O ginásio estava em silêncio quando a bola tocou o chão pela última vez. Era Londres, agosto de 2012, e a líbero de cabelos curtos que mergulhou para salvar o último ataque adversário acabava de se tornar bicampeã olímpica. Fabi Alvim, então com 30 anos, encerrava ali o ciclo mais vitorioso de uma jogadora na posição em toda a história do vôlei feminino brasileiro. Quatorze anos depois, a International Volleyball Hall of Fame (IVHF) tornou oficial o que o esporte já sabia: ela pertence ao panteão dos imortais.
A IVHF divulgou nesta segunda-feira, 18 de maio, os nove integrantes da classe de 2026. Três deles são brasileiros — Fabi Alvim, Alison Cerutti e Ary Graça —, o que representa um terço dos eleitos numa seleção que partiu de 19 candidatos de 12 países diferentes, distribuídos em sete categorias. A cerimônia de consagração está marcada para os dias 16 e 17 de outubro, na sede da IVHF em Holyoke, Massachusetts.
O que os números de Fabi Alvim dizem sobre sua grandeza
Há um ditado popular que cabe perfeitamente aqui: "quem não tem cão caça com gato" — mas Fabi nunca precisou de substituto. Ela foi, por mais de uma década, a referência absoluta da posição no vôlei feminino mundial. Bicampeã olímpica em Pequim 2008 e Londres 2012, a líbero disputou cada bola como se fosse a última de sua carreira, construindo um currículo que poucos jogadores — de qualquer posição — conseguem igualar.
No clube, o vínculo com o Rio de Janeiro, atual Sesc RJ Flamengo, durou 13 anos e rendeu dez títulos da Superliga Feminina. Para efeito de comparação, a italiana Monia De Gennaro, atual número um do ranking FIVB na posição de líbero, soma três títulos de Liga dos Campeões pela Imoco Conegliano — impressionante, mas ainda distante da consistência doméstica de Fabi. O Brasil produziu, naquela geração, uma jogadora que seria titular em qualquer seleção do planeta.
A tabela de medalhas olímpicas no vôlei de quadra feminino reforça o contexto: entre 2000 e 2012, o Brasil conquistou ouro em Atenas 2004, ouro em Pequim 2008 e ouro em Londres 2012 — três títulos consecutivos, feito que nem a Rússia de Ekaterina Gamova, também eleita para a classe de 2026, conseguiu replicar. Fabi foi titular em dois desses ouros e reserva no terceiro ciclo.
Alison Mamute e a dominância brasileira no vôlei de praia
Alison Cerutti chegou ao Hall da Fama pelo caminho das areias. O central de 2,03 metros, apelidado de "Mamute" pelo bloqueio que intimidava duplas inteiras, foi ouro nos Jogos do Rio 2016 ao lado de Bruno Schmidt e prata em Londres 2012 com Emanuel Rego. Bicampeão mundial e tricampeão brasileiro, Alison acumulou mais de 60 pódios em etapas do Circuito Mundial da FIVB antes de se aposentar no ano passado.
O vôlei de praia brasileiro tem uma relação histórica com o Hall da Fama que vai além das medalhas: Emanuel Rego e Ricardo Santos, dupla que venceu Atenas 2004, já estão eternizados no mural de Holyoke. A eleição de Alison fecha um ciclo geracional que transformou o Brasil no país com mais ouros olímpicos na modalidade — quatro no masculino, considerando as duplas Ricardo/Emanuel (2004), Julien/Alison (2016) e os títulos anteriores de Jacqueline/Sandra. Os americanos, maiores rivais históricos, somam três ouros masculinos no mesmo período.
O levantamento feito pelo SportNavo a partir dos dados históricos da FIVB mostra que nenhum país colocou tantos representantes no Hall da Fama do vôlei de praia quanto o Brasil nas últimas duas décadas — seis atletas, contra quatro dos Estados Unidos e dois da Alemanha.
Ary Graça e o peso da liderança institucional
A terceira cadeira brasileira na classe de 2026 vai para Ary Graça, que presidiu a Confederação Brasileira de Voleibol (CBV) por 17 anos e a Federação Internacional (FIVB) por 12. Sua gestão na FIVB foi marcada pela expansão da Liga das Nações, que substituiu a Liga Mundial e a Grand Prix em 2018, e pelo esforço de globalizar o esporte para além das potências tradicionais — Brasil, Rússia, Itália, Estados Unidos e Japão.
O reconhecimento de dirigentes pelo Hall da Fama é menos frequente do que o de atletas, o que torna a eleição de Ary Graça ainda mais significativa. Na história da IVHF, apenas 14 personalidades foram consagradas na categoria "liderança" desde a fundação da instituição em 1987. Graça se torna o primeiro brasileiro nessa categoria.
O que falta para fechar o ciclo dos imortais brasileiros
A lista de candidatos desta edição incluiu ainda Juliana Felisberta, medalhista de bronze no vôlei de praia em Londres 2012. A ex-atleta não foi eleita para a classe de 2026, mas a IVHF confirmou que pode concorrer novamente no próximo ciclo de votação. Juliana é, ao lado de Larissa França, uma das maiores jogadoras da história do vôlei de praia feminino, com mais de 40 pódios no Circuito Mundial.
O vôlei brasileiro tem hoje 11 representantes no Hall da Fama — número que coloca o país atrás apenas dos Estados Unidos (23) e à frente da Itália (8) e da Rússia (7) no ranking histórico de consagrados. Com a classe de 2026, o Brasil sobe para 14, empatando com o Japão e se aproximando do segundo lugar. A cerimônia em outubro, em Holyoke, reunirá os nove eleitos deste ano — três deles brasileiros, o maior grupo de um único país em toda a história da premiação.










