Confesso: por anos acreditei que o problema do racismo nas arquibancadas sul-americanas era menor do que o europeu, que a Conmebol havia aprendido com os escândalos da UEFA nos anos 2000 e construído um sistema funcional de punição. Estive errado. O que aconteceu na noite de terça-feira no estádio Nuevo Gasómetro, em Buenos Aires, é a prova mais recente de que essa crença era confortável demais para ser verdadeira.

Um torcedor do San Lorenzo foi filmado batendo no peito e fazendo gestos que imitam um macaco em direção aos torcedores do Santos presentes no setor visitante. O jogo, válido pela terceira rodada do Grupo D da Copa Sul-Americana, terminou em 1 a 1, mas o placar virou detalhe secundário diante das imagens que circularam nas redes sociais nas horas seguintes. Segundo relatos de santistas presentes no estádio, a gravação foi exibida a policiais argentinos no próprio local, que recomendaram levar o material à Conmebol — resposta que, por si só, já diz muito sobre como a Argentina trata juridicamente o racismo no futebol.

A punição que a Conmebol aplica e a que ela deveria aplicar

A interpretação dominante sobre a Conmebol é a de uma entidade que evoluiu: criou o Regulamento Disciplinário com artigos específicos para discriminação racial, aplicou multas a clubes argentinos e colombianos em anos recentes e chegou a mandar jogos com portões fechados. Essa narrativa existe, e tem base factual. O problema é o que ela omite.

Quando a UEFA enfrentou sua crise mais aguda de racismo — entre 2012 e 2014, com casos envolvendo torcidas da Dinamo Zagreb, CSKA Moscou e Lazio — a resposta foi escalonada: primeiro multa, depois dedução de pontos, depois exclusão de competições europeias. A ameaça de perder acesso à Champions League, com seus contratos bilionários, mudou comportamentos. A Conmebol não tem esse nível de pressão financeira para exercer. Uma multa de 30 ou 50 mil dólares aplicada a um clube argentino médio não dói o suficiente para gerar mudança cultural nas arquibancadas.

No caso brasileiro, o ato praticado no Gasómetro seria enquadrado como injúria racial — crime imprescritível e inafiançável desde a alteração do Código Penal em 2021. Na Argentina, o mesmo gesto cai numa zona cinzenta civil, com penas que variam entre reparação por danos morais e materiais, sem caráter criminal imediato. Essa assimetria jurídica entre os dois países cria um ambiente onde o agressor sabe, antes de agir, que as consequências são limitadas… e aí vem o problema.

A punição que a Conmebol aplica e a que ela deveria aplicar Gestos de macaco no
A punição que a Conmebol aplica e a que ela deveria aplicar Gestos de macaco no

O que o Santos pode fazer agora e o que a história ensina

A contra-leitura dessa situação, defendida por parte dos especialistas em direito desportivo, é que a Conmebol tem ferramentas suficientes — só falta usá-las com consistência. O artigo 15 do Regulamento Disciplinário da entidade prevê punições que vão de multa até exclusão da competição para clubes cujos torcedores pratiquem atos discriminatórios. O Santos pode — e, segundo apuração do SportNavo, deve — formalizar a denúncia com o vídeo como prova, exigindo que a Conmebol abra processo disciplinar contra o San Lorenzo.

O que o Santos pode fazer agora e o que a história ensina Gestos de macaco no Ga
O que o Santos pode fazer agora e o que a história ensina Gestos de macaco no Ga

O precedente mais citado nesse contexto é o do Atlético Nacional, em 2023, quando torcedores colombianos foram flagrados com gestos racistas contra jogadores brasileiros. A Conmebol aplicou multa ao clube e exigiu campanha educativa nas dependências do estádio. Efetivo? Parcialmente. Suficiente? A reincidência de casos similares responde por si mesma.

Há um paralelo histórico que me ocorre sempre que esse debate ressurge: o futebol italiano dos anos 90. A Serie A era o campeonato mais rico do mundo, recebia os melhores jogadores do planeta — Ronaldo, Zidane, Vieri — e conviveu por anos com cânticos racistas nas curvas sem punição sistêmica. Foi necessária uma combinação de pressão da UEFA, ação judicial individual de atletas e cobertura midiática constante para que a FIGC começasse a agir com mais rigor após 2005. O futebol sul-americano está, em certos aspectos, repetindo esse ciclo com décadas de atraso.

Síntese — entre a multa simbólica e a mudança real

A síntese honesta é que as duas leituras têm razão parcial. A Conmebol avançou em relação ao vácuo regulatório dos anos 90, quando casos como esse simplesmente não geravam processo algum. Mas o avanço foi insuficiente para criar o efeito dissuasório que o problema exige. Multas existem; exclusões de competição por racismo de torcida, praticamente não.

O Santos retornou ao Brasil na madrugada desta quinta-feira sem se manifestar publicamente sobre o incidente, assim como o San Lorenzo e a própria Conmebol. O silêncio institucional nas primeiras 48 horas é, ele mesmo, um dado. Clubes que sofreram racismo e se calaram rapidamente em anos anteriores viram o processo disciplinar morrer por falta de impulso da parte denunciante. A janela para agir com mais força é estreita.

Há algo de estrutural aqui que vai além do futebol: a diferença entre ter uma lei e ter uma cultura de aplicação dessa lei. Pense numa partitura musical perfeita tocada por uma orquestra que não ensaiou — as notas estão todas certas no papel, mas o que chega aos ouvidos é outra coisa. A Conmebol tem a partitura. O que falta é o ensaio — e, sobretudo, o maestro disposto a reger com firmeza quando um músico desafina de propósito.

O Santos enfrenta o San Lorenzo novamente na fase de grupos da Sul-Americana, e o regulamento da Conmebol prevê prazo de até 10 dias corridos para apresentação de denúncias formais após o encerramento de cada rodada. O clube paulista tem até o fim desta semana para decidir se vai ao órgão regulador com o vídeo em mãos — e essa decisão, mais do que o placar de 1 a 1, pode definir o legado desta passagem pelo Nuevo Gasómetro.