É um relógio suíço com pavio curto.
Reparemos no detalhe: o Santos chegou a abrir 2 a 0 na Vila Belmiro na noite desta quarta-feira, 20 de maio, diante do San Lorenzo pela quinta rodada da Copa Sul-Americana. Tinha tudo para ser uma noite de alívio — de um clube que respira fundo depois de semanas sufocado na lanterna do Grupo D. E então, nos minutos finais do segundo tempo, a engrenagem travou. Dois gols cedidos. Empate em 2 a 2. E, na saída para o vestiário, uma cena que vai durar mais do que o placar: torcedores xingando e cuspindo na direção de Gabigol, o homem que havia marcado o gol e dado a assistência que construíram aquela vantagem.
O que Gabigol construiu antes de a noite desmoronar
A Vila Belmiro cheirava a grama molhada e expectativa represada. Gabigol entrou em campo carregando o peso de quem precisa provar algo a cada toque na bola — e, por um bom tempo, foi exatamente o que aconteceu. O camisa 9 abriu o placar e ainda participou diretamente do segundo gol, oferecendo a assistência que parecia selar a noite. Eram dois momentos de futebol limpo, da categoria que fez dele um dos atacantes mais decisivos do Brasil na última década.
O técnico Cuca via de longe aquele Santos que ele tenta reconstruir peça por peça. A vantagem de dois gols parecia sólida o suficiente para a equipe administrar. Só que administrar exige equilíbrio, e o Peixe ainda não encontrou esse equilíbrio em 2026. O San Lorenzo, que chegou a Buenos Aires com menos pressão do que seus anfitriões, soube esperar. E nos minutos finais — quando o cansaço é mais honesto do que qualquer esquema tático — a equipe argentina empatou.
A relação entre Gabigol e a torcida santista virou uma ferida aberta
Há algo quase grego na cena que se seguiu ao apito final. Gabigol caminhava em direção ao vestiário quando a arquibancanda virou contra ele — xingamentos primeiro, depois cusparadas. O atacante olhou para cima, para aquelas cadeiras que ele mesmo havia feito vibrar minutos antes, e seguiu em frente sem responder. Silêncio como resposta. Ou talvez cansaço.
A relação entre o jogador e a torcida do Santos nunca foi de lua de mel. Gabigol chegou ao clube em 2026 carregando o histórico de ídolo do Flamengo — e no futebol brasileiro, essa bagagem tem peso. Parte da torcida nunca o acolheu de verdade; outra parte o abraçou condicionalmente, à espera de resultados. Quando os resultados não vêm — ou quando vêm pela metade, como nesta quarta — a conta chega rápido. O SportNavo acompanhou de perto esse processo desde a chegada do atacante à Baixada Santista e o padrão se repete: qualquer tropeço vira estopim.
Veja-se isto: Gabigol foi, objetivamente, o melhor jogador do Santos na noite. Gol marcado, assistência dada, participação direta nos dois únicos momentos positivos do time. E ainda assim foi o alvo. O que isso diz sobre o estado emocional de uma torcida que já não sabe mais onde colocar a raiva não é simples de responder — mas também não pode ser ignorado.
"Ao deixar o gramado, torcedores xingaram e cuspiram em direção ao atacante, que apenas olhou para a arquibancada e seguiu para o vestiário", registrou o SportsCenter Brasil nas redes sociais logo após o jogo.
A lanterna do Grupo D e o que muda agora para o Santos na Sul-Americana
Com o empate em 2 a 2, o Santos permanece na lanterna do Grupo D da Copa Sul-Americana. A situação é delicada: sem possibilidade de assumir a liderança, o Peixe precisa da última rodada para ao menos garantir vaga na repescagem — aquela segunda chance que separa a eliminação precoce de uma sobrevida no torneio continental.
A pressão sobre o elenco é visível. Cuca chegou ao clube com a missão de estabilizar um time que oscila demais — capaz de construir uma vantagem de dois gols e, na mesma noite, ceder o empate nos acréscimos. Essa instabilidade não é nova, mas na Sul-Americana ela tem consequências imediatas: cada ponto perdido fecha uma porta.
O que aconteceu com Gabigol ao final do jogo é, ao mesmo tempo, sintoma e amplificador. Sintoma de uma torcida que transfere para um único jogador a frustração acumulada de uma campanha fraca. Amplificador porque esse tipo de episódio — registrado, filmado, compartilhado — entra no vestiário antes mesmo de o jogador chegar lá. Cria ruído. E ruído, num grupo que ainda tenta se encontrar, custa caro.
Nas palavras do próprio clube em nota divulgada após o jogo, o Santos "lamenta os atos de desrespeito ocorridos ao final da partida" e reforça que "nenhuma forma de violência será tolerada dentro ou fora do estádio".
O Santos volta a campo pela última rodada do Grupo D da Copa Sul-Americana precisando vencer para garantir ao menos a vaga na repescagem. A data e o adversário serão confirmados pela Conmebol nos próximos dias, mas o cenário já está posto: ou o Peixe reage, ou a temporada continental termina antes de junho.












