Se a Under Armour soubesse, em novembro de 2025, que a ruptura com Stephen Curry abriria espaço para um contrato de dez anos com a Li-Ning, provavelmente teria tentado renegociar com mais agressividade. Não tentou — ou não conseguiu. O resultado é que a fabricante chinesa acaba de capturar um dos maiores ativos de marketing do basquete mundial no exato momento em que ele estava disponível no mercado.
O acordo, anunciado nas últimas semanas, cobre uma década inteira de colaboração entre Curry e a Li-Ning, com foco na expansão internacional da Curry Brand — a marca própria do armador do Golden State Warriors. O projeto inclui linhas de calçados de basquete, vestuário casual, produtos de lifestyle e, de forma bastante reveladora, uma linha voltada ao golfe. Os valores financeiros não foram divulgados, mas contratos de longa duração nesse nível raramente ficam abaixo de US$ 20 milhões anuais em patrocínios top-tier da NBA.
Por que a Li-Ning venceu a disputa por Curry
Segundo informações da ESPN, Curry recebeu propostas de múltiplas empresas durante os meses que se seguiram ao encerramento do vínculo com a Under Armour. A escolha pela Li-Ning não foi por falta de opções — foi por projeto. A fabricante chinesa apresentou um modelo de parceria que vai além do simples licenciamento de nome: Curry terá autonomia para participar do recrutamento e desenvolvimento de novos atletas patrocinados pela Curry Brand, incluindo esportistas das categorias masculina e feminina em diferentes modalidades.
Esse detalhe importa muito quando você olha para os dados do mercado. A Li-Ning ocupa hoje uma posição peculiar no setor de calçados esportivos: é a segunda maior marca esportiva da China por receita, com faturamento superior a US$ 3,5 bilhões em 2024, mas ainda representa menos de 2% do mercado global de calçados esportivos — um espaço dominado por Nike (~37%) e Adidas (~22%). Curry funciona, nesse contexto, como um ativo de internacionalização acelerada. Pense nele como um growth multiplier de marca: não é só o jogador que vende o tênis, é o ecossistema de credibilidade que o jogador carrega consigo.
"A Li-Ning apresentou um projeto de longo prazo para a marca que fez mais sentido do que qualquer outra proposta", segundo relatos da ESPN sobre a decisão de Curry.
Quem sai perdendo com a saída da Under Armour
A Under Armour construiu boa parte de sua relevância no basquete justamente sobre os ombros de Curry. Entre 2015 e 2022 — período que coincide com os quatro títulos do Warriors e o auge do fenômeno do arremesso de três pontos na NBA — as vendas de calçados de basquete da UA cresceram mais de 350%, segundo dados da NPD Group. O Curry 4, lançado em 2017, foi o modelo mais vendido da marca em calçados esportivos naquele ano. Perder esse vínculo em novembro de 2025 não foi só uma derrota simbólica: foi a ruptura de um pipeline de receita que a empresa ainda não substituiu com outro atleta de alcance equivalente.
Para dimensionar o tamanho do buraco: a Under Armour registrou queda de 10,8% na receita global no terceiro trimestre de 2025 em relação ao mesmo período de 2024, com o segmento de calçados sendo o mais afetado. Não dá para atribuir tudo ao fim do contrato com Curry — a empresa enfrenta desafios estruturais mais amplos —, mas a correlação temporal é difícil de ignorar.
A Curry Brand como negócio independente, não como linha de produto
Aqui está o ponto que diferencia esse acordo de um patrocínio convencional — e que transforma a análise de negócios. A Curry Brand não é uma sublinha da Li-Ning, como o Jordan Brand é uma sublinha da Nike. A estrutura do contrato mantém a Curry Brand como entidade própria, com a Li-Ning funcionando como parceira de fabricação, distribuição e expansão de varejo. A abertura de lojas físicas nos Estados Unidos e na China está prevista no acordo, o que significa que Curry está construindo, na prática, uma rede de pontos de venda sob seu próprio nome.
Esse modelo tem precedentes interessantes — e instrutivos. Considere algumas métricas que ajudam a entender a aposta:

- Market share de atleta-marca: o Jordan Brand representa ~10,5% do mercado global de tênis esportivos e gerou US$ 6,6 bilhões em receita para a Nike em 2024. É o benchmark máximo do setor.
- Penetração no mercado chinês: a Li-Ning tem mais de 7.000 pontos de venda na China — uma infraestrutura de distribuição que nenhuma marca americana consegue replicar organicamente no curto prazo.
- Valor de patrocínio por arremesso de três pontos: Curry lidera a NBA em arremessos de três pontos convertidos na carreira, com mais de 3.700 — um número que funciona como métrica de visibilidade de marca em cada transmissão. Cada arremesso convertido é um close-up do tênis.
- Golfe como vetor de lifestyle: o mercado de calçados de golfe movimentou US$ 1,1 bilhão globalmente em 2024, com crescimento de 8,3% ao ano. A entrada da Curry Brand nesse segmento não é capricho — é diversificação calculada.
"A parceria representa um novo passo na trajetória empresarial de Curry, que passa a ter maior participação na construção e no crescimento de sua própria marca", conforme descrito no comunicado oficial do acordo.
O efeito cascata no mercado e o que muda para os Warriors
Acordos de dez anos no mercado de patrocínio esportivo são raros porque o risco de ambos os lados é alto. A Li-Ning está apostando que Curry manterá relevância cultural e esportiva até 2035 — quando ele terá 47 anos. É uma aposta na longevidade da marca, não apenas na carreira do atleta. E aqui está a hipérbole que seria injusto chamar de visão de longo prazo — mas é uma visão de longo prazo em escala de décadas.
Para a NBA como liga, o movimento tem implicações geopolíticas e comerciais. A liga vem expandindo sua presença na China desde os anos 1990, mas a relação ficou tensa após declarações políticas em 2019. Um contrato de alto perfil entre um dos rostos mais reconhecíveis da liga e uma das maiores marcas esportivas chinesas funciona como um sinal de reaproximação — não diplomático, mas comercial. A temporada NBA 2025-2026 já registra crescimento de audiência na China de aproximadamente 18% em relação ao ciclo anterior, segundo dados da própria liga.
Dentro de quadra, Curry segue em atividade pelo Golden State Warriors. A franquia, que não avançou além do primeiro turno dos playoffs na temporada 2025-2026, tem na longevidade e no marketing do armador um de seus principais ativos comerciais — independente dos resultados esportivos. A Curry Brand com distribuição global pela Li-Ning, lojas físicas planejadas para abrir nos próximos 18 meses nos EUA e na China, e uma linha de golfe em desenvolvimento transforma o número 30 dos Warriors em um ecossistema de negócios que vai durar muito além do último arremesso de três pontos que ele converter em quadra. É o mesmo cenário que Michael Jordan viveu em 1997, quando a Nike percebeu que o Jordan Brand poderia sobreviver à aposentadoria do atleta — só que agora a aposta está sendo feita com uma parceira asiática e uma estrutura de marca ainda mais autônoma.










