A última vez que um gesto de árbitro causou comoção comparável numa Copa do Mundo foi em 1990, quando o italiano Tullio Lanese exibiu o cartão vermelho a Pedro Monzón na final entre Argentina e Alemanha Ocidental — uma decisão que alterou o curso do jogo e gerou controvérsia por décadas. O que aconteceu em 14 de junho de 2026, durante a apresentação da equipe de VAR no duelo entre Alemanha e Curaçao, pelo Grupo E da Copa do Mundo 2026, tem natureza completamente diferente, mas a mesma capacidade de envenenar o ambiente de um torneio que se quer símbolo de inclusão.

O gesto de Shaun Evans e o que as imagens mostram

Shaun Evans, árbitro assistente de vídeo de apoio e australiano de 42 anos, foi filmado no momento da apresentação da equipe arbitral com três dedos sustentados — formando uma referência visual à letra 'W' — e o polegar unido ao indicador, compondo a letra 'P'. A combinação 'WP' é reconhecida internacionalmente como símbolo de White Power, ideologia de supremacia branca. A imagem circulou nas redes sociais ainda durante a partida, e a FIFA abriu apuração em menos de 24 horas.

Evans se pronunciou rapidamente e com uma explicação que o Comitê Disciplinar Independente da FIFA considerou suficiente.

"Gostaria de esclarecer que não fiz intencionalmente um gesto ou símbolo com a mão para comunicar uma mensagem, afiliação, jogo ou crença de qualquer tipo. A única explicação que posso oferecer é que o movimento foi um espasmo involuntário e subconsciente, e eu não tinha consciência de tê-lo feito na ocasião."

O árbitro acrescentou que imagens capturadas ao longo da partida mostram o mesmo movimento repetido diversas vezes enquanto ele segurava uma caneta entre os dedos — argumento que pesou na análise da comissão. A FIFA, por sua vez, foi direta:

O gesto de Shaun Evans e o que as imagens mostram FIFA inocenta árbitro australi
O gesto de Shaun Evans e o que as imagens mostram FIFA inocenta árbitro australi
"O Comitê Disciplinar Independente da FIFA pode confirmar que, após analisar o caso envolvendo o árbitro assistente de vídeo de apoio Shaun Evans, não encontrou nenhuma evidência de violações do Código Disciplinar da FIFA."

A FIFA e os precedentes de racismo que mostram como a entidade hesita

O encerramento rápido do caso — questão de dias — contrasta com o histórico da FIFA em situações similares. Em 2014, no Brasil, o zagueiro italiano Mario Balotelli foi alvo de cânticos racistas de torcedores uruguaios durante a derrota da Itália por 1 a 0. A Federação Uruguaia recebeu uma multa de 80 mil francos suíços, valor irrisório para uma entidade de porte nacional. Em 2018, na Rússia, a seleção da Croácia teve um jogador fotografado em contexto politicamente sensível, e a punição demorou semanas para ser definida. O padrão é o mesmo: investigação rápida, punição branda ou inexistente, declaração institucional que fecha o assunto sem criar precedente concreto.

Esta é a segunda Copa do Mundo de Shaun Evans. Em 2022, no Catar, ele atuou como VAR sem qualquer incidente registrado. A trajetória limpa reforçou, na avaliação da comissão, a tese do espasmo involuntário. Mas o problema não é apenas Evans — é o vácuo de protocolo que a FIFA mantém quando o acusado é alguém dentro do próprio aparato arbitral, não um torcedor nas arquibancadas ou um jogador em campo.

Nos anos 1990, o combate ao racismo no futebol era quase inexistente no plano institucional. A campanha Say No to Racism só ganhou tração real após 2001, quando a FIFA e a UEFA formalizaram parcerias com a ONG Kick It Out, fundada em 1993 na Inglaterra. Até 2006, não existia protocolo específico para interrupção de partidas por cânticos racistas — algo que só foi regulamentado de forma escrita nos estatutos da FIFA em 2019, 26 anos depois da criação da própria campanha.

O que a inocentação de Evans revela sobre os limites do código disciplinar

O Código Disciplinar da FIFA, em sua versão vigente, prevê punições que vão de multas a suspensões e até exclusão de competições para casos de discriminação racial comprovada. O problema estrutural está no verbo comprovada: a entidade exige evidência de intencionalidade, o que torna praticamente impossível punir gestos ambíguos, mesmo quando a conotação racista é amplamente conhecida.

O sinal de 'OK' com conotação supremacista foi catalogado pelo Centro Simon Wiesenthal e pela Anti-Defamation League dos Estados Unidos como símbolo de ódio já em 2019, após ter sido popularizado por grupos de extrema-direita. No mesmo ano, um guarda de segurança da NBA foi afastado por exibir o gesto perto de jogadores negros durante um jogo dos Cleveland Cavaliers. A diferença de tratamento entre o episódio da NBA — que resultou em demissão — e a decisão da FIFA em 2026 é a métrica mais objetiva disponível para avaliar o rigor das duas entidades.

A Copa do Mundo 2026 tem nos Estados Unidos sua sede principal, um país com histórico recente e agudo de tensões raciais. A FIFA escolheu deliberadamente esse cenário para o maior torneio do planeta e, ao mesmo tempo, encerra em poucos dias uma investigação sobre um gesto com simbologia racista documentada. O próximo jogo do Grupo E, que reúne Alemanha, Curaçao, Portugal e Turquia, está programado para os próximos dias — e Shaun Evans segue credenciado para atuar como VAR, decisão que a FIFA não considerou necessário justificar além do comunicado oficial.