Dois a zero. O placar no Estádio Hernando Siles, a mais de 3.600 metros de altitude em La Paz, resumiu uma noite que o Fluminense preferiria esquecer. A derrota para o Bolívar, na quinta-feira (30), empurrou o Tricolor para a lanterna do Grupo C da Copa Libertadores — um ponto em três rodadas, 11% de aproveitamento, imprensa europeia chamando a situação de "abismo". E enquanto o time tropeçava nas alturas bolivianas, as planilhas financeiras nas Laranjeiras contavam uma história igualmente dura: passivo total de R$ 1,042 bilhão, segundo o balanço de 2025 divulgado pelo clube.

Uma dívida construída em décadas

O número impressiona, mas o próprio relatório financeiro do Fluminense pede contexto. A dívida cresceu de R$ 864 milhões em 2019 para R$ 1,043 bilhão em 2025 — um avanço que, segundo o clube, está parcialmente atrelado à correção pela taxa Selic sobre o passivo tributário e à incorporação de valores que não constavam nos balanços de gestões anteriores. A maior fatia do endividamento está em tributos parcelados: R$ 469,9 milhões. Somam-se a isso R$ 244,1 milhões em compromissos com jogadores, R$ 91,3 milhões em acordos judiciais e R$ 58 milhões em obrigações trabalhistas. Uma estrutura de dívida que é histórica, não conjuntural.

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O clube não ficou parado diante desse quadro. O Regime Centralizado de Execuções (RCE), implantado em 2022, suspende bloqueios judiciais e traz previsibilidade aos pagamentos. Um acordo com a Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional garantiu desconto de aproximadamente R$ 90 milhões no passivo tributário e alongamento de prazos. Leilões no Tribunal Regional do Trabalho reduziram cerca de 30% das dívidas trabalhistas, com aportes superiores a R$ 10 milhões. Sem esses pagamentos realizados desde 2019 — mais de R$ 500 milhões no total —, o passivo poderia ter chegado a R$ 1,49 bilhão, conforme aponta o próprio documento.

Investir para crescer, mesmo endividado

A análise do SportNavo mostra uma contradição que, no futebol moderno, é quase inevitável: o Fluminense aumentou seus gastos com elenco mesmo diante do passivo bilionário. Ao longo de 2025, o clube investiu aproximadamente € 59 milhões — cerca de R$ 320 milhões na cotação média do período — na aquisição e manutenção de jogadores. O argumento da diretoria é financeiramente racional: atletas são ativos esportivos com potencial de valorização e geração de receita futura. Quando se retira o investimento em jogadores da conta, o passivo cai para cerca de R$ 812 milhões — um número ainda alto, mas que mostra que parte relevante do endividamento é, na lógica do clube, um investimento.

O problema é que esse investimento precisa de retorno dentro de campo. E a Libertadores, neste momento, não está dando sinais animadores.

A altitude expôs mais do que o fisco

Em La Paz, o Fluminense falhou taticamente antes de falhar financeiramente. O lateral-esquerdo Renê foi honesto no vestiário após o apito final:

"A gente tinha traçado uma estratégia e não cumprimos. No intervalo tentamos acertar e buscamos ficar mais com a bola, não tentar correr tanto com eles, que eles têm vantagem por causa da altitude. E aí começamos até ficando um pouco mais com a bola no segundo tempo, mas aí veio a expulsão", admitiu o jogador.

A expulsão de Bernal — que aplaudiu o árbitro por não ter expulsado um companheiro — selou o destino da partida. Robson marcou os dois gols bolivianos, o segundo com uma arrancada e cabeçada precisas, para fechar o placar. O jornal espanhol Diario AS repercutiu a situação com uma palavra: "abismo". O veículo lembrou que o Grupo C era visto como acessível antes do torneio começar.

O técnico Luis Zubeldía, no entanto, manteve o tom de quem não se deixa abalar pela tabela:

"Primeiro, era um grupo acessível para quem não conhece futebol. Segundo, fique tranquilo que vamos classificar. Não se preocupe com a tabela, vamos classificar. Tranquilo. O Fluminense vai se classificar. Isso é uma questão de sentir e vamos classificar. Temos time para classificar", garantiu o treinador.

Zubeldía ainda citou o desempenho do time no Brasileirão 2026 — terceiro colocado até o momento — como termômetro da qualidade do elenco. A fé no grupo é real. A matemática, porém, é implacável.

A conta que precisa fechar em campo

Para avançar às oitavas de final, o Fluminense precisa de sete pontos nos três jogos restantes — aproveitamento de 77%. Historicamente, times que se classificam na Libertadores terminam a fase de grupos com entre 50% e 60% de aproveitamento, o que representa entre oito e dez pontos. Duas vitórias em casa, contra Bolívar e La Guaira no Maracanã, não bastam mais. O Tricolor precisa pontuar fora de casa também, e o próximo desafio já está marcado: quarta-feira (6), às 21h30 de Brasília, contra o Independiente Rivadavia — líder do grupo com 100% de aproveitamento — no estádio Malvinas Argentinas, em Mendoza. Uma derrota ali fecha praticamente todas as portas continentais. Uma vitória, por outro lado, reabre o grupo — e talvez ajude a justificar cada centavo dos R$ 320 milhões investidos no elenco.