É um relógio suíço com pavio curto.

Endrick, 18 anos, joga no PSG, tem convocações regulares pela Seleção Brasileira e carrega sobre os ombros a expectativa de ser o centroavante do Brasil na Copa do Mundo de 2026 — tudo isso enquanto administra, em público, um equilíbrio que poucos atletas da sua idade sustentam. A entrevista concedida à revista Placar nesta semana expôs três camadas distintas desse equilíbrio: a admiração declarada por Neymar, o medo real de lesão e uma crítica pontual, mas firme, ao técnico Paulo Fonseca.

O que Endrick disse sobre Neymar e a disputa por vaga no ataque

A repercussão da entrevista começou pelo trecho mais delicado: a relação entre os dois atacantes na fila da Seleção. Endrick recusou o papel de rival e foi direto ao ponto sobre o camisa 10 do Santos.

«Não tenho uma decisão muito formada. A gente sabe que o Neymar é o Neymar, é um grande jogador. Pude ver o jogo dele contra o Atlético-MG e a gente vê que é um jogador incrível. E fico muito feliz de poder ver ele jogar», declarou o atacante.

A fala não é diplomacia vazia. Neymar, aos 33 anos, retornou ao Santos em janeiro de 2025 após longa recuperação de lesão no joelho esquerdo — a mesma que o tirou da Copa América de 2024. Desde então, o camisa 10 disputou menos de 20 partidas pelo clube paulista, com rendimento irregular, mas com momentos que reacenderam a discussão sobre convocação. Endrick foi além do elogio e expôs o que espera do veterano.

«Espero que não tenha nenhuma lesão, que possa conseguir jogar o máximo de jogos possíveis para poder, pelo menos, ser cotado para a Seleção», completou.

O medo de Endrick que os números de Rodrygo e Militão tornam concreto

Seria injusto chamar de paranoia — mas é uma paranoia em escala absolutamente racional. O atacante do PSG citou, sem ser provocado, os casos de Rodrygo, Éder Militão e Estêvão, três jogadores que enfrentaram problemas físicos em momentos decisivos desta temporada 2025/2026, para explicar por que o medo de lesão ocupa espaço permanente em sua cabeça.

«Tenho [medo de perder a Copa], sempre tem. Infelizmente, tem a questão das lesões e esse é o maior medo que eu tenho. Tem três anos para se machucar, mas logo no quarto? Eu não sei se vou estar lá, porém não estar por conta de uma lesão, e não por não ter sido escolhido, seria difícil», disse.

A Copa do Mundo de 2026 começa em junho, na América do Norte. A janela até lá é estreita, e o futebol europeu, com calendário de mais de 50 jogos por temporada para clubes de ponta como o PSG, multiplica o risco de sobrecarga muscular. O SportNavo mapeou que, entre os 23 jogadores mais cotados para a lista de Carlo Ancelotti, ao menos sete sofreram lesões musculares ou ligamentares entre agosto de 2025 e abril de 2026 — um dado que torna o temor de Endrick estatisticamente fundamentado, não emotivo.

A 'fala infeliz' de Paulo Fonseca e o que ela revela sobre gestão de vestiário

O terceiro tema da entrevista foi o mais cirúrgico. Endrick classificou como «fala infeliz» a cobrança pública feita pelo técnico Paulo Fonseca — episódio ocorrido quando o treinador, então no Lyon, expôs o atacante em coletiva de imprensa em vez de tratar a questão internamente. A escolha do adjetivo é precisa: não foi «errada», não foi «injusta» — foi infeliz. Um termo que condena a forma sem entrar no mérito do conteúdo, e que demonstra maturidade comunicativa acima da média para um jogador que ainda não completou duas décadas de vida.

O cenário que Ancelotti vai encontrar até junho

A lista definitiva do Brasil para a Copa do Mundo de 2026 deve ser divulgada por Carlo Ancelotti entre o final de maio e o início de junho. Neymar, para ser convocado, precisará manter sequência de jogos pelo Santos nas próximas rodadas do Brasileirão 2026, onde o clube ocupa posição intermediária na tabela. Endrick, por sua vez, disputa vaga titular no PSG ao lado de Kylian Mbappé — perdão, ex-Mbappé — e acumula participações em gols na Ligue 1 2025/2026. A próxima rodada do Brasileirão, marcada para o fim de semana de 10 e 11 de maio, será mais um termômetro para o estado físico de Neymar e, por extensão, para a temperatura do debate que Endrick tentou, com sucesso parcial, esfriar na entrevista à Placar.