Quantos tenistas com 18 anos, 65º no ranking ATP e apenas um Grand Slam na bagagem entram em quadra contra um ex-top 6 e são discutidos como possíveis campeões do torneio? A pergunta parece absurda — e é exatamente por isso que ela resume o momento de João Fonseca em Roland Garros 2026.

O carioca estreia nesta edição do Grand Slam francês, que vai de 24 de maio a 7 de junho, contra o polonês Hubert Hurkacz, atual 31º do ranking ATP. Antes do sorteio, o especialista britânico David Law chegou a afirmar publicamente que Fonseca poderia repetir o feito de Gustavo Kuerten em 1997 — quando Guga levantou o troféu sendo apenas o 66º do mundo, a pior posição de ranking de um campeão masculino na história do torneio. Casas de apostas já colocam o brasileiro entre os oito mais cotados ao título. O contexto, em tese, é de festa. O chaveamento, por outro lado, é de trabalho.

O que Hurkacz representa no saibro parisiense

Hubert Hurkacz, 28 anos, é um adversário que combina experiência de circuito com um histórico que assusta em qualquer superfície. Já ocupou o 6º lugar mundial e acumula títulos em Masters 1000 — o mais notável, Miami 2021. O saibro não é sua superfície predileta, mas o polonês tem consistência suficiente para explorar exatamente os pontos onde Fonseca ainda é vulnerável: variação de ritmo, jogadas longas de fundo de quadra e gestão de sets equilibrados.

O próprio Fonseca reconheceu a dificuldade sem rodeios.

"O jogo com o Hurkacz vai ser bem difícil, é um jogador com o qual nunca treinei, uma experiência nova. Um jogador que é experiente no tour, não é a melhor superfície dele, mas é um top-30 e já foi top-15, top-10, então vai ser muito difícil", avaliou o brasileiro.

O que Hurkacz representa no saibro parisiense Fonseca estreia em Roland Garros c
O que Hurkacz representa no saibro parisiense Fonseca estreia em Roland Garros c

Se Fonseca passar, enfrentará na segunda rodada um tenista francês — Pierre-Hugues Herbert ou Benjamin Bonzi, que entrou no tableau principal após o forfait do dinamarquês Holger Rune, lesionado no tendão de Aquiles. Uma eventual terceira rodada colocaria o carioca diante de Jack Draper, 5º cabeça de chave do torneio. O caminho é íngreme, mas está traçado com lógica — e não com impossibilidades.

Três derrotas seguidas e o que elas dizem sobre o ciclo de Fonseca

Pensar na trajetória de Fonseca como uma linha ascendente ininterrupta seria ignorar o que o tênis de alto nível exige. O brasileiro chega a Paris após três derrotas consecutivas — um sinal de atenção que, num ciclo olímpico, costuma indicar fase de absorção de informações, não de colapso. Quem trabalhou próximo ao Comitê Olímpico Brasileiro sabe que o padrão de jovens talentos em esportes individuais raramente é linear: há picos, platôs e quedas antes da consolidação. Fonseca está no segundo ano profissional e já soma três títulos — dois Challengers e o ATP 250 de Buenos Aires, conquistado em fevereiro.

No saibro, o carioca mostrou em 2026 que a superfície não é um problema. Em Buenos Aires, venceu o torneio com autoridade. Em Madri, no Masters 1000, deu trabalho real ao americano Tommy Paul, então 12º do mundo. A sequência de derrotas recentes tem mais a ver com o ritmo brutal do calendário — ele encerrou a temporada passada às vésperas do Natal, no Next Gen Finals da Arábia Saudita, que venceu — do que com qualquer regressão técnica. Ainda assim, a consistência em cinco sets, que Roland Garros exige, é território ainda pouco explorado para ele… e aí vem o problema.

Roland Garros como termômetro de uma geração brasileira no tênis

O Brasil chega a Paris 2026 com apenas dois representantes nas chaves principais de simples: Fonseca, no masculino, e Beatriz Haddad Maia, no feminino. Quatro tenistas brasileiros tentaram a classificação pelo qualifying — Thiago Wild, João Lucas Reis, Gustavo Heide e Pedro Boscardin — e todos foram eliminados na segunda rodada. O quadro contrasta com o que se vê no vôlei, onde Brasil e Itália disputam o topo do ranking FIVB há décadas com delegações numerosas nos principais torneios internacionais, ou no basquete, onde a NBA serve como vitrine para uma geração inteira. No tênis, a dependência de um único nome é histórica — de Guga a Bellucci, o circuito brasileiro sempre funcionou em torno de um protagonista central.

Fonseca tem consciência do peso simbólico que carrega em Paris.

"É sempre bom estar aqui. Quando se fala em Paris, a gente ouve muito do Guga. Roland Garros foi o meu primeiro Grand Slam como juvenil, e acho isso maravilhoso. Nasci no saibro, gosto e acho lindo", disse o carioca.
Guga, hoje membro do Hall da Fama do COB, reforçou a mensagem ao ser perguntado sobre o jovem:
"Para o João, qualquer local que ele for o recado que permanece é confiar no processo de treinamento, educação, empenho para se dedicar, conhecer o circuito. Tirar experiência de toda e qualquer partida, vitória e derrota."

Na avaliação do SportNavo, o que Roland Garros 2026 representa para Fonseca vai além de um resultado isolado. Como 28º cabeça de chave do torneio — posição que confirma o salto de ranking desde o Australian Open, onde precisou passar pelo qualifying e eliminou Andrey Rublev, então nono do mundo, por 3 sets a 0 na estreia — o brasileiro entra em Paris com credenciais que nenhum compatriota tinha há anos. Comparativamente, quando Guga ganhou seu primeiro título em 1997, a Espanha já formava uma escola de saibro com Bruguera e Arantxa Sánchez Vicario. O Brasil, hoje, tem Fonseca como ponto de partida de algo que pode levar uma geração para se consolidar.

A partida entre Fonseca e Hurkacz está marcada para o dia 25 de maio, no Stade Roland Garros, em Paris, com transmissão pela ESPN e Disney+. O horário ainda não foi confirmado pelos organizadores. Uma vitória garante ao brasileiro pontos ATP que reforçariam sua posição entre os 60 primeiros do mundo — base necessária para entrar diretamente nas chaves principais dos próximos Grand Slams sem depender do qualifying.