Não é sobre nostalgia. A pergunta que Paris faz a João Fonseca neste domingo não é se ele consegue reviver Guga — é se ele consegue ser algo que o tênis brasileiro ainda não nomeou. Às 15h15 (horário de Brasília), na Quadra Philippe-Chatrier, o carioca de 19 anos enfrenta o norueguês Casper Ruud nas oitavas de final de Roland Garros, carregando o peso de um hiato de 22 anos: desde que Gustavo Kuerten avançou às quartas em 2004, nenhum brasileiro homem chegou sequer perto desta fase no saibro parisiense.
O que aconteceu no vestiário antes de Djokovic entrar em quadra
A campanha de Fonseca em Roland Garros 2026 não começou com o ace que calou a Philippe-Chatrier — começou na semana anterior, nos treinos em que a equipe do brasileiro ajustou o ritmo de bola no saibro molhado de Paris. A primeira rodada foi um exercício de precisão: o francês Luka Pavlovic, 241º do mundo, foi varrido por 3 sets a 0, sem concessões. Na segunda, o croata Dino Prizmic, 72º do ranking, ofereceu mais resistência, mas Fonseca virou o placar após perder os dois primeiros sets — um padrão que se tornaria assinatura.
A batalha contra Novak Djokovic, atual número 4 do mundo, durou 4 horas e 53 minutos e terminou em 3 sets a 2, de virada. O que ficou gravado não foi apenas o placar: foi a frieza com que o brasileiro de 19 anos converteu o match point diante de um adversário que, até aquela tarde, havia perdido apenas uma vez na história dos Grand Slams quando abria 2 sets a 0. Decidiu. E o saibro parisiense mudou de dono, ao menos por um set.
"Monumental", foi a palavra usada pelo professor e primeiro técnico de João Fonseca ao comentar a vitória sobre Djokovic — uma avaliação que, vinda de quem o conhece desde os primeiros golpes, carrega peso específico.
Vinte e dois anos de silêncio e o que Beatriz Haddad Maia revelou sobre o tênis brasileiro
A data de 1º de junho de 2004 funciona como um divisor de águas no tênis nacional. Naquele dia, Guga — então 30º do mundo — eliminou Feliciano López e garantiu vaga nas quartas de Roland Garros pela última vez. Nos 22 anos seguintes, o Brasil produziu tenistas competitivos, mas nenhum homem voltou a pisar nessa fase do Grand Slam francês. A lacuna não é apenas estatística: ela revela uma geração inteira de transição, de investimento em base e de espera por um nome capaz de sustentar o peso do saibro europeu por duas semanas seguidas.
No feminino, o silêncio foi quebrado antes. Em 2023, a paulistana Beatriz Haddad Maia chegou às semifinais de Roland Garros, a melhor campanha de uma brasileira no torneio em décadas. A trajetória de Bia abriu uma fissura no argumento de que o Brasil havia perdido o código genético do saibro — e preparou o terreno simbólico para o que Fonseca agora tenta construir no masculino.
A audiência da vitória sobre Djokovic equivaleu, segundo dados divulgados após o jogo, a três Maracanãs cheios — um número que traduz em cifra o que a torcida brasileira sente: não é só tênis, é a reativação de um imaginário que estava adormecido desde os anos de Guga.
Ruud na frente e Mensik ou Rublev esperando nas quartas
Casper Ruud não é um adversário que se subestima com elegância. O norueguês de 27 anos foi vice-campeão de Roland Garros por duas vezes — em 2022, quando perdeu para Rafael Nadal, e em 2023, quando cedeu ao próprio Djokovic. Seu melhor ranking foi o 2º do mundo, alcançado em 2022, e sua chegada às oitavas desta edição teve drama próprio: precisou virar de 2 sets a 0 contra o americano Tommy Paul para avançar, conquistando sua 320ª vitória na ATP no processo.
O backhand cruzado de Ruud no saibro corta o ar com uma angulação que poucos no circuito conseguem neutralizar. Sua consistência de fundo de quadra é o tipo de pressão que acumula erros não forçados — e que transforma break points em sentenças. Para Fonseca, a resposta precisará vir do mesmo lugar que funcionou contra Djokovic: a variação de ritmo, o drop shot inesperado e a capacidade de elevar o nível nos momentos em que o adversário sente o match point se aproximando.
Nas palavras do próprio Ruud após a virada sobre Tommy Paul, o norueguês reconheceu que "não jogou bem nos dois primeiros sets" — uma admissão que sugere oscilação, mas também a capacidade de encontrar o melhor tênis quando a eliminação ameaça.
O vencedor do confronto entre Fonseca e Ruud encontrará nas quartas de final o tcheco Jakub Mensik, 27º do mundo, ou o russo Andrey Rublev, 13º do ranking — um caminho difícil, mas não intransponível para quem já derrubou o número 4 do planeta em quase cinco horas de tênis. A partida desta tarde, transmitida pela ESPN e pelo Disney+, começa não antes das 15h15 de Brasília, na Philippe-Chatrier — a mesma quadra onde Guga escreveu os últimos capítulos de sua história em Paris, e onde Fonseca agora tenta abrir os primeiros de uma era que ainda não tem nome.
Em matéria do SportNavo, o que se vê nesta campanha é um compositor diante de uma partitura que ninguém tocou em 22 anos: cada ponto, cada ace, cada break point convertido é uma nota nova numa sinfonia que o Brasil esperava sem saber que estava esperando.










