Confesso: eu errei sobre João Fonseca em 2025. Quando ele estreou como profissional, escrevi que precisaria de pelo menos dois anos para ameaçar de verdade um Grand Slam — que a transição do circuito juvenil para o saibro adulto exigiria paciência, não pressa. Hoje, assistindo ao placar 4/6, 4/6, 6/3, 7/5, 7/5 piscar na Philippe-Chatrier após quase cinco horas de batalha, entendo por que errei: subestimei a arquitetura mental de um atleta que, aos 19 anos e 281 dias, acaba de fazer o que Rafael Nadal e Carlos Alcaraz nunca fizeram — vencer Novak Djokovic em um Grand Slam sendo mais jovem do que eles.

O peso de 16 anos que Fonseca carregou na quadra

A última vez que o Brasil esteve nas oitavas de Roland Garros, Barack Obama iniciava seu segundo ano na Casa Branca e Thomaz Bellucci — então número 21 do mundo — avançava no saibro parisiense com uma regularidade de fundo de quadra que encantava os europeus. Era 2010, e ninguém imaginaria que o país esperaria 16 anos pelo próximo nome brasileiro nessa fase. Nessa mesma edição de 2010, curiosamente, Djokovic sofreu sua única derrota de virada em Grand Slam até esta sexta-feira: o austríaco Jürgen Melzer o derrotou nas quartas de final após estar 0 a 2 no placar. O saibro parisiense, portanto, guarda uma memória estranha para o sérvio — e Fonseca, consciente ou não, ativou exatamente esse arquivo.

O jogo começou como um estudo de dominância. Djokovic — tricampeão em Paris, dono de 24 títulos de Grand Slam e número 4 do mundo — impôs seu ritmo desde o primeiro game, quebrando o saque do brasileiro e explorando a tensão natural de quem pisava pela primeira vez na quadra central. O primeiro set fechou em 6/4 para o sérvio, e o segundo repetiu o roteiro: mais quebras, mais pressão, mais 6/4. Dois sets a zero. O script parecia escrito.

Mas então o sol caiu sobre Paris.

A virada que só Melzer havia conseguido em mais de 300 jogos

Em mais de 300 partidas de Grand Slam e Copa Davis, Djokovic havia sido derrotado após abrir 2 a 0 apenas uma vez — justamente aquele Melzer de 2010. Depois disso, Andy Murray chegou ao quinto set em Roland Garros 2015, Stefanos Tsitsipas fez o mesmo em Paris 2020, Taylor Fritz no Australian Open 2021: todos levaram 6/1 na parcial decisiva. Fonseca não levou nada. Ele abriu 6/3 no terceiro set com uma quebra precoce e começou a transformar cada ponto em uma obra de precisão — o backhand cruzado cortando o ar com exatidão milimétrica, o drop shot surgindo quando o adversário menos esperava, os aces — ao menos dois deles decisivos no quinto set — funcionando como pontos finais de frases que não admitiam resposta.

O quarto set foi o mais dramático. Fonseca quebrou cedo, sofreu a reação do sérvio, e só resolveu no décimo primeiro game — uma quebra cirúrgica que igualou o confronto em dois sets a dois. No quinto, Djokovic chegou a parecer o Djokovic de sempre, mas o brasileiro — empurrado por uma torcida que transformou a Philippe-Chatrier num carnaval antecipado — sustentou cada troca longa, cada break point salvo, cada ace como se soubesse que a história estava sendo escrita ponto a ponto. O placar final, 7/5 no quinto, foi apenas a numeração de algo muito maior.

"Foi um prazer entrar em quadra contra ele, só isso já foi incrível. O Djokovic não perde uma, parece que ainda tem 20 anos. Quando o sol caiu, me senti melhor e consegui vencer", disse Fonseca ainda na quadra, visivelmente exausto e incrédulo.

O L'Équipe — jornal que raramente distribui elogios fáceis a jovens tenistas — definiu a partida como "absolutamente dramática" e já antecipou a consequência maior: com a eliminação de Djokovic e de outros campeões de Grand Slam ainda na primeira semana, Roland Garros 2026 terá um campeão inédito. O The Guardian foi além, afirmando que esta vitória "definirá a carreira" do brasileiro. Na Sérvia, o Mozzart Sport descreveu o que o jovem carioca protagonizou como "joga bonito" — uma expressão que os europeus aprenderam com o futebol e que agora, aparentemente, precisam aprender também com o tênis.

O que Fonseca ainda precisa provar nas oitavas

A pergunta que permanece — e que o próprio Fonseca respondeu com honestidade rara — é se a ficha vai cair antes do próximo jogo.

"Estou arrepiado, sério. Sem palavras, sinceramente. Ainda nem caiu a ficha. Estou exausto... Só estou curtindo o momento", confessou o brasileiro à ESPN logo após deixar a quadra.
Ele terá até domingo, 31, para processar tudo. Nesse dia, enfrenta nas oitavas o vencedor do duelo entre o norueguês Casper Ruud — número 16 do mundo — e o norte-americano Tommy Paul, número 21, confronto programado para esta mesma sexta-feira.

A vitória sobre Djokovic — registrada pelo SportNavo como a segunda derrota de virada do sérvio em toda sua carreira em Grand Slams — quebrou também marcas pertencentes a Nadal e Alcaraz. O espanhol Rafael Nadal tinha 20 anos e 4 dias quando bateu Djokovic nas quartas de Roland Garros 2006; Carlos Alcaraz tinha 20 anos e 72 dias quando o superou na final de Wimbledon 2023. Fonseca fez isso com 19 anos e 281 dias — mais jovem do que ambos, num contexto mais adverso do que qualquer um deles enfrentou. Gabriel Medina, Marta, Gabi Guimarães e Gabriel Bortoleto estavam entre os atletas brasileiros que pararam o que faziam para acompanhar cada ponto desta tarde parisiense. O tênis brasileiro não parava o país assim há muito tempo — talvez desde os dias em que Gustavo Kuerten transformava Roland Garros em seu jardim particular.

Fonseca joga pelas oitavas no domingo, 31 de maio, contra Ruud ou Paul, em horário ainda a confirmar pela organização do torneio. Uma vitória ali o colocaria nas quartas de final — e tornaria este Roland Garros não apenas o melhor Grand Slam da carreira do carioca, mas um dos capítulos mais improváveis da história recente do esporte brasileiro.