Não, o herói desta quarta-feira no Estádio Alejandro Serrano Aguilar não foi nenhum atacante de área, nenhum artilheiro com contrato milionário ou nome nas pranchetas dos olheiros europeus. O homem mais importante da noite em Cuenca foi um zagueiro que passou 90 minutos fazendo o trabalho sujo que ninguém filma, mas que todo clube paga caro para ter: Juan Rattalino, o argentino de 29 anos que chegou ao Cremonese em janeiro de 2026 por contrato de 18 meses com cláusula de extensão automática atrelada a desempenho em competições internacionais.

O herói da partida

Juan Rattalino não é um nome que aparece nas listas de destaques de mercado. Seu contrato com o Cremonese foi fechado por valores modestos para o padrão europeu — estimados em torno de 800 mil euros anuais, sem bônus de assinatura divulgados — mas a cláusula que interessa aos bastidores é outra: o clube italiano tem opção de compra definitiva sobre o passe do jogador, atualmente pertencente ao Estudiantes de La Plata, por 3,2 milhões de euros, exercível até julho de 2027. O empate em Cuenca, num grupo onde cada ponto é disputado milímetro a milímetro, agrega valor direto a essa negociação.

O que ele fez em campo

Rattalino entrou em campo ainda na primeira etapa como substituto de Matías Reali, aos 46 minutos, numa mudança que a comissão técnica do Cremonese planejou como ajuste tático para o segundo tempo — não como reação a uma emergência. O que poucos notaram é que o argentino já havia sido amarelado aos 40 minutos, ainda no banco de reservas, numa infração cometida fora do campo durante uma discussão com a comissão técnica adversária. Jogar o segundo tempo inteiro com uma advertência no cartão, em ambiente hostil, com a torcida equatoriana pressionando as arquibancadas do Serrano Aguilar, exige um controle emocional que vai além do talento técnico. Rattalino não tomou o segundo amarelo. Bloqueou três finalizações nos 45 minutos finais e saiu de campo com o placar zerado.

A pressão do Deportivo Cuenca foi real e constante. O time equatoriano, jogando em altitude — Cuenca está a aproximadamente 2.560 metros acima do nível do mar, uma diferença geográfica que seria como comparar o litoral de Fortaleza com o planalto de Diamantina, em Minas Gerais — explorou o cansaço físico dos visitantes com trocas de passes rápidas e transições verticais. A saída de Facundo Gulli, substituído pelo próprio Rattalino aos 46 minutos, indicava que o meio-campo italiano estava sentindo o impacto da altitude. P. Boolsen, amarelado aos 37 minutos, também operou no limite durante o segundo tempo.

Como o time se ergueu (ou caiu) com ele

O Cremonese adotou um bloco defensivo coeso, com linhas curtas e transições controladas. Sem gols a defender no placar, a equipe italiana priorizou a organização sobre a posse, cedendo espaço ao Deportivo Cuenca nas zonas de construção mas fechando os canais centrais com eficiência. A entrada de Nahuel Barrios no lugar de Matías Reali, simultânea à de Rattalino, reforçou a ideia de que o técnico italiano apostou em energia física e disciplina posicional para segurar o resultado — e a aposta funcionou.

O herói da partida Cremonese segura o 0 a 0 em Cuenca e man
O herói da partida Cremonese segura o 0 a 0 em Cuenca e man

O Deportivo Cuenca, por sua vez, não conseguiu converter a pressão em chances claras de gol. A equipe equatoriana carece de um finalizador com poder de desequilíbrio individual, e as jogadas de cruzamento pela direita — seu padrão mais recorrente na noite — foram sistematicamente lidas pela zaga visitante. O 0 a 0 foi justo para um jogo em que nenhum dos dois times criou situações reais de perigo.

E agora, o que esperar

Na quarta rodada da fase de grupos da Copa Sudamericana 2026, o empate tem peso diferente para cada lado. Para o Cremonese, que acumula pontos em sua estreia na competição sul-americana, o resultado mantém a equipe na briga por classificação e preserva o capital financeiro atrelado ao avanço de fase — contratos de patrocínio com cláusulas de performance ativadas a partir das oitavas de final. Para o Deportivo Cuenca, jogar em casa e não vencer é um passo atrás numa campanha que já não tem margem para tropeços.

O Cremonese volta a campo pela Sudamericana na quinta rodada, quando terá a chance de jogar diante de sua torcida na Itália — fator que elimina a desvantagem da altitude e equaliza as condições físicas. A classificação do grupo será definida nas rodadas finais, e o empate desta madrugada pode ser o ponto de virada que os italianos precisavam para acreditar na campanha.

O que ele fez em campo Cremonese segura o 0 a 0 em Cuenca e man
O que ele fez em campo Cremonese segura o 0 a 0 em Cuenca e man

Rattalino saiu do gramado do Serrano Aguilar sem comemoração, ajustando as chuteiras enquanto o árbitro apitava o fim. O placar, zerado, dizia tudo que precisava ser dito.