Uma dívida de mais de R$ 13 milhões originada na compra do meia Maicosuel, negociação realizada em maio de 2014 com a Udinese por 3,315 milhões de euros, ameaça comprometer o Atlético-MG no Campeonato Brasileiro ainda antes de a bola rolar. O Tribunal Arbitral do Esporte (TAS) negou o recurso do Galo em última instância, e o Comitê Disciplinar da Fifa está autorizado a aplicar a perda de seis pontos ao clube caso a quitação não seja efetuada. Da quantia exigida, o próprio presidente Sérgio Sette Câmara confirmou ter apenas R$ 9 milhões reservados.

Uma herança que virou bomba-relógio

O negócio com a Udinese foi fechado durante a gestão de Alexandre Kalil. O clube pagou pouco mais de 1,5 milhão de euros dos 3,315 milhões acordados — menos da metade do valor. Nos anos seguintes, as parcelas em aberto foram acumulando juros e gerando processos no sistema disciplinar da Fifa. Sette Câmara, que assumiu o clube depois, não escondeu o incômodo com a situação.

"Já fiz tantos pagamentos no passado, e agora mais esse, fruto de irresponsabilidade de gestão anterior que caiu no nosso colo. Não tem mais lugar para irresponsabilidade de sair comprando jogador e achar que não vai dar em nada. Não é só ficar levantando caneco e deixar a herança maldita para os outros presidentes. A conta chegou. E caiu no meu colo", disse o presidente atleticano.

A declaração revela o grau de tensão interna no clube. O advogado Breno Tannuri, que representa o Atlético junto à Fifa, informou que, caso o pagamento não seja feito dentro do prazo, abre-se novo processo — com prazo indeterminado de encerramento, o que pode dar ao clube algum fôlego temporal, mas não elimina o risco de penalidade esportiva imediata.

Seis pontos a menos antes mesmo de começar

Perder seis pontos no início de um Brasileirão equivale a iniciar o torneio com o placar de duas derrotas já registradas — sem jogar uma partida sequer. Em um campeonato de 38 rodadas onde a diferença entre o campeão e o rebaixado historicamente gira em torno de 25 a 30 pontos, começar no negativo cria um buraco estrutural difícil de recuperar. Na edição de 2024 do Brasileirão, o Atlético terminou com 65 pontos. Seis a menos significariam 59 — placar que, em qualquer das últimas cinco edições do torneio, deixaria o clube fora do G-4.

Segundo análise do SportNavo, o impacto vai além da tabela: uma punição dessa natureza afeta a moral do elenco, o apetite de patrocinadores e a capacidade de retenção de atletas em um mercado cada vez mais sensível à estabilidade financeira dos clubes. O Atlético já convive com outro processo no radar — o CAS também negou recurso sobre dívida de 500 mil euros com o Nottingham Forest pela compra de Gustavo Scarpa, acrescida de juros de 5% e custas processuais de 25 mil dólares, totalizando cerca de R$ 13 milhões adicionais.

Dupla crise financeira e o ex-diretor no banco dos réus

As dívidas externas convivem com turbulências internas. O Ministério Público de Minas Gerais apresentou alegações finais contra Carlos Fabel, ex-diretor estatutário de Finanças e Orçamentos do clube entre 2013 e 2019, acusado de apropriação indébita qualificada. Segundo a auditoria da empresa Kroll citada pelo MPMG, a Consultoria Pontual — empresa da qual Fabel era sócio — recebeu cerca de R$ 6,2 milhões do Atlético, dos quais aproximadamente R$ 3,1 milhões teriam sido pagos sem previsão contratual. O processo tramita na 12ª Vara Criminal de Belo Horizonte.

Uma herança que virou bomba-relógio Dívida de R$ 13 mi pode custar seis pont
Uma herança que virou bomba-relógio Dívida de R$ 13 mi pode custar seis pont

O acúmulo de pendências — dívidas com clubes estrangeiros, processo criminal contra ex-gestor e caixa insuficiente para honrar compromissos imediatos — expõe um modelo de gestão que o futebol brasileiro insiste em repetir: contratar acima das possibilidades, parcelar sem garantias reais e repassar o passivo para administrações futuras. A conta, desta vez, tem prazo e nome: Udinese, R$ 13 milhões, e o Brasileirão na mira.

"Estou aqui hoje, um sábado, quase cinco horas da tarde, e eu não tenho perspectiva de fazer o pagamento na segunda-feira. Se eu não fizer, o Atlético vai tomar três pontos na cabeça — na verdade, são seis", admitiu Sette Câmara ao blog do Perrone, do UOL Esporte.

O que o Atlético precisa fazer agora

Com R$ 9 milhões reservados de um total superior a R$ 13 milhões exigidos, o clube precisa encontrar pelo menos R$ 4 milhões adicionais em curtíssimo prazo para evitar a punição. As opções passam por negociação direta com a Udinese para parcelamento do saldo restante, antecipação de receitas de patrocínio ou venda de ativos do elenco. A levantamento do SportNavo mostra que o Galo tem jogadores com valor de mercado estimado acima de 10 milhões de euros na plataforma Transfermarkt — o que torna a solução financeiramente viável, mas politicamente delicada em meio à montagem do grupo para a temporada.

A partida inaugural do Atlético no Brasileirão será contra o Flamengo, atual campeão, fora de casa — um confronto que já exigiria o clube em condições plenas. Entrar nessa disputa com seis pontos negativos na conta transformaria um jogo difícil em uma corrida desesperada desde o primeiro apito.