Um diamante bruto num treino de reservas. Essa é a imagem que melhor define o ponto de partida de Gabriel Bontempo no futebol profissional — e o que ela representa ficou evidente na última quarta-feira, quando o meia de 21 anos abriu o placar no Couto Pereira com um golaço individual, selando a vitória do Santos por 2 a 0 sobre o Coritiba e garantindo a classificação para as oitavas de final da Copa do Brasil.

A intuição de Caixinha e o volante que ninguém esperava

A história começa no CT Rei Pelé, durante uma atividade rotineira dos reservas sob o comando de Pedro Caixinha. Bontempo havia chegado pela Copinha e era testado como meia ou ponta — função convencional para um jogador de seu perfil. Numa tarde em que a equipe precisava de um volante para equilibrar o coletivo, Caixinha tomou uma decisão por instinto.

"Nossa necessidade durante o treino nos fez testar ele ali. E nos chamou atenção pela leitura de jogo, decisões e capacidade. Foi impressionante", revelou o técnico português.

A aposta funcionou de imediato. Bontempo entrou no segundo tempo contra o Corinthians na primeira fase do Campeonato Paulista e não saiu mais. Nas quatro partidas seguintes como titular, o Santos venceu todas — e o jovem formou com João Schmidt uma dupla sólida no meio-campo. Caixinha foi categórico ao justificar a escolha: "Eu sou um pouco intuitivo nesse sentido. Quando vejo que um jogador pode exercer uma função com qualidade, não hesito em dar a chance."

A resistência sob Vojvoda e o caminho de volta

Nem toda trajetória é uma linha reta. Com a saída de Caixinha e a chegada de Cleber Xavier, Bontempo manteve participações regulares, mas perdeu a titularidade. A situação piorou com Juan Pablo Vojvoda: o argentino raramente o tirou do banco nos primeiros meses. Uma cirurgia de correção de desvio do septo nasal ainda o afastou das cinco primeiras rodadas do Campeonato Paulista de 2026.

A virada veio na partida contra o Noroeste, pelo Paulistão. Bontempo foi o principal nome do meio-campo santista, iniciando a jogada que terminou no gol de Rony na vitória por 2 a 1 — resultado que afastou o risco de rebaixamento do Santos no estadual. Contra o Novorizontino, entrou no intervalo e marcou o gol de empate. Na vitória sobre o Vasco pelo Brasileirão, voltou a criar o primeiro gol de Neymar com uma jogada de qualidade técnica acima da média. Vojvoda rendeu-se à evidência e o manteve entre os titulares.

Titular absoluto sob Cuca e o gol que vale oitavas

Com Cuca no comando, Bontempo atingiu outro patamar. Segundo apuração do SportNavo, o meia acumula 963 minutos em campo sob o treinador — o quinto jogador com mais tempo entre os titulares, atrás apenas de Lucas Veríssimo, Escobar, Luan Peres e Gabriel Brazão. São 12 partidas consecutivas no time principal, com atuação crescente na produção ofensiva ao lado de Rollheiser, Neymar e Barreal.

O gol contra o Coritiba no Couto Pereira foi o ponto mais alto dessa fase. Antes disso, contra o Red Bull Bragantino na Vila Belmiro, foi de Bontempo o passe que abriu caminho para Neymar marcar. A comissão técnica avalia internamente que ele "está jogando muito" — e a renovação de contrato assinada há um mês, com aumento salarial e vínculo até 31 de dezembro de 2030, traduz em números essa confiança.

Há um paralelo histórico que vale registrar: o Santos sempre soube transformar jovens do meio-campo em peças estruturais. Mengálvio, Clodoaldo, Edu — cada geração teve seu arquiteto de jogo. Bontempo não carrega ainda o peso dessas comparações, mas a trajetória que percorreu em menos de dois anos — da atividade de reservas ao gol decisivo numa Copa do Brasil — indica que o clube encontrou mais um nome para essa lista.

O Santos volta a campo pelo Brasileirão neste domingo, dia 17 de maio, diante do Coritiba, no Neo Química Arena, às 14h — e Bontempo entra em campo como titular confirmado, buscando a terceira vitória consecutiva da equipe na temporada.