Se a Liga das Nações começasse neste fim de semana, Bernardinho teria em mãos um grupo de 24 atletas, mas sem um dos ponteiros mais letais que o vôlei brasileiro produziu na última década. A quarta convocação do técnico em 2026, divulgada pela CBV nesta quinta-feira (14 de maio), muda esse cenário: Douglas Souza está de volta à Seleção Masculina após quatro anos de ausência, e o retorno não é simbólico — é tático.
Uma convocação que redesenha o mapa do elenco para a VNL
Sete nomes foram adicionados ao grupo nesta data, elevando o plantel para 20 convocados em definitivo mais quatro convidados para os treinos no Centro de Desenvolvimento de Voleibol, em Saquarema (RJ), onde todos se apresentam no domingo (17). Do Sada Cruzeiro, bicampeão da Superliga no último domingo (10), vieram três atletas: o próprio Douglas, o oposto Oppenkoski — que recebe sua primeira oportunidade nesse nível — e o levantador Matheus Brasília. Do Vôlei Renata Campinas, finalista derrotado no mesmo confronto, chegam o ponteiro Adriano e os centrais Judson e Matheus Pinta. Fecha a lista o central Flávio, capitão da Seleção na temporada passada e atleta do Trentino, na Liga Italiana.
O Brasil estreia na VNL em casa, em Brasília, entre os dias 10 e 14 de junho. A competição segue com etapas em Liubliana (Eslovênia), de 24 a 28 de junho, e em Chicago (EUA), de 15 a 19 de julho, antes da fase final em Ningbo, na China, de 29 de julho a 2 de agosto. O calendário é denso, e a lógica da convocação em ondas sugere que Bernardinho está testando combinações táticas antes de consolidar um grupo definitivo.
Quatro anos longe, dois títulos nacionais e 31 anos de maturidade
A última vez que Douglas Souza vestiu a camisa verde e amarela em competição oficial foi nas Olimpíadas de Tóquio 2020 — realizadas em 2021. Naquele momento, o ponteiro anunciou o afastamento motivado pelo desgaste da rotina de alto rendimento e pela necessidade de priorizar a saúde mental, decisão que abriu um debate amplo sobre bem-estar no esporte de elite. O retorno agora, aos 31 anos, chega em outro contexto emocional e, sobretudo, em outro patamar técnico.
Nas duas últimas temporadas pelo Sada Cruzeiro, Douglas acumulou dois títulos consecutivos da Superliga — o décimo e o décimo primeiro do clube mineiro. Na final de 10 de maio, o Cruzeiro despachou o Campinas por 3 sets a 0, com parciais de 25/14, 27/25 e 25/21. Para quem acompanha os fundamentos, a leitura dos dados de set é reveladora: Douglas opera com alta eficiência no ataque de primeira tempo e no pipe, duas ações que exigem leitura antecipatória do bloqueio adversário — exatamente o repertório que diferencia um ponteiro de clube de um ponteiro capaz de resolver situações críticas em nível internacional.
O que Douglas agrega além do ponto na ponta
Tecnicamente, a principal contribuição de um ponteiro experiente em um sistema ofensivo moderno não está apenas no volume de ataques, mas na capacidade de criar zona de conflito para o bloqueio adversário. Douglas tem histórico consolidado de explorar o espaço entre o bloqueio duplo e o líbero, especialmente em bolas de segundo tempo levantadas com variação de tempo. Nas estatísticas de set da Superliga desta temporada, o Sada Cruzeiro registrou médias acima de 60% de eficiência ofensiva nas duas partidas da final — um indicador que reflete o entrosamento do ponteiro com os levantadores do clube.
A diferença de experiência internacional entre Douglas e os ponteiros mais jovens do atual elenco da Seleção pode ser medida de forma concreta: ele tem uma medalha de ouro olímpica (Rio 2016) e passagens por mundiais e Ligas das Nações com intensidade de saque viagem e receção sob pressão que simplesmente não se replica em Superliga. A distância entre o nível de exigência de uma final nacional e uma fase de grupos da VNL contra França, Polônia ou Itália é algo próximo à diferença entre Recife e Porto Alegre em linha reta — quase 3.700 quilômetros de espaço que só quilometragem internacional preenche.
Nas palavras do próprio técnico, segundo a CBV, Bernardinho destacou que o retorno de Douglas representa a combinação entre qualidade técnica comprovada e um momento pessoal que permitiu ao atleta aceitar o chamado sem reservas. A decisão do ponteiro de retornar sugere que o processo de recuperação emocional foi completo e que a motivação competitiva voltou em alta intensidade.
Oppenkoski, Judson e a renovação que não abre mão da experiência
A convocação de Oppenkoski, oposto do Cruzeiro que marcou 18 pontos na final da Superliga, representa a aposta de Bernardinho em um atleta de 22 anos com potência de saque e capacidade de aces em série — fundamento que, combinado ao retorno de Douglas, equilibra renovação e experiência no mesmo grupo. Judson, central do Campinas que emocionou o ginásio do Ibirapuera na despedida pelo clube, chega à Seleção em um momento de transição de carreira e com bloqueio avaliado em 66 pontos acumulados na temporada regular da Superliga.
O grupo de 24 atletas à disposição de Bernardinho para os treinos de Saquarema a partir de domingo é o maior e mais variado desta fase de preparação. Com a VNL em Brasília começando em 27 dias, o técnico tem tempo suficiente para testar ao menos duas combinações táticas distintas antes de fechar o elenco definitivo para a primeira semana da competição.
Douglas Souza se apresenta no CDV no domingo (17) e deve ter seus primeiros treinos com a Seleção ainda na semana que vem. Considerando que Bernardinho costuma escalar titulares já na abertura da VNL, a pergunta que fica para os próximos dias é: em qual rotação de ponteiros o técnico vai posicionar Douglas — como titular absoluto contra as seleções europeias em Brasília ou como carta na manga para os sets decisivos?










