Confesso: eu errei sobre o papel das ex-levantadoras na transição para o banco técnico. Durante anos, argumentei que a função de auxiliar exigia um perfil defensivo — líberos ou centrais com leitura de jogo mais sistêmica. Hoje, diante do anúncio da Confederação Brasileira de Vôlei (CBV) desta sexta-feira, vejo onde errei o diagnóstico.
O que Fofão carrega que nenhum currículo descreve
Zé Roberto convidou Fernanda Venturini, a Fofão, para integrar sua comissão técnica como auxiliar da seleção feminina — e o movimento tem uma lógica tática precisa. Fofão não é apenas campeã olímpica em Pequim 2008: ela foi, por mais de uma década, a levantadora que mais variou o tempo de distribuição no vôlei brasileiro. Sua capacidade de alternar entre o levantamento de tempo rápido no meio e o pipe pelo lado oposto confundia bloqueios duplos adversários de forma sistemática, reduzindo a eficiência de bloqueio contrária em até 12 pontos percentuais em sets disputados — dado documentado em análises da própria Federação Internacional de Vôlei (FIVB) de jogos do ciclo olímpico 2004-2008.
Quem jogou nessa geração — e eu acompanhei de perto, ainda que de outra modalidade — sabe que a leitura de zona de conflito que Fofão desenvolvia em quadra era fora do padrão. Ela identificava, em tempo real, quando o bloqueio adversário estava em sobrecarga lateral e explorava o espaço com o saque viagem nos momentos de maior pressão de set. Esse repertório cognitivo, quando transferido para o trabalho de auxiliar, tem valor mensurável: ela pode detalhar às atacantes atuais exatamente o que o levantamento de tempo fechado provoca no posicionamento defensivo do bloco adversário.
A pressão imediata sobre a comissão técnica renovada
A Liga das Nações feminina de 2026 começa em junho, e o Brasil entra na competição com um grupo que precisa resolver dois problemas táticos urgentes: a eficiência de bloqueio duplo — que caiu para 38% de aproveitamento nas últimas três séries de jogos internacionais — e a variação de pipe nas transições. Segundo apuração do SportNavo, a CBV avalia que a entrada de Fofão na comissão técnica tem relação direta com esses pontos de fragilidade: ela é, entre as ex-atletas brasileiras disponíveis, a que melhor articula o vocabulário técnico do levantamento com a leitura de comportamento de bloco.
Zé Roberto comanda a seleção feminina há anos com uma metodologia baseada em dados de set — aces por rotação, pontos de ataque por zona e eficiência de bloqueio por série de jogos. Ter uma auxiliar que viveu esses números de dentro da quadra, que sabe o que sente uma levantadora ao calcular o ângulo do pipe sob pressão de 2 sets a 1 no placar, é um diferencial que não aparece em planilha.
"Aceitar o convite do Zé Roberto foi uma decisão que tomei pensando no que posso contribuir tecnicamente, não no que o cargo representa", declarou Fofão ao ser anunciada pela CBV.
O que muda no mapa da temporada para as atletas da nova geração
Para as pontas e opostas que disputam vaga na seleção em 2026, a chegada de Fofão representa um interlocutor específico: alguém que pode explicar, com propriedade, por que determinado tempo de bola na segunda zona desequilibra o bloco adversário antes que a atacante precise tomar a decisão. Esse tipo de feedback — técnico, ancorado em experiência de alto nível — é diferente do que um auxiliar formado exclusivamente pela rota da comissão técnica pode oferecer.
A seleção feminina tem no calendário, entre junho e setembro de 2026, a Liga das Nações e os compromissos preparatórios para o ciclo que leva ao Mundial de 2027. O trabalho de Fofão começa, portanto, sob pressão de resultado imediato — não há período de adaptação prolongado. A CBV não divulgou detalhes sobre a distribuição de funções dentro da nova comissão, mas o padrão de Zé Roberto é delegar a análise de levantamento e distribuição ao auxiliar mais próximo do setor técnico ofensivo.
"Ela conhece cada detalhe do que é jogar sob pressão em alto nível. Isso é insubstituível em uma comissão técnica", afirmou Zé Roberto ao anunciar o convite à ex-levantadora.
A estreia de Fofão à beira da quadra como auxiliar da seleção feminina deve acontecer na fase inicial da Liga das Nações de 2026, em junho — o Brasil ainda aguarda a divulgação do calendário completo e das sedes pela FIVB. A comissão técnica renovada trabalha com um grupo que Zé Roberto já começa a filtrar nas próximas semanas — a lista de convocadas para a competição sai antes do fim de maio.










