Não foi o sonho de infância nem uma bolsa de atleta que levou Jeisla Chaves ao octógono do UFC. Foi um convite banal de um amigo de escola — segurar placards num evento de Muay Thai interior da Bahia — que reescreveu o destino de uma professora de geografia formada, com carteira assinada e plano de carreira traçado. Neste sábado, a lutadora de 29 anos, nascida em Poções, cidade de pouco mais de 50 mil habitantes no sudoeste baiano, estreia no UFC Vegas 118 contra a cubana Yuneisy Duben na divisão dos moscas (57 kg).
A ring girl que o treinador transformou em campeã amadora
Chaves cresceu sem qualquer ligação com artes marciais. Formou-se em geografia, arrumou emprego numa fábrica de calçados e seguiu a rotina de segunda a sexta. Quando o amigo ligou perguntando se ela topava trabalhar como ring girl num evento organizado pelo treinador dele, Jeisla disse sim sem hesitar — era uma renda extra, nada mais. O que ela não calculou foi o que aconteceria depois do primeiro evento.
Com menos de um mês de treino de Muay Thai, o treinador — o mesmo que comandava o evento onde ela segurava as placas — fez uma aposta incomum. Ela conta a sequência com precisão:
"Achei que ele estava me convidando de volta como ring girl. Disse: 'Ótimo, vou estar lá com você de novo, fico feliz que gostou do meu trabalho.' Ele respondeu: 'Não. Você vai estar lá como minha lutadora.'"
Em menos de um ano, Chaves subiu ao ringue amador no mesmo evento onde segurava cartões. Venceu. Tornou-se campeã. E nunca mais voltou para o outro lado das cordas como funcionária.
Jeisla Chaves abriu mão de promoção, salário e até da própria mãe para lutar
A transição para o MMA profissional não veio sem custo. Chaves largou o emprego na fábrica de calçados numa época em que havia sido sondada para uma promoção — que exigiria mudança de cidade e o fim dos treinos. Recusou. Pouco depois, recebeu uma oferta para lecionar geografia numa escola local. Recusou de novo. Nenhuma das duas recusas foi contada para a mãe.
"Comecei a treinar profissionalmente e abri mão de muita coisa. Larguei o emprego e tive conflitos com a minha família. Não é que minha mãe fosse contra, mas ela também não apoiava — porque me via chegando em casa machucada e eu era a única mulher treinando na academia."
A transição formal para o MMA aconteceu em 2023, quando Chaves adicionou o jiu-jitsu ao arsenal que já incluía o Muay Thai. Em setembro de 2025, após uma sequência de resultados que chamou atenção dos olheiros da empresa, ela assinou contrato com o UFC — a organização que, naquele mesmo período, anunciava um dos cards mais grandiosos de sua história para ser disputado no gramado da Casa Branca.
O UFC Vegas 118 e o contexto de uma semana histórica para a empresa
A estreia de Chaves acontece numa semana em que o UFC domina a conversa global. Em 14 de junho, a organização promove o UFC Casa Branca, evento disputado no gramado da residência oficial do presidente dos EUA, Donald Trump — que chegou a comparar a arena montada para o show com a Torre Eiffel em publicação no TikTok, cogitando deixar a estrutura de forma permanente. O card principal do evento reúne Ilia Topuria e Justin Gaethje pelo título unificado dos leves (70 kg), além de Alex Poatan desafiando Ciryl Gane pelo cinturão interino dos pesados. O custo estimado apenas para a reforma do gramado após o evento é de 700 mil dólares, segundo revelado por Dana White.
Num clima de euforia institucional como esse, o UFC Vegas 118 funciona como palco de apresentação de novos nomes. E Chaves chega com uma narrativa que dispensa adornos: em matéria do SportNavo, a trajetória dela foi descrita com exatidão — uma mulher que conheceu o esporte pelo avesso e escolheu o caminho mais difícil quando todos os outros estavam abertos.
Sua adversária na estreia, Yuneisy Duben, é cubana radicada nos Estados Unidos e representa um teste técnico real para a baiana. O confronto está marcado para a divisão dos moscas feminino, categoria em que o ranking do UFC é dominado por nomes como Alexa Grasso e Valentina Shevchenko — duas ex-campeãs que ainda disputam posições no topo. Uma vitória convincente de Chaves pode posicioná-la entre as 15 primeiras do ranking da divisão.
A história de Jeisla Chaves é a de alguém que conheceu o esporte pelo avesso — pelos bastidores, pelas luzes no ringue, pelo papel de coadjuvante — e decidiu ocupar o centro. Ela estreia no UFC Vegas 118 neste sábado com cartel construído no interior da Bahia, tendo recusado promoção de emprego e salário de professora para chegar até aqui — o octógono está confirmado, a plateia está à espera.









