— Cara, você viu o meme do Ancelotti virando asteroide pra extinguir os dinossauros do Endrick?
— Vi. Ri demais. Mas é sério, por que ele não escala o menino?
— Essa é a pergunta de 4 bilhões de pessoas.

A cena acima se repetiu em bares de Porto Alegre, São Paulo, Recife e Manaus nas últimas semanas. E, ao que tudo indica, também em Manhattan — porque o New York Times publicou nesta quarta-feira, 24 de junho, um artigo dedicado ao que já batizou de Endrickmania: o fenômeno viral gerado pela resistência do técnico Carlo Ancelotti em titular Endrick nos dois primeiros jogos do Brasil na Copa do Mundo de 2026. O atacante de 19 anos não saiu do banco contra Marrocos nem contra o Haiti, e a internet transformou essa decisão técnica na maior piada da Copa.

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Como um banco de reservas virou o maior palco da Copa

Os memes correram o mundo com uma criatividade que rivaliza com qualquer campanha de marketing esportivo. Num deles, Endrick comenta que gosta de dinossauros — e Ancelotti se transforma num asteroide que extingue todos os animais. Em outro, o jovem diz que aprecia pão de gergelim — e o técnico italiano vira um pombo que devora cada grão. A lógica absurdista é precisa: qualquer coisa que Endrick goste, Ancelotti elimina. O jornal americano registrou que não há evidências de que o treinador viu os memes, mas ele próprio admitiu em entrevistas ter percebido a pressão crescente para utilizá-lo.

O New York Times foi além do humor e reconheceu substância na cobrança.

"Existe fundamento em toda pressão para que Endrick jogue"
escreveu o jornal, lembrando o gol do atacante contra a Inglaterra em Wembley e sua participação decisiva no amistoso contra o México em 2024. O texto ainda classifica o jovem como o "namoradinho do Brasil" — resultado de talento real combinado a um trabalho de relações-públicas eficiente e a uma personalidade que o torcedor abraçou com uma velocidade raramente vista desde a explosão de Ronaldo Fenômeno em 1994, quando o então centroavante de 17 anos nem pisou em campo no Mundial dos Estados Unidos mas já mobilizava uma geração inteira.

Como um banco de reservas virou o maior palco da Copa Endrickmania virou meme gl
Como um banco de reservas virou o maior palco da Copa Endrickmania virou meme gl

A pressão que Ancelotti já sente nas costas

A situação do Brasil nesta Copa tem uma dimensão que vai além dos memes. A coluna da ESPN apontou que a Seleção — apesar de ter o melhor técnico do torneio em termos de currículo e jogadores globalmente famosos — recebe o tratamento de "mero participante" na cobertura internacional, especialmente quando comparada ao impacto de Messi, Mbappé e Haaland, que protagonizaram a chamada "rodada dos goleadores" e dominaram o noticiário mundial. Vinicius Júnior — o nome mais brilhante do Brasil em campo até agora — é percebido como alguém que fez "apenas sua obrigação", enquanto o país aguarda respostas que o time ainda não deu.

Nesse contexto, a Endrickmania funciona como válvula de escape coletiva — mas também como diagnóstico real. A provável escalação divulgada para o jogo desta quarta-feira contra a Escócia, no Hard Rock Stadium em Miami, às 19h (de Brasília), indica Rayan, Matheus Cunha e Vinícius Júnior no ataque, com Endrick novamente como opção de banco. A partida terá transmissão simultânea na Globo, no SBT e na CazéTV, o que garante alcance máximo para um jogo que o Brasil precisa vencer — ou ao menos não perder — para confirmar a classificação às oitavas de final.

Neymar volta e divide o holofote com o fenômeno de 19 anos

Enquanto Endrick virava meme global, Neymar — ausente da Seleção desde outubro de 2023 — treinou normalmente pelo terceiro dia consecutivo antes do confronto com os escoceses. Recuperado de lesão na panturrilha direita, o camisa 10 foi relacionado por Ancelotti, que declarou sem rodeios:

"Ele pode jogar 90 minutos, trabalhou muito bem e estou feliz com ele."
Se entrar em campo, Neymar igualará Pelé e Rivaldo como os jogadores que mais atuaram com a camisa 10 do Brasil em Copas — 14 partidas. Atualmente com 13, ele precisa de apenas um minuto para alcançar a marca. A última vez que o Brasil ficou três jogos seguidos de Copa sem acionar a camisa 10 foi em 1962, quando Pelé se machucou na segunda rodada contra a Tchecoslováquia.

A tensão entre o retorno de Neymar e a pressão por Endrick — dois símbolos de gerações diferentes — resume o dilema de Ancelotti nesta terceira rodada. O Brasil lidera o Grupo C com 4 pontos, empatado com Marrocos no saldo de gols (3 a 1 contra 1 a 1). A Escócia chega com 3 pontos e precisa vencer para garantir classificação direta; no mesmo horário, Marrocos enfrenta o Haiti em Atlanta. Simulações apontam 65% de probabilidade de vitória brasileira, com placar projetado de 3 a 1 — gols de Vinícius Júnior, Matheus Cunha e, talvez com uma ponta de ironia histórica, Neymar no segundo tempo.

O que os números dizem sobre Endrick além dos memes

A Endrickmania não é só entretenimento viral — ela reflete uma mudança estrutural no futebol de espetáculo. Endrick se tornou um dos atletas mais mencionados nas redes sociais durante esta Copa, segundo levantamentos da imprensa internacional, mesmo sem ter sido titular em nenhum jogo. Esse alcance — gerado pelo que ele ainda não fez — é um indicador poderoso de capital de marca. Para comparação: em 2014, Neymar precisou de quatro gols e uma lesão dramática para dominar o noticiário mundial daquela Copa. Endrick fez isso em 2026 sentado no banco, com 19 anos e dois memes sobre dinossauros.

O jogo Brasil x Escócia começa às 19h desta quarta-feira no Hard Rock Stadium, em Miami. Se Endrick entrar e marcar, os memes vão parar — e Ancelotti vai precisar explicar por que esperou tanto. Se ele ficar no banco mais uma vez, a Endrickmania vai durar até pelo menos as oitavas de final.