Confesso: quando a Nigéria ficou fora da Copa do Mundo de 2026, escrevi que os Super Eagles precisariam de pelo menos dois ciclos para recuperar a identidade. Eu errei. E um atacante de 24 anos chamado Femi Azeez me mostrou o porquê — com dois gols, no primeiro jogo, em menos de 65 minutos de bola rolando.

O que Femi Azeez fez no The Valley que ninguém esperava tão cedo

O estádio do Charlton Athletic, em Londres, recebeu na última terça-feira uma partida que, no papel, parecia protocolar: Nigéria contra Zimbábue, semifinal da Unity Cup, um torneio amistoso sem pontos de ranking FIFA em jogo. Mas o que aconteceu dentro das quatro linhas foi qualquer coisa menos protocolar. Aos cinco minutos — cinco minutos — Azeez recebeu a bola na entrada da área após Philip Otele ser bloqueado, ajeitou no pé esquerdo e encaixou um chute rasteiro no canto do goleiro Future Sibanda. Precisão cirúrgica de quem já havia marcado 11 gols pelo Millwall nesta temporada da Championship, clube que acabou sendo eliminado nas semifinais dos play-offs pelo Hull City.

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O segundo gol veio depois da hora, quando o Zimbábue já dominava a posse no início do segundo tempo e criava pressão sobre a defesa nigeriana formada por Igoh Ogbu e Chibuike Nwaiwu. Contra o movimento do jogo — num contra-ataque rápido que lembrou o compasso acelerado de uma quinta-feira na Lapa carioca —, Terem Moffi desceu pela esquerda e rolou para Azeez, que apenas empurrou para o gol vazio. Simples. Eficiente. Irreversível.

"Esta Unity Cup para nós não é uma questão de ganhar o troféu. Meu objetivo é dar oportunidade, uma chance de mostrar o que podemos fazer e onde podemos melhorar com nosso time", disse o técnico Eric Chelle antes da partida.

A estratégia de Chelle com 12 debutantes e o que ela revela sobre o projeto nigeriano

Eric Chelle chegou à seleção nigeriana com uma missão clara depois da eliminação nas eliminatórias africanas: reconstruir sem nostalgia. Para esta edição da Unity Cup — que a Nigéria venceu nas três edições anteriores —, o técnico convocou 12 jogadores sem nenhuma passagem pelo time principal. Entre eles, o goleiro Arthur Okonkwo, de 24 anos, que havia trocado a fidelidade à Inglaterra pela Nigéria em abril e chegou ao torneio após uma boa temporada pelo Wrexham. Na defesa, a dupla do Rangers International, Chibueze Oputa e Kenneth Igboke, também ganhou oportunidade de início.

Com Wilfred Ndidi ausente, Terem Moffi assumiu a braçadeira de capitão — ele, que foi vice-campeão da CAN 2023 pela Nigéria, funcionou como o elo entre a geração estabelecida e os novatos. A assistência no segundo gol de Azeez resume bem esse papel de transição. Chelle foi transparente sobre as prioridades:

"Há jogadores novos aos quais quero dar a chance de mostrar algo. Esse é nosso objetivo principal. O segundo objetivo, claro, quando você joga, quer vencer", completou o treinador.

O Zimbábue, por sua vez, teve momentos reais de perigo no início da segunda etapa — chegou a ter um pênalti reclamado, negado pelo árbitro — e testou Okonkwo com uma finalização de Jonah Fabisch. O goleiro respondeu bem, confirmando a impressão que havia deixado nas redes sociais dos torcedores: tranquilidade com a bola nos pés, reflexo quando exigido.

A final de sábado e o que ainda falta resolver nos Super Eagles

A Nigéria aguarda o vencedor do duelo entre Jamaica e Índia para a decisão marcada para este sábado (30/05), novamente no The Valley. A equipe chega à final como detentora do título e favorita em qualquer das combinações possíveis, mas Chelle sabe que os 90 minutos contra o Zimbábue também expuseram fragilidades: os Super Eagles deveriam ter ampliado o placar antes do intervalo, desperdiçaram ao menos duas boas chances e sofreram pressão constante nos primeiros 20 minutos da etapa complementar. Naquele período, a defesa improvisada vacilou e só a falta de pontaria zimbabuana impediu o empate.

Para Azeez, a final é uma segunda janela. O atacante que chegou ao Millwall vindo do Reading em 2024 agora carrega o peso e o privilégio de ser o nome mais quente de uma seleção em construção — e num torneio transmitido para a diáspora nigeriana em todo o Reino Unido. Conforme apurado em matéria do SportNavo, a Unity Cup tem crescido em audiência exatamente por capturar esse público disperso que não tem Copa do Mundo para torcer neste ciclo.

O Zimbábue, eliminado, volta ao The Valley no mesmo sábado para a disputa do terceiro lugar. Mas o protagonismo da tarde pertencerá a Azeez — e à pergunta que todo o futebol africano já começou a fazer: será que encontramos, finalmente, o próximo grande herói dos Super Eagles?

A imagem que fica da terça-feira em Charlton é esta: Azeez levantando o braço direito depois do segundo gol, a camisa verde-branca da Nigéria ainda imaculada, e Moffi correndo para abraçá-lo como quem passa um bastão. A resposta para a pergunta acima começa às 15h deste sábado, no mesmo gramado.