Confesso: eu errei sobre Cristiano Ronaldo antes desta Copa. Depois do apagão contra a República Democrática do Congo — zero finalizações perigosas, pouquíssimos toques na bola —, eu já estava montando o argumento de que o ciclo tinha acabado de vez. Guardei o argumento. Bem feito para mim.

Contra o Uzbequistão, CR7 finalizou sete vezes, marcou dois gols e se tornou o primeiro jogador da história do futebol a balançar as redes em seis Copas do Mundo diferentes. Não há tragédia: há contabilidade. E os números, desta vez, falam a favor do português.

O que os dados do jogo contra o Congo já avisavam

No primeiro jogo, Ronaldo estava funcionalmente isolado. Sem um segundo atacante que se movimentasse próximo a ele, Portugal dependia de combinações pelo lado do campo para criar espaço. O problema: quando o centroavante não recebe bola em zonas de finalização, o seu xG (expected goals, ou seja, a probabilidade estatística de converter as chances que chega) cai para perto de zero — não por falta de qualidade, mas por falta de oportunidade.

Bernardo Silva atuava como meia avançado, mas seu perfil é de jogador que busca profundidade pelos corredores. Ele não cria a sobreposição de atacantes que força a defesa a fazer uma escolha impossível: ou marca CR7, ou marca quem está ao lado dele. O resultado foi uma linha defensiva do Congo confortável, compacta e sem dilemas reais.

A decisão de Martínez que mudou tudo

Roberto Martínez tirou Bernardo Silva da equipe e promoveu João Félix como titular. A escolha não foi aleatória: Félix e Ronaldo jogaram juntos no Al Nassr nesta temporada e foram campeões da Arábia Saudita. No período, CR7 somou 30 gols e 5 assistências, enquanto Félix registrou 26 gols e 19 assistências — muitas delas para o compatriota.

A dinâmica que os dois constroem é específica e difícil de replicar com outro parceiro. Félix não é um extremo de profundidade: ele corta para o centro, ocupa espaços entre as linhas e atrai marcadores para dentro. Isso gera dois efeitos simultâneos que transformaram a estrutura ofensiva de Portugal:

  • Corredor esquerdo liberado para Nuno Mendes, lateral do PSG, que foi um dos melhores em campo e criou superioridade numérica constante na faixa.
  • Ronaldo recebendo em zonas de finalização, com espaço real para se movimentar e concluir, em vez de brigar contra a marcação no escuro.

Pedro Neto também mudou: no jogo anterior atuou pela esquerda, contra o Uzbequistão foi para a direita. A reorganização de posições criou um time com mais progressive passes chegando à área — passes que avançam pelo menos 10 metros em direção ao gol adversário ou que terminam dentro da área. Portugal, com Félix, passou a ter dois jogadores gerando essas linhas de progressão ao mesmo tempo.

O papel de Bruno Fernandes

Bruno Fernandes também cresceu com a mudança. No terceiro gol, ele entregou um passe extraordinário para CR7 concluir.

"Os passes bons são aqueles em que os colegas conseguem meter a bola dentro do gol. O Uzbequistão subiu um pouco a linha, mais do que o Congo, e isso nos abriu mais espaços", explicou o meia do Manchester United.
Quando a equipe adversária pressiona mais alto, o PPDA — passes permitidos por ação defensiva, métrica que mede a intensidade da pressão — cai, e o time com melhor construção técnica ganha mais espaço para circular. Portugal explorou exatamente isso.

O recorde e a narrativa que ele derruba

Marcar em seis Copas diferentes é um dado que resiste a qualquer contextualização negativa. Pelé não chegou lá. Messi, com toda a sua Copa de 2022, também não. A marca pertence agora exclusivamente a Ronaldo, que completou 41 anos e ainda figura entre os artilheiros do torneio.

A contra-leitura honesta, que aparece em análises publicadas em matérias como as do SportNavo ao longo desta Copa, é que Portugal joga melhor coletivamente quando CR7 não é o eixo central do ataque. Os números de posse, de xA (expected assists, probabilidade de que um passe gere gol) e de ações defensivas progressivas são mais distribuídos quando Félix ou Rafa Silva ocupam posições mais livres. Essa leitura tem base.

A síntese, porém, é mais interessante do que qualquer dos dois extremos: Martínez encontrou uma configuração em que Ronaldo e o coletivo funcionam ao mesmo tempo. Não é uma concessão ao mito. É uma solução tática que usa a química real entre Félix e CR7 — testada e comprovada na Arábia Saudita — para maximizar o que o centroavante ainda faz melhor: finalizar.

"Eu chego sempre. Mais cedo ou mais tarde, estou lá. Quando não ganhamos, somos sempre atacados, principalmente eu. Mas já estou acostumado, sigo o barco", disse Ronaldo após o jogo.

Bruno Fernandes resumiu o estado de espírito do grupo com uma frase direta:

"Ele é um esfomeado."
Difícil discordar depois de sete finalizações em 90 minutos.

Portugal enfrenta a Colômbia no sábado. Uma vitória garante a liderança do grupo; um empate beneficia os colombianos. Martínez tem agora uma equação clara: manter Félix ao lado de Ronaldo é a aposta que funcionou, e mexer nisso sem necessidade seria o único erro tático que ele ainda poderia cometer.