15 de junho de 2026. Às 22h no horário de Brasília, o SoFi Stadium em Inglewood recebia a estreia do Copa do Mundo entre Irã e Nova Zelândia — mas o espetáculo mais denso daquela noite acontecia fora do gramado. Centenas de iranianos da diáspora, muitos deles nascidos ou criados em Los Angeles, cidade que a comunidade iraniana apelidou de Teerângeles, formavam um cordão humano ao redor do estádio. Nas mãos, não havia faixas de incentivo à seleção: havia a bandeira do leão com a espada, símbolo da monarquia persa derrubada em 1979, proibida pelo regime dos aiatolás há 47 anos.
A narrativa do abandono que o regime construiu para o mundo
A versão que circulou com mais força nos dias anteriores ao jogo era a de que o Irã poderia protagonizar um gesto inédito na história das Copas: abandonar uma partida em pleno andamento. Ahmad Donyamali, ministro dos Esportes do governo iraniano, não deixou margem para interpretações. Ele notificou diretamente a FIFA de que os jogadores receberam orientação formal para deixar o gramado assim que ouvissem slogans políticos contrários ao regime ou avistassem a exibição da bandeira antiga — com o leão e o sol, símbolo pré-revolução islâmica. A ameaça era real o suficiente para mobilizar um esquema de segurança descrito pelas autoridades locais como um dos maiores já montados para uma estreia de Copa do Mundo nos Estados Unidos.
A lógica por trás do recado de Donyamali, porém, revela mais sobre o regime do que sobre qualquer preocupação esportiva. O governo iraniano enxerga a seleção como um instrumento de legitimidade externa — uma janela para o mundo mostrar normalidade enquanto, segundo dados de organizações não governamentais, milhares de pessoas morreram em repressões internas em janeiro de 2026. Usar a ameaça de abandono era, acima de tudo, uma mensagem doméstica: controlamos até o que acontece no campo de futebol de outro país.
"Uma seleção que abandona o campo por causa de uma bandeira não está defendendo um país — está defendendo um regime", disse um ex-técnico de seleções asiáticas em entrevista à agência AFP na véspera do jogo.
O que Los Angeles disse que Teerã preferia não ouvir
A estudante de filosofia Ava Amin estava entre os manifestantes que cercaram o SoFi Stadium nesta segunda-feira. Ela resumiu em duas frases o que a diáspora iraniana foi dizer ao mundo naquele entardecer californiano.
"Esta equipe não é do povo iraniano, é do regime. Quando as pessoas são assassinadas, eles ignoram e ficam calados", afirmou Amin à AFP.
A fala de Amin condensava décadas de história. Desde a Revolução Islâmica de 1979, a relação entre futebol e política no Irã nunca foi simples. Em 1998, na Copa da França, jogadores iranianos entregaram flores aos adversários americanos num gesto de aproximação que o governo tolerou porque a seleção venceu por 2 a 1. Em 2022, no Catar, parte do elenco recusou-se a cantar o hino nacional nos primeiros jogos, num protesto silencioso que custou caro a alguns atletas ao retornarem ao país. Agora, em 2026, alguns manifestantes em Los Angeles disseram à AFP que pretendiam entrar no estádio com a bandeira do leão escondida para exibi-la durante o jogo — o que colocaria a FIFA numa posição delicada, já que seus regulamentos proíbem manifestações políticas em seus eventos.

A participação iraniana nesta Copa, aliás, só foi confirmada às vésperas do torneio. A guerra iniciada em fevereiro pelos Estados Unidos e Israel contra o Irã criou uma série de obstáculos logísticos e diplomáticos. Washington negou vistos a membros da delegação, e a seleção foi obrigada a se instalar em Tijuana, no México, em vez de em território americano como estava planejado originalmente.
O que um abandono real significaria para a FIFA e para o Irã
Do ponto de vista regulatório, se um time abandona uma partida em andamento sem justificativa aceita pela FIFA, a entidade aplica o resultado técnico de derrota por 3 a 0 para a equipe que se retirou — além de punições que podem incluir exclusão de torneios futuros e multas financeiras. Para o Irã, que integra o Grupo G ao lado de Bélgica e Egito, um abandono significaria eliminação imediata e um precedente institucional devastador para qualquer seleção que tente usar o esporte como palco de chantagem política.
Para a FIFA, o problema é igualmente incômodo. A entidade construiu uma narrativa de que a Copa de 2026 seria o torneio da inclusão e da diversidade, com 48 seleções e três países-sede. Ter uma seleção saindo de campo por causa de protestos da própria diáspora do país representado seria o tipo de imagem que nenhum patrocinador quer ver nos noticiários da manhã seguinte. A pressão para que a segurança interna do estádio impedisse a exibição de símbolos proibidos pelo regime iraniano — a pedido de um governo estrangeiro — colocava a FIFA numa zona moralmente cinzenta que ela claramente preferia não habitar.
O Irã tem pela frente ainda dois jogos na fase de grupos: contra a Bélgica e contra o Egito. Se a estreia contra a Nova Zelândia mostrou que o campo de futebol virou arena de disputas que vão muito além dos 90 minutos, os próximos compromissos prometem repetir o roteiro — e vale acompanhar cada jogo desta seleção, porque o que acontece nas arquibancadas pode definir a Copa tanto quanto o que acontece no gramado.








