Não, Eduardo Baptista não é o treinador mais falado do Brasileirão Série A de 2026. A pergunta mais honesta não é quem ele representa nos holofotes — é o que ele revela quando a pressão bate à porta do Criciúma e o vestiário precisa de resposta antes do apito.

A decisão que dividiu opiniões

Treinadores de clubes com orçamento médio no Brasileirão vivem sob uma lógica cruel: qualquer escolha diferente do convencional vira alvo imediato. Baptista, nascido em 30 de março de 1972, tem 54 anos e carrega a marca de quem já enfrentou esse julgamento antes — e insiste em não recuar diante dele.

¡Todos los goles de tiro libre de la CONMEBOL Libertadores 2026!

A decisão que mais polarizou nos últimos meses foi de natureza tática e de gestão simultânea: a opção por um bloco defensivo mais compacto em detrimento de um futebol de posse associativo, que parte da torcida catarinense esperava ver. Quem critica diz que o time joga feio. Quem analisa os números percebe que o Criciúma, com esse modelo, reduz a exposição defensiva em jogos fora de casa — exatamente onde clubes de menor investimento sangram pontos.

O argumento do "futebol bonito" é legítimo do ponto de vista do torcedor. Mas ele ignora uma variável central: o Criciúma não tem o elenco para sustentar pressão alta durante 90 minutos contra os grandes do campeonato. Baptista sabe disso, e age de acordo.

O contexto que levou à decisão

A Série A de 2026 chegou ao Criciúma com um desafio estrutural claro. O clube catarinense opera com limitações orçamentárias reais num campeonato que concentra cada vez mais investimento nos grandes centros. Nesse cenário, a filosofia de Baptista não é estética — é sobrevivência planejada.

Treinadores que tentam impor um futebol de alto risco com elencos de médio porte no Brasileirão costumam pagar um preço alto: quedas de rendimento nas sequências de jogos, lesões por sobrecarga e instabilidade emocional no grupo. Baptista escolheu o caminho oposto — organização tática rigorosa, hierarquia clara no vestiário e previsibilidade de sistema.

Esse modelo tem raízes na trajetória do treinador, que construiu sua visão de jogo entendendo que consistência defensiva é o ativo mais valioso para clubes que precisam primeiro garantir a permanência antes de pensar em qualquer voo mais alto. A decisão pelo bloco baixo não foi improvisação — foi diagnóstico.

Como o time reagiu na partida seguinte

A resposta do elenco às escolhas de Baptista é o dado mais revelador sobre sua gestão de vestiário. Quando um treinador perde a confiança do grupo, os sinais aparecem em campo antes de aparecerem na imprensa: bolas perdidas sem reação, disputas sem intensidade, posicionamento frouxo nos momentos decisivos.

No Criciúma de 2026, conforme registrado pelo SportNavo em cobertura da temporada, o comportamento coletivo do time nas partidas seguintes às decisões mais contestadas mostrou um grupo que compra o discurso do treinador — mesmo quando o resultado não vem. Isso não é detalhe menor: é indicador de autoridade real, não de autoridade de cargo.

A gestão de Baptista passa por uma comunicação direta com o elenco sobre papel e expectativa de cada jogador. Não há promessa de protagonismo para quem não está rendendo — e não há silêncio quando o rendimento cai. Esse tipo de clareza é raro e, quando funciona, cria coesão que compensa limitações técnicas individuais.

Eduardo Baptista (Criciúma)
Eduardo Baptista (Criciúma)

Como ele defende a decisão hoje

Baptista não recua publicamente de suas escolhas por pressão de curto prazo — e isso, num ambiente onde treinadores mudam de discurso a cada derrota, é uma posição que exige sustentação. A defesa do modelo compacto passa por um argumento simples e verificável: clubes que tentam jogar acima de suas possibilidades estruturais no Brasileirão são os primeiros a despencar na tabela quando a sequência de jogos aperta.

Eduardo Baptista (Criciúma)
Eduardo Baptista (Criciúma)

O contra-argumento mais comum é que o futebol defensivo não gera pontos suficientes para escapar do rebaixamento. A resposta factual está no histórico do campeonato: equipes que mantêm organização defensiva sólida e aproveitamento razoável fora de casa têm consistentemente mais chances de permanência do que equipes que apostam em ataque e sofrem em sequências adversas.

Baptista defende suas escolhas com a linguagem de quem entende que o Brasileirão é uma maratona de 38 rodadas, não uma série de sprints. Cada decisão de banco — substituição conservadora, posicionamento mais recuado, rotação de elenco — carrega essa lógica de longo prazo embutida.

O que esperar das próximas semanas é simples de projetar: Baptista não vai mudar o modelo por pressão estética. Se o Criciúma mantiver a organização defensiva e converter as oportunidades que o sistema gera, o treinador terá argumento sólido para seguir. Se os resultados caírem, a pressão vai crescer — mas a resposta dele provavelmente vai ser ajuste de execução, não de filosofia.

Fim de tarde no estádio Heriberto Hülse. Baptista caminha para o vestiário sem olhar para as arquibancadas — os olhos já estão no próximo adversário.