Diz-se que Neymar nunca mistura vida pessoal com carreira. Na verdade, mistura — e a cada Copa do Mundo essa mistura fica mais evidente, mais intensa e mais difícil de gerenciar. Na manhã desta segunda-feira, 15 de junho de 2026, enquanto a Seleção Brasileira treinava sem ele pela segunda vez consecutiva no ciclo do Mundial, o camisa 10 apareceu vendado num vídeo de chá revelação ao lado de Bruna Biancardi, confirmando a quinta paternidade da carreira. Mais uma menina. Mais uma vida que começa enquanto a dele, dentro de campo, ainda tenta recomeçar.
Cinco filhos, quatro Copas — o padrão que desta vez ficou mais pesado
Para entender o peso do anúncio desta segunda-feira, precisamos voltar a 2014. Naquela Copa, Davi Lucca tinha três anos e era o único filho de Neymar. O jogador entrou em campo com leveza, marcou quatro gols antes da semifinal contra a Alemanha e carregava um Brasil inteiro nas costas com a energia de quem ainda tinha muito a provar. Doze anos depois, a conta cresceu de forma geométrica: Davi Lucca, 15 anos, filho de Carol Dantas; Helena, nascida em 2024, filha de Amanda Kimberlly; Mavi, 2 anos, e Mel, quase 1, ambos com Bruna Biancardi; e agora mais uma menina a caminho, também com Biancardi. Cinco filhos, quatro mães diferentes — e uma lesão de grau 2 na panturrilha direita que o impediu de jogar sequer um minuto na estreia do Brasil no Mundial.
Reparemos no detalhe: em todas as Copas que Neymar disputou — 2010 (reserva), 2014, 2018 e 2022 —, algum evento extra-campo dominou a narrativa paralela. Em 2018, foi a separação de Carol Dantas anos antes e a guarda de Davi Lucca. Em 2022, foi o relacionamento turbulento com Biancardi e a confirmação da gravidez de Mavi durante o torneio. Em 2026, é a terceira gravidez de Biancardi somada à lesão que o mantém afastado dos treinos. O futebol e a vida pessoal de Neymar nunca funcionaram em turnos separados.
A brincadeira das Spice Girls e o desejo de um menino em dezembro
No vídeo do chá revelação publicado nesta segunda-feira nas redes sociais do casal, Neymar reagiu ao resultado com humor característico. Ao descobrir que seria pai de mais uma menina, declarou:
"Eu vou montar uma banda e, a partir de hoje, vai ser Spice Girls"
A referência ao grupo pop britânico dos anos 90 arrancou risos, mas o jogador foi além e deixou escapar um plano que soa mais como desejo do que como piada:
"Já estou avisando, ano que vem, dezembro, menino."
A fala revela que Neymar, aos 34 anos, não considera encerrada sua jornada como pai — nem como jogador, a julgar pela insistência em participar desta Copa mesmo em condições físicas comprometidas. O próprio anúncio da gravidez, feito num momento em que o Brasil acabara de estrear no Mundial sem ele, diz algo sobre como o atleta lida com as prioridades: celebração pública da vida pessoal em paralelo à incerteza profissional mais aguda dos últimos anos.
A lesão na panturrilha e o tempo que a Copa não devolve
Neymar chegou ao Mundial de 2026 em recuperação de uma lesão muscular de grau 2 na panturrilha direita. O grau 2 implica ruptura parcial das fibras, com tempo mínimo de recuperação que varia entre 10 e 21 dias dependendo da extensão e do protocolo de fisioterapia. O Brasil estreou sem ele. A família cresceu sem ele em campo. E agora, com mais uma filha a caminho e pelo menos mais uma semana de tratamento pela frente, o jogador enfrenta o cenário mais cruel de uma carreira marcada por lesões em momentos decisivos: pode disputar menos de três jogos numa Copa sediada no continente americano, num país que o ama e que nunca cobrou tanto.
A comparação com 2014 dói por outro motivo. Naquela Copa, uma fratura na vértebra lombar encerrou precocemente sua participação. Em 2018, a lesão no tornozelo na fase de grupos limitou seu rendimento. Em 2022, ele lesionou o tornozelo direito na estreia contra a Sérvia e ficou fora por duas semanas. Agora, é a panturrilha. São quatro torneios, quatro episódios de partes diferentes do corpo cedendo sob pressão — e em todos eles, a vida pessoal continuou avançando enquanto o joelho, o tornozelo ou o músculo pediam pausa.
Como cinco filhos reorganizam a logística de uma Copa do Mundo
A dinâmica familiar de Neymar durante os Mundiais nunca foi simples. Em matéria do SportNavo publicada durante o ciclo de preparação, o tema da presença dos filhos na concentração já havia sido levantado — um aspecto que envolve negociação com a CBF, logística de viagens internacionais e coordenação entre mães com histórias distintas. Com Mavi (2 anos) e Mel (quase 1) sendo os mais novos atualmente presentes, e mais uma filha chegando nos próximos meses, a estrutura de suporte ao redor do jogador precisa ser profissional tanto quanto a comissão técnica que cuida da sua recuperação física.
Não há precedente direto no futebol brasileiro de um jogador que disputou quatro Copas do Mundo com filhos de quatro mães diferentes e ainda estava tentando se recuperar de lesão para jogar a quinta. Pelé disputou três Mundiais com uma vida pessoal igualmente complexa, mas em outra era — sem redes sociais, sem chás revelação transmitidos ao vivo e sem a pressão de 200 milhões de brasileiros acompanhando cada passo em tempo real. Neymar vive essa exposição como nenhum outro jogador da história do país.
O cronograma da Seleção Brasileira indica que o Brasil volta a campo na quinta-feira, 19 de junho, contra a Croácia, pela segunda rodada da fase de grupos da Copa do Mundo de 2026. Os médicos da CBF têm até lá para dar ou não o aval de Neymar. Cinco filhos. Quatro lesões em Copas. Trinta e quatro anos.








