A tela piscava de novo. Outro intervalo, outro anúncio de casa de apostas — o terceiro em quatro minutos — antes de o árbitro apitar o reinício de uma partida da Copa do Mundo 2026. Para quem acompanhou transmissões de grandes torneios nas décadas de 1980 e 1990, quando os breaks comerciais na RAI ou na BBC eram regulados com precisão quase cirúrgica, a sensação era de estar assistindo a um canal de televendas que havia sequestrado o futebol. A plataforma em questão era a CazéTV, o braço digital da LiveMode, e o debate que ela acendeu vai muito além de uma discussão sobre publicidade.

A polêmica que chegou ao Ministério da Justiça

A investigação aberta pelo Ministério da Justiça contra a CazéTV por suposta publicidade abusiva de empresas de apostas esportivas durante as transmissões do Mundial não surgiu do nada. Influenciadores, parlamentares e telespectadores comuns vinham documentando, jogo após jogo, a densidade de anúncios de bets — muitos deles em formatos que especialistas em direito do consumidor classificam como potencialmente enganosos para públicos vulneráveis. O fenômeno tem paralelo histórico: em 2004, a UEFA enfrentou pressão semelhante quando patrocinadores de bebidas alcoólicas saturaram as transmissões da Champions League em países com restrições legais ao setor, forçando revisões contratuais que durariam três temporadas.

O que diferencia o caso brasileiro de 2026 é a velocidade com que o streaming eliminou camadas tradicionais de controle editorial. Quando a Globo detinha exclusividade absoluta sobre transmissões de Copas — modelo que vigorou sem grandes rupturas de 1970 até 2022 —, havia uma estrutura interna de compliance publicitário que filtrava categorias de anunciantes segundo critérios próprios e, depois de 2018, segundo as normas do CONAR. A LiveMode, ao operar via YouTube com a CazéTV, trabalha num ambiente regulatório ainda em construção, onde as regras de conteúdo da plataforma americana nem sempre coincidem com a legislação brasileira sobre apostas.

A Fifa elogia o modelo e passa o problema adiante

Quando Romy Gai, diretor executivo de Negócios da Fifa, concedeu entrevista ao Estadão, seu discurso tinha dois movimentos distintos e estrategicamente calculados. Primeiro, o elogio:

"O streaming se tornou uma das formas preferidas de muitas pessoas ao redor do mundo para acompanhar o esporte, e ficamos particularmente satisfeitos com os resultados alcançados pela LiveMode no Brasil", declarou Gai.

Segundo, o distanciamento da polêmica:

"Essas relações comerciais são uma questão dos próprios veículos de comunicação, portanto a Fifa não participa dessas negociações publicitárias", afirmou o executivo.

A posição não é nova na história da entidade. Quando a FIFA assinou contratos de patrocínio com a Coca-Cola em 1974 e com a Adidas desde os anos 1970, ela estabeleceu um modelo de receita direta que deliberadamente deixava a publicidade local fora do seu escopo de controle — e, portanto, fora de sua responsabilidade. O argumento tem lógica comercial impecável e lógica ética bastante questionável. Gai ainda garantiu que o arranjo entre LiveMode e CazéTV foi aprovado pela entidade desde 2022, quando os direitos foram adquiridos, descartando qualquer conflito de interesses — o que, conforme registrado pelo SportNavo, não elimina a questão sobre qual instância deveria supervisionar o conteúdo publicitário veiculado sob o guarda-chuva do evento.

Quem afinal segura a conta quando o árbitro apita

A estrutura legal do caso revela um triângulo de responsabilidades difusas que já vimos se repetir em outros mercados. Na Inglaterra, quando as casas de apostas invadiram as camisas e as transmissões da Premier League entre 2010 e 2023, o debate levou 13 anos para produzir uma regulamentação efetiva — e ainda assim incompleta. A diferença é que o mercado britânico tinha a Gambling Commission operando há décadas com poderes reais de enforcement. O Brasil regulamentou as bets em dezembro de 2023, e a Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda ainda está estruturando seus mecanismos de fiscalização em plena Copa do Mundo.

A CazéTV, nesse contexto, ocupa uma posição de parede de ferro entre o entusiasmo do mercado publicitário e a pressão regulatória crescente. A LiveMode detém os direitos, a plataforma exibe o conteúdo e os anunciantes pagam — mas nenhum dos três atores quer ser o responsável formal pelo excesso. A Fifa já deixou claro onde se posiciona. O Ministério da Justiça, ao abrir a investigação, sinalizou que alguém terá de responder. E a CazéTV, que chegou a registrar 18,3 milhões de telas simultâneas em jogos do Brasil na Copa — número que a própria Fifa usou para elogiar o modelo —, descobriu que audiência recorde e escrutínio regulatório crescem na mesma proporção.

Quanto aos direitos de transmissão da Copa de 2030, Gai foi deliberadamente vago: nenhuma empresa tem preferência garantida nem foi excluída da disputa no mercado brasileiro. Traduzindo: a Fifa quer manter todas as opções abertas — inclusive a de renovar com a LiveMode se o modelo continuar entregando números, e a de substituí-la se a pressão regulatória tornar o negócio custoso demais. A investigação do Ministério da Justiça, portanto, não é apenas uma questão de compliance publicitário: ela vai moldar diretamente o mapa de poder das transmissões esportivas no Brasil pelos próximos quatro anos. A CazéTV entra nessa disputa como favorita em audiência e réu em potencial ao mesmo tempo — uma receita que, na gastronomia, equivale a servir o prato principal e a conta no mesmo prato.