O relógio marcava 34 minutos do segundo tempo no Hard Rock Stadium, em Miami, quando uma bola alçada na área saudita encontrou a cabeça de Viñas. Al-Owais espalmou, mas não segurou. Maxi Araújo, bem posicionado, empurrou de canhota para o fundo das redes. O 1 a 1 que salvou o Uruguai de uma derrota vexatória na estreia da Copa do Mundo 2026 nasceu de uma jogada construída com peças do Flamengo — e esse detalhe merece uma análise cuidadosa.
O peso rubro-negro na escalação de Bielsa contra a Arábia Saudita
Marcelo Bielsa mandou a campo, desde o apito inicial, dois jogadores que disputam o Campeonato Brasileiro 2026 com a camisa rubro-negra: o lateral-direito Guillermo Varela e o lateral-esquerdo Matías Viña, este último emprestado ao River Plate até o fim do ano, mas com vínculo formal ainda pertencente ao clube carioca. A presença simultânea dos dois na espinha dorsal defensiva da Celeste não é coincidência — Bielsa confia em jogadores que conhece o ritmo de competição semanal intensa, e ambos vêm de uma sequência exigente pelo Brasileirão sob o comando de Leonardo Jardim.
Varela, pelos dados registrados por SportNavo durante a fase de preparação uruguaia, foi o lateral mais acionado por Bielsa nos últimos seis meses de Eliminatórias. Contra a Arábia Saudita, o lateral-direito mostrou por que merece essa confiança: ainda no primeiro tempo, tentou articular jogadas pelo corredor direito, mas os atacantes uruguaios não conseguiram converter as chegadas em perigo real. No segundo tempo, a história mudou. Aos 15 minutos da etapa final, foi uma jogada iniciada por Varela que terminou com Ugarte acertando a trave direita de Al-Owais — o poste foi o único obstáculo entre o Uruguai e o empate naquele momento.
Viña, por sua vez, foi substituído no intervalo por Bielsa, que optou por Juan Sanabria para ganhar mobilidade ofensiva. A troca, em tese, enfraquecia a presença do Flamengo em campo — mas o lateral havia cumprido sua função: segurar o corredor esquerdo durante os 45 minutos iniciais e participar das transições que tentaram desorganizar o bloco saudita. Antes de deixar o campo, Viña ainda chegou a cabecear em uma das raras investidas celestes, obrigando Al-Owais a mais uma intervenção.
Como o empate foi construído e a participação de De La Cruz
O primeiro tempo terminou com o Uruguai em desvantagem. Aos 41 minutos, após cobrança de escanteio, Kanno cabeceou com força, Fernando Muslera rebateu de forma precária e Abdulelah Al-Amri chegou no rebote para abrir o placar saudita. A falha do goleiro, que nesta partida igualou o recorde de Edison Cavani como jogador uruguaio com mais partidas em Copas do Mundo — 17 jogos — e se tornou o uruguaio mais velho a disputar um Mundial, com 39 anos completados na véspera do jogo, foi um presente amargo numa data que deveria ser de celebração.
Na volta do intervalo, Bielsa promoveu duas alterações além da saída de Viña: Canobbio, do Fluminense, entrou na vaga de Darwin Núñez. O Uruguai passou a dominar territorialmente, e durante os primeiros 15 minutos do segundo tempo a Arábia Saudita mal cruzou o meio-campo. Foi nesse período que Ugarte carimbou a trave e que Sanabria desperdiçou uma cabeçada após cruzamento preciso de Varela.
Aos 26 minutos da etapa final, Bielsa lançou Nicolás De La Cruz na vaga de Ugarte. O meia rubro-negro entrou num momento em que o Uruguai já havia estabelecido supremacia territorial, mas ainda não havia perfurado a muralha de Al-Owais. Nos acréscimos, De La Cruz ainda arriscou de canhota em uma das últimas investidas celestes, por pouco não virando o placar. O resultado final foi 1 a 1, insuficiente para a vitória que o tropeço da Espanha — empatada em 0 a 0 com Cabo Verde — tornava ainda mais urgente.
"A Arábia Saudita segurou o Uruguai de Bielsa durante quase todo o segundo tempo, mas sucumbiu à pressão na reta final", apontou a ESPN em sua cobertura ao vivo do Hard Rock Stadium.
O que a história das Copas diz sobre estreias como essa
Quem acompanha o futebol sul-americano desde os anos 1990 sabe que estreias em Copa do Mundo raramente revelam o potencial real de uma seleção. O Uruguai de 1990, por exemplo, empatou em 0 a 0 com a Espanha na fase de grupos da Itália e terminou a competição nas quartas de final. O de 2010, sob comando de Óscar Tabárez, perdeu para a França na estreia por 0 a 1 e chegou ao quarto lugar. Empatar na primeira rodada, portanto, não é sentença de morte — mas a natureza do empate desta segunda-feira, 15 de junho de 2026, traz um alerta específico: o Uruguai levou um gol de bola parada por desatenção defensiva, e só buscou o empate graças a um erro do goleiro adversário, Al-Owais, que até aquele momento havia defendido tudo que a Celeste mandou.

A ausência de Arrascaeta, em recuperação de lesão na panturrilha e previsto para retornar apenas no terceiro jogo da fase de grupos, pesa sobre a criação uruguaia de maneira que os dados confirmam: sem o meia rubro-negro, o Uruguai nas Eliminatórias Sul-Americanas para esta Copa registrou aproveitamento de 58% contra 74% nos jogos em que ele completou 90 minutos. Bielsa compensou com De La Cruz, mas o meia entrou apenas aos 26 minutos do segundo tempo, quando o desgaste já era visível nos demais.
"Quando tudo caminhava para mais uma vitória saudita sobre um sul-americano na estreia da Copa — como aconteceu em 2022 com o triunfo sobre a campeã Argentina —, a pressão uruguaia deu resultado", registrou a ESPN em análise pós-jogo.
A Arábia Saudita, treinada desde abril deste ano pelo grego Georgios Donis, mostrou organização defensiva acima do esperado. Al-Owais foi o melhor em campo durante grande parte do jogo, acumulando defesas em cabeçadas, cobranças de falta de Valverde e chutes de média distância. O 1 a 1 final deixa o Grupo H com todos os quatro times — Uruguai, Arábia Saudita, Espanha e Cabo Verde — com um ponto cada, numa configuração que torna cada partida da segunda rodada decisiva.
O próximo compromisso do Uruguai é contra Cabo Verde, no domingo, dia 21 de junho, às 19h. Bielsa precisará de uma vitória para manter o controle do próprio destino no grupo — e, nesse cenário, a contribuição dos jogadores do Flamengo pode ser ainda mais determinante do que foi em Miami. Uma seleção que depende de duas peças emprestadas de um mesmo clube para equilibrar uma partida contra a Arábia Saudita é como uma receita que só funciona com um ingrediente específico: quando ele falta, o prato inteiro muda de sabor.








