma Colômbia que precisará vencer pelo menos dois jogos para avançar —, os jogadores do Brasileirão sejam opções de banco, não soluções de emergência.

A síntese pesa os dois lados: a convocação dos quatro reflete prestígio real do futebol brasileiro como formador de jogadores para seleções estrangeiras, mas a efetividade desse grupo depende do quanto Lorenzo conseguirá integrar o conhecimento tático acumulado no Brasil com a leitura de jogo europeia que os titulares trazem. Arias tem o perfil mais completo para começar jogando. Carrascal tem o histórico para decidir saindo do banco. Portilla pode ser o coringa defensivo. Gómez precisa de espaço que o Grupo K talvez não ofereça fácil.

O que Portilla, Arias, Carrascal e Andrés Gómez fazem dentro de campo Como quatr
O que Portilla, Arias, Carrascal e Andrés Gómez fazem dentro de campo Como quatr

O Grupo K e o peso de cada convocado colombiano do Brasil

A Colômbia não está num grupo fácil. Portugal, com Cristiano Ronaldo e um elenco que inclui Rúben Dias e Bruno Fernandes, é favorito claro à liderança. Uzbequistão e RD Congo representam adversários que, no papel, são mais acessíveis — mas em Copa do Mundo, papel não joga. A estreia colombiana acontece justamente contra os uzbeques, em 17 de junho, no Estádio Azteca, na Cidade do México, às 23h (horário de Brasília). Esse jogo será o primeiro teste real para Lorenzo escalar ou não seus convocados do Brasileirão desde o início.

Arias e Carrascal têm ritmo de jogo elevado — ambos disputam competições regularmente em 2026 com Palmeiras e Flamengo, respectivamente, o que significa que chegam ao torneio sem o risco de descompassamento físico que afeta alguns jogadores de ligas que já encerraram a temporada. Portilla, no Athletico-PR, também está em atividade. Gómez, no Vasco, idem. Esse fator de ritmo é, muitas vezes, mais decisivo do que qualquer análise tática — e aqui o Brasileirão joga a favor da Colômbia.

Em 17 de junho, quando a Colômbia entrar no Azteca diante da Uzbequistão, saberemos se Néstor Lorenzo vai de fato apostar nos quatro convocados do Brasil como peças de rotação — ou se a decisão de incluí-los na lista foi mais sobre confiança acumulada do que sobre plano tático imediato.