Confesso: eu errei em 2022. Quando a FIFA anunciou o programa de compensação para os clubes naquele Mundial do Catar, achei que o valor era simbólico demais para mudar qualquer planejamento financeiro. Hoje, de Cleveland, vendo o tamanho da Copa do Mundo de 2026 — 48 seleções, 104 jogos, três países-sede —, entendo que o impacto para os clubes brasileiros é concreto, e maior do que parece na primeira leitura dos números.

O que a FIFA decidiu pagar e por quê o valor caiu

O Conselho da Copa do Mundo confirmou nesta sexta-feira (5) o valor de US$ 5 mil por jogador por dia de convocação. Na prática, cada clube que cede um atleta para uma seleção nacional recebe esse montante enquanto o jogador estiver à disposição do técnico da seleção — desde a apresentação até a eliminação ou conquista do título. O valor final só será definitivamente calculado ao fim do torneio, pois leva em conta também os minutos jogados por cada atleta.

O número representa uma queda significativa em relação ao Mundial de 2022: no Catar, a FIFA pagou o equivalente a US$ 10,9 mil por dia por jogador — mais que o dobro do que será praticado agora. A explicação para essa redução está no formato expandido do torneio. Com 16 seleções a mais e 11 dias de competição a mais do que em 2022, o fundo total do chamado Programa de Benefícios para Clubes chegou a US$ 355 milhões — 70% superior ao da edição anterior. O bolo cresceu, mas foi dividido em fatias menores para cada clube individualmente.

"O valor médio que cada clube irá receber por ceder um jogador para a Copa do Mundo será menor do que aquele registrado no Mundial do Catar", confirmou a FIFA em nota oficial divulgada nesta sexta.

Dos US$ 355 milhões totais, US$ 205 milhões estão reservados para a Copa em si, US$ 100 milhões cobrem as 905 partidas de Eliminatórias disputadas ao redor do mundo, e US$ 5 milhões ficam para deduções legais. Os clubes que cederam jogadores para as Eliminatórias também recebem: US$ 2,36 mil por partida em que o atleta foi convocado.

Flamengo na liderança, Palmeiras em segundo e o peso do Brasileirão parado

Quando o Flamengo tem nove jogadores convocados simultaneamente, a matemática trabalha a favor do clube. Com US$ 5 mil por atleta e a cotação atual do dólar, o Rubro-Negro embolsa aproximadamente R$ 231,3 mil por dia durante o período de convocação. Considerando apenas a fase de grupos — que dura em torno de três semanas —, a estimativa chega a US$ 1,44 milhão, ou R$ 7,4 milhões. Se Brasil, Colômbia, Equador e Uruguai avançarem no mata-mata, o valor sobe proporcionalmente a cada rodada extra.

Os nove convocados do Flamengo estão distribuídos por quatro seleções diferentes. Carlo Ancelotti chamou Danilo, Alex Sandro, Léo Pereira e Lucas Paquetá para a Seleção Brasileira. O Uruguai levou Arrascaeta, De La Cruz e Varela. A Colômbia conta com Jorge Carrascal. E o Equador incluiu Gonzalo Plata em seu grupo.

O Palmeiras aparece em segundo lugar entre os clubes brasileiros, com sete convocados e uma receita estimada em R$ 179,9 mil por dia. O Atlético-MG vem na sequência com quatro atletas. Grêmio e Internacional fecham o top-5 com dois convocados cada. Botafogo, Corinthians, Santos, São Paulo, Fluminense, Vasco, Athletico-PR e Bragantino têm um representante cada no torneio.

"Quem não tem cão caça com gato" — e no futebol financeiro, ter nove jogadores na Copa enquanto o Brasileirão para é exatamente isso: transformar uma ausência em receita.

O que muda no calendário dos clubes a partir de agora

Quando o elenco principal está disperso pelas seleções, o clube precisa usar o tempo de pausa de forma estratégica. Quando o dinheiro da FIFA começa a entrar, a diretoria planeja a reta final da temporada.

O Flamengo aproveita a janela da Copa para uma intertemporada em Portugal. O Rubro-Negro disputará três amistosos no continente europeu: contra o Falkirk (Escócia), o Birmingham (Inglaterra) e o Benfica (Portugal). A preparação serve para manter o ritmo dos atletas que não foram convocados e testar esquemas táticos antes do retorno ao Brasileirão.

A volta ao campeonato nacional está marcada para 22 de julho, quando o Flamengo enfrenta a Chapecoense pela 19ª rodada do Brasileirão — partida que, dependendo do desempenho das seleções na Copa, pode contar com a maioria dos convocados de volta ao clube. Para o Palmeiras, o cenário é semelhante: sete jogadores ausentes representam uma pausa forçada que, financiada pela FIFA com quase R$ 180 mil diários, transforma o período em oportunidade de recomposição física e tática antes da segunda metade da temporada.