Quarenta e oito anos separam as melhores campanhas da Noruega em Copas do Mundo — as oitavas de final em 1938 e em 1998 — e é exatamente essa lacuna histórica que torna o Grupo I da Copa do Mundo 2026 mais perigoso do que parece à primeira vista. A França, bicampeã mundial em 1998 e 2018 e vice em 2022, entra na fase de grupos como favorita absoluta da chave. Mas favoritismo, em Copa, já foi certidão de eliminação precoce.

O peso do Grupo I sobre a França antes da primeira bola rolada

Kylian Mbappé, aos 27 anos no torneio, chega como o jogador de maior valor de mercado do planeta e como principal referência ofensiva de Didier Deschamps — o mesmo técnico que levantou a taça em Moscou, em 15 de julho de 2018, após uma final de 4 a 2 sobre a Croácia. Em 2022, no Catar, a França foi até a decisão novamente e perdeu para a Argentina nos pênaltis, após empate em 3 a 3 no tempo regulamentar e na prorrogação. Dois finais consecutivos: nenhuma seleção havia chegado a esse feito desde Brasil (1994 e 1998) e Alemanha (1982 e 1986).

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O problema não está no que a França fez nas últimas duas Copas. Está no que aconteceu entre elas. A campanha na Eurocopa 2024 ficou abaixo das expectativas — os franceses chegaram às semifinais, mas produziram um futebol apagado, sem Mbappé em plena forma após fratura no nariz. Deschamps, questionado sobre o rendimento coletivo da equipe, reconheceu que "a seleção precisa ser mais consistente nos momentos que antecedem grandes torneios". A frase vale como alerta para o que vem pela frente.

Senegal carrega 2002 como referência e Haaland como ameaça real

A campanha senegalesa de 2002 — quartas de final, sob o comando de Bruno Metsu, com vitória histórica de 1 a 0 sobre a França na estreia — é o dado que nenhum torcedor francês quer lembrar agora. Sadio Mané lidera uma geração que combina velocidade pelos flancos, solidez defensiva e transições rápidas sustentadas por um meio-campo compacto. Não é a Senegal de 2002, mas tampouco é inferior a ela em termos de potencial ofensivo.

A Noruega, por sua vez, apresenta o argumento mais estatístico do grupo. Erling Haalandartilheiro do Manchester City com números que beiram o absurdo em qualquer temporada europeia — lidera uma equipe que recentemente aplicou goleadas sobre a Itália em jogos das eliminatórias. O técnico Stale Solbakken conta ainda com Martin Odegaard, Sander Berge e Antonio Nusa, formando um coletivo que mistura qualidade técnica e imposição física. A Noruega nunca passou das oitavas em Copa — mas com esse elenco, chega ao torneio como a ameaça mais concreta que os escandinavos já representaram.

"A Noruega não vem à Copa do Mundo para fazer número", declarou Solbakken em entrevista antes do sorteio. "Temos jogadores para competir com qualquer seleção do mundo."

O Iraque — o azarão do grupo — não pode ser descartado com a mesma velocidade com que se vira a página. A história das Copas está repleta de zebras protagonizadas por seleções asiáticas: Coreia do Norte em 1966 (vitória de 1 a 0 sobre a Itália), Coreia do Sul em 2002 (semifinais), Arábia Saudita em 2022 (vitória de 2 a 1 sobre a Argentina). Nenhum grupo com quatro seleções é matematicamente seguro para ninguém.

O que a escalação francesa revela sobre os próximos confrontos

Deschamps dispõe de uma das defesas mais sólidas do mundo: Mike Maignan no gol, Ibrahima Konaté, Dayot Upamecano e William Saliba na zaga, Lucas Hernández na lateral. No meio, Aurélien Tchouaméni organiza e Rayan Cherki cria. No ataque, Ousmane Dembélé, Michael Olise e Marcus Thuram — além de Mbappé — formam um quarteto com velocidade e criatividade suficientes para desmontar qualquer sistema defensivo.

O modelo de jogo francês — transições ofensivas verticais, pressão alta e solidez defensiva — funciona excepcionalmente bem contra equipes que abrem espaço. Senegal e Noruega não vão abrir. Ambas jogam com intensidade física, linhas compactas e transições rápidas. O confronto França x Noruega, em especial — dois times que vivem de velocidade e ligação direta ao ataque — tem todos os ingredientes para ser o jogo mais disputado da fase de grupos, independentemente de qual seja o primeiro da chave.

"Mbappé é o melhor do mundo quando tem espaço", avaliou o ex-técnico da seleção francesa Laurent Blanc em análise publicada conforme registrado pelo SportNavo. "Contra equipes que fecham o espaço, a França precisa de outra lógica de jogo."

A ordem dos jogos no grupo pode definir tudo. Se a França tropeçar na estreia — contra Senegal ou Noruega —, o segundo jogo vira uma decisão antecipada. A pressão sobre Mbappé, que ainda não marcou um gol em fase eliminatória de Copa do Mundo em 2022 antes da final, aumenta exponencialmente nesse cenário. Em 2022, ele terminou como artilheiro do torneio com 8 gols, mas todos vieram na fase de grupos e nas oitavas em diante — nenhum contra adversários do calibre de Senegal ou Noruega.

A França estreia no Grupo I com o peso de dois finais consecutivos nas costas e a obrigação histórica de ser a primeira seleção a conquistar três títulos mundiais em três décadas diferentes — 1998, 2018 e, potencialmente, 2026. Senegal quer repetir 2002. Noruega quer escrever 1938 e 1998 em uma única frase. O Grupo I é uma armadilha com três portas — e Mbappé precisa encontrar a saída.